Em uma roda de conversa, pergunte a um adulto qualquer se ele era bom em matemática na escola. Boa parte vai responder que não — e alguns dirão isso até com certo orgulho. Mas ninguém costuma dizer que nunca aprendeu a ler direito. Então, por que não saber matemática parece tão normal?Divulgados na última terça-feira (8), os resultados do Pisa 2025, avaliação internacional de estudantes coordenada pela OCDE, ajudam a transformar essa impressão em dados. O Brasil somou 377 pontos em matemática, sua pior área entre as três avaliadas. Leia mais Pisa 2025: Brasil está abaixo de média mundial em aprendizado 10 frases que mostram que você ainda traduz do português para o inglês 53% dos brasileiros querem salários maiores para professores, diz pesquisa O desempenho em matemática mudou pouco nos últimos dez anos. Enquanto o Brasil ficou praticamente parado, a média dos membros da OCDE caiu 22 pontos no mesmo período. Não houve melhora, portanto — apenas deixamos de perder terreno, e o país ainda ocupa a 71ª posição entre as economias avaliadas.Se a queda atravessa países ricos e pobres, a pergunta deixa de ser por que o Brasil vai mal em matemática. Passa a ser outra: o que essa disciplina tem de diferente, que a torna tão mais difícil de ensinar do que as demais?Ouvidas pelo CNN Brasil, duas organizações que trabalham com estudantes da rede pública brasileira buscaram responder a essa pergunta, a partir de escalas bem diferentes de atuação. Apesar das diferenças, as duas chegam a uma conclusão parecida: matemática é a matéria que mais depende dos conteúdos que ficaram pelo caminho.Onde os conteúdos de matemática começam a se perder?As dificuldades em matemática começam cedo — e se acumulam • MagnificO tamanho do problema aparece cedo na vida escolar. Segundo Patricia Borges, gerente de impacto do Instituto Sol, em São Paulo, a proporção de alunos da rede pública com aprendizagem adequada em matemática despenca de 50,6% no 5º ano para 18,8% no 9º. Os dados são de estudo do Todos Pela Educação com base no Saeb, avaliação nacional aplicada pelo Inep.Parte da explicação está na própria estrutura da disciplina. Mateus Moratorio, gerente de educação do Instituto Sonho Grande, lembra que alguns conhecimentos servem de base para o resto — como contar e entender o sistema de numeração decimal. Quando essa base não se firma, os conteúdos seguintes começam a ficar mais difíceis.Sem uma base consolidada, o estudante avança formalmente de ano, mas a distância entre a trajetória curricular esperada e a aprendizagem real vai aumentando. Quem chega ao 8º ano ainda com dificuldade em divisão e frações, explica Borges, pode travar quando aparecem equações e notação científica.A matemática também cobra uma habilidade que parecia ser de outra disciplina. Como boa parte dos exercícios chega em forma de problema escrito, dificuldades de leitura e interpretação já pesam antes da primeira conta, observa Borges: o aluno se perde no enunciado e não consegue identificar o que está sendo pedido.Há, por fim, um componente afetivo que não pode ser desprezado. Moratorio observa que muitos alunos acumulam experiências negativas com a matéria, que acabam virando um obstáculo. Borges vê algo parecido: mesmo jovens de alto potencial acadêmico chegam com receio de errar e transformam uma dificuldade pontual na conclusão de que não levam jeito para a matéria.O que a escola precisaria fazer de diferente?Atendimento direcionado funciona, mas depende de tempo e organização que a escola comum raramente tem • MagnificeO desafio aparece na prática quando todos os alunos estão na mesma sala, mas não estão no mesmo ponto. No diagnóstico de entrada de 2026 do Instituto Sol, 765 estudantes do mesmo ano escolar pontuaram entre 93 e 389 pontos. É uma diferença grande demais para uma aula só, no mesmo ritmo, dar conta de todos.As duas instituições apontam caminhos parecidos: primeiro, descobrir o que cada aluno ainda não sabe; depois, reorganizar temporariamente os grupos de acordo com as dificuldades. Moratorio sugere recursos como materiais concretos e até a calculadora para quem ainda se enrola nas operações básicas.É nesse ponto que a tecnologia pode entrar — não para substituir o professor, mas para ajudá-lo a chegar onde é mais necessário. No Instituto Sol, conteúdos enviados por WhatsApp e um tutor de inteligência artificial ajudam a personalizar o apoio. A automação do diagnóstico também libera tempo do professor para o que realmente importa: a intervenção pedagógica.Mas nenhuma solução funciona na base do esforço individual de quem está em sala de aula. Borges é direta: “a recomposição precisa ser uma estratégia da escola, com organização, tempo e ferramentas adequadas, e não depender apenas do esforço individual do professor”. Moratorio acrescenta a formação docente e a análise dos erros dos alunos como parte desse caminho.A lacuna, ressalva Moratorio, não impede o estudante de aprender e progredir: identificar o que ele não aprendeu e criar as condições para que aprenda é justamente o trabalho. Borges busca uma mudança de perspectiva — fazer o estudante passar de um “não consigo aprender” para um “ainda não aprendi”, o que aumenta a confiança e a disposição para persistir.Dificuldade no ensino de matemática ameaça avanço do Brasil em tecnologia