Autoridades que investigam o assassinato de uma estudante espanhola de intercâmbio no México prenderam um homem que deverá ser acusado de feminicídio, em um caso que chocou a comunidade acadêmica dos dois países.Claudia Tacoronte Aguilera morreu após ser esfaqueada com uma “arma branca” no sábado (12) durante uma tentativa de assalto em Cuautla, cidade do estado mexicano de Morelos, perto da Cidade do México, segundo as autoridades.A jovem de 21 anos estudava Educação Infantil na Universidade de Granada (UGR), na Espanha, e havia viajado para o México apenas um mês antes, para participar de um programa de intercâmbio acadêmico na Universidade Autônoma do Estado de Morelos (UAEM). Leia Mais Namorado de professora encontrada morta é preso em zona rural de MT Vídeo mostra vizinhos em desespero enquanto homem mata companheira em casa Mineira é morta a facadas na Bélgica; Itamaraty acompanha o caso “Claudia havia iniciado essa jornada acadêmica com o entusiasmo de uma jovem construindo seu futuro. Que uma experiência tão ligada à sua formação e aos seus projetos pessoais tenha terminado dessa maneira causa profunda tristeza em toda a comunidade de Santa Brígida”, afirmou a prefeitura da cidade natal da jovem, em Gran Canaria, em um comunicado.Jovens saem às ruas para protestar contra o assassinato de estudante em intercâmbio no México. • REUTERSNa quinta-feira, 17 de setembro, autoridades de segurança mexicanas prenderam um homem identificado como Francisco Javier “N.”. O Ministério Público de Morelos informou que ele será acusado de feminicídio — o assassinato intencional de uma mulher por razões relacionadas ao gênero. A CNN tenta determinar se o suspeito tem representação jurídica e como pretende se declarar perante a Justiça.No início desta semana, a UAEM havia exigido que o Ministério Público estadual conduzisse “uma investigação imediata e completa, com uma rigorosa perspectiva de gênero, para garantir justiça e evitar a impunidade”.O ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, também pediu uma investigação completa.“Queremos chegar ao fundo disso”, disse ele a jornalistas na segunda-feira, acrescentando que as autoridades espanholas estão em contato com a família da jovem.O que aconteceu?O assassinato ocorreu na noite de sábado, 12 de setembro, perto de um centro cultural que sediava um festival de plantas medicinais.A jovem foi morta durante um suposto assalto com uma faca, segundo o local, que afirmou ter “notificado imediatamente as autoridades” após o incidente.Ela estava hospedada no centro durante a noite para participar do festival, informou o Ministério Público estadual.“Claudia veio a este encontro com o desejo de aprender, conviver e fazer parte de uma comunidade reunida em torno do conhecimento, das plantas medicinais, da saúde e do cuidado coletivo”, afirmou o Instituto Tlahuilli, organizador do evento.O assassinato ocorreu em um estado que enfrenta altos níveis de violência contra mulheres.Jovens saem às ruas para protestar contra o assassinato de estudante em intercâmbio no México. • REUTERSMorelos registrou 21 vítimas de feminicídio entre janeiro e julho de 2026 e, naquele período, tinha uma das taxas mais altas do país, com 21 vítimas para cada 100 mil mulheres, atrás apenas de Sinaloa, segundo a Secretaria Executiva do Sistema Nacional de Segurança Pública.O que é “feminicídio”?A OMS (Organização Mundial da Saúde) define feminicídio como o assassinato de mulheres motivado por questões de gênero.Casos desse tipo ativam protocolos que estabelecem como promotores, policiais e peritos devem conduzir as investigações, explicou Paulina García-Del Moral, professora associada da Universidade de Guelph, no Canadá.“Os protocolos realmente enfatizam tanto o uso de uma perspectiva de gênero — o que significa que é preciso estar atento às formas como o gênero influencia a violência, como a desigualdade de gênero pode ter afetado a vida da mulher assassinada e sua relação com o suposto autor, o contexto da violência no México e especificamente em sua comunidade — quanto o princípio da diligência devida previsto no direito internacional”, afirmou.Indignação nos dois paísesO assassinato de Tacoronte provocou protestos estudantis contra a violência de gênero em Morelos na terça-feira.Em Cuernavaca, no México, colegas acenderam velas e deixaram flores em um memorial montado na segunda-feira no Instituto de Ciências da Educação da UAEM, onde a jovem realizava o intercâmbio.Memorial para estudante de intercâmbio • Miguel Banuelos/AFP/Getty Images via CNN NewsourcePamela Martínez, colega de Tacoronte no Instituto de Ciências da Educação, disse que a comunidade atravessa um momento difícil. “É um momento de solidariedade e respeito. Enviamos nosso mais profundo respeito à família, aos amigos e aos colegas dela”, disse Martínez à Reuters.Frida, professora de dança aérea de Tacoronte, relembrou a personalidade da jovem e a maneira como ela se relacionava com outras pessoas: “Tive a honra de ensiná-la dança aérea, e foi maravilhoso porque tudo o que ela fazia era impecável. Ela sempre tinha a melhor atitude, a melhor energia. Era muito sorridente e disposta a fazer qualquer coisa.”Na Espanha, a Universidade de Granada manifestou sua “mais profunda repulsa e absoluta condenação” pelo assassinato de sua estudante e expressou condolências e solidariedade à família, aos amigos e aos colegas.A instituição também realizou um minuto de silêncio na segunda-feira em memória de Tacoronte e reiterou seu pedido para que todas as formas de violência contra as mulheres sejam erradicadas.A irmã da vítima, Lara Tacoronte, expressou indignação em um vídeo publicado no Instagram: “Não entendo as pessoas ou a sociedade em que vivemos. Isso acontece todos os dias, especialmente com as mulheres, e não é justo. É a forma mais violenta e cruel de morrer.”O que acontece agora?O procurador-geral de Morelos, Fernando Blumenkron Escobar, reuniu-se na segunda-feira com autoridades do Consulado da Espanha no México “para garantir justiça” para Tacoronte, seus amigos e familiares.O governador de Morelos também se reuniu com o cônsul espanhol, Marcos Rodríguez Cantero, para oferecer mais informações sobre o caso.“Estamos recebendo uma cooperação admirável e muito apreciada das autoridades estaduais, e esperamos que as coisas sejam resolvidas nos próximos momentos”, afirmou Rodríguez Cantero.A presidente do México, Claudia Sheinbaum, disse que o Ministério das Relações Exteriores está em contato com o Consulado da Espanha e que o gabinete de segurança está colaborando com o Ministério Público de Morelos na investigação.A CNN entrou em contato com o Ministério Público de Morelos para obter mais informações.Brasil bate recorde de feminicídios pelo quarto ano seguido