Brasil, Estados Unidos e União Europeia chegaram a 2026 com modelos bastante diferentes para regular o mercado de criptomoedas. Enquanto o Brasil aposta em uma estrutura construída gradualmente pelo Banco Central e com diálogo frequente com empresas, a Europa já colocou em prática um marco abrangente e mais rígido. Nos Estados Unidos, por outro lado, o desenho continua fragmentado entre leis específicas, reguladores e uma legislação mais ampla que ainda não conseguiu avançar no Congresso.As diferenças entre esses três caminhos foram tema de um painel no Digital Assets Conference (DAC), que reuniu representantes do mercado e do Banco Central. Mais do que discutir qual modelo é melhor, o debate mostrou que cada abordagem começa a produzir consequências distintas para empresas, investidores e para a própria velocidade de desenvolvimento do setor.No Brasil, a principal mudança acontece agora. As Resoluções 519, 520 e 521 do Banco Central criaram o regime de autorização e funcionamento das prestadoras de serviços de ativos virtuais e estenderam ao setor obrigações relacionadas a governança, segurança, controles internos, prevenção à lavagem de dinheiro e transparência com clientes. As normas entraram em vigor em fevereiro, acompanhadas de um período de transição para empresas que já operavam no país.Durante o DAC, Nagel Paulino, do Banco Central, defendeu que a entrada das empresas no perímetro regulatório pode trazer uma consequência que vai além do cumprimento de normas: facilitar a aproximação do mercado cripto com instituições financeiras e investidores estrangeiros.Segundo ele, determinados participantes institucionais evitam negociar com uma empresa quando não existe um regulador claramente responsável pela sua supervisão.“Quando você vai chegar num institucional, você vai chegar num investidor estrangeiro. Se você não tiver aquele tipo específico de qualificação de um regulador, ele sequer tem condições de negociar com você”, afirmou.Brasil aposta em regras que possam evoluirA abordagem brasileira apresentada no painel parte da ideia de que a primeira regulamentação não será necessariamente a definitiva.Paulino comparou esse processo ao que aconteceu anteriormente com instituições de pagamento e fintechs de crédito: as primeiras normas estabeleceram o perímetro e as regras básicas, mas foram alteradas à medida que os mercados amadureceram e novos produtos surgiram.Leia também: Só 5 empresas pediram licença cripto ao Banco Central — e uma já foi rejeitadaNo caso das criptomoedas, a tendência é semelhante. Segundo ele, depois que as empresas estiverem autorizadas e integradas ao sistema regulado, o Banco Central poderá avançar sobre atividades ainda carentes de regras específicas, incluindo staking.Essa lógica também aparece no desenho inicial da regulação. Paulino afirmou que o BC procurou regular atividades e riscos, em vez de criar normas demasiadamente vinculadas a uma tecnologia ou modelo específico de empresa.A preocupação, segundo ele, foi manter flexibilidade suficiente para que a norma não impeça o desenvolvimento de estruturas que ainda não existem hoje.Esse modelo não elimina custos ou dificuldades. Empresas brasileiras já anunciaram encerramentos ou mudanças de estratégia durante a transição para o novo regime. Mas a expectativa apresentada pelo representante do BC é que o enquadramento regulatório também permita uma integração maior com bancos, instituições financeiras e investidores que antes mantinham distância do setor.Reinaldo Rabelo, CEO do Mercado Bitcoin na Europa, argumentou no painel que essa relação próxima com o regulador representa uma diferença relevante entre Brasil e Europa. Apesar de reconhecer que as regras brasileiras ainda precisarão de ajustes, ele defendeu que o diálogo permite corrigir problemas à medida que aparecem.Para Rabelo, portanto, a implementação da regulação não encerra o processo. “O mercado cripto recomeça dia 31 de outubro”, afirmou, defendendo que empresas voltem ao Banco Central para discutir o que funcionou e o que precisará ser alterado depois da implementação.Europa escolheu um marco único — e agora já discute mudançasA União Europeia seguiu praticamente o caminho oposto.Com o MiCA, o bloco criou um dos primeiros marcos abrangentes especificamente voltados aos criptoativos. A legislação estabelece regras comuns para emissores de ativos digitais, stablecoins e prestadores de serviços cripto nos países membros.O regime começou a ser aplicado em 2024 e eliminou parte da fragmentação existente entre diferentes jurisdições europeias. Uma licença obtida dentro do sistema permite que empresas atuem em diferentes países do bloco, obedecendo a um conjunto comum de regras.Mas a abrangência também trouxe críticas.Rabelo, que acompanha o processo de licenciamento do Mercado Bitcoin em Portugal, afirmou que parte das exigências aplicadas às empresas de criptomoedas se aproxima das obrigações impostas a bancos, especialmente na área de segurança cibernética.Leia também: Nova era cripto começa na Europa com MiCA em vigorSegundo ele, o problema é tentar encaixar negócios baseados em ativos digitais em estruturas desenvolvidas originalmente para instituições financeiras tradicionais.“Não existe uma diferenciação entre o negócio cripto e o negócio bancário, apesar de serem totalmente diferentes”, afirmou.No fim do painel, Rabelo citou uma redução expressiva no número de empresas efetivamente enquadradas no novo regime. Segundo o executivo, havia mais de 8 mil empresas cripto operando na União Europeia e pouco mais de 300 haviam passado pela primeira etapa do MiCA. Ele atribuiu parte dessa redução ao peso das exigências regulatórias e defendeu flexibilizações.Os números foram apresentados por Rabelo no evento, mas a própria União Europeia já reconhece oficialmente que chegou a hora de avaliar os primeiros efeitos do marco.Em maio, a Comissão Europeia abriu uma revisão do MiCA para avaliar se as regras continuam adequadas depois dos primeiros anos de implementação. A consulta, cujo prazo foi estendido até 30 de setembro, pode resultar inclusive em uma nova proposta legislativa para alterar ou complementar o regulamento.A discussão ilustra uma diferença importante entre criar regras antes ou depois de um mercado ganhar escala. O MiCA ofereceu previsibilidade e um padrão comum para 27 países, mas agora precisa lidar com a possibilidade de que determinadas exigências tenham sido desenhadas de forma demasiadamente rígida para alguns modelos de negócio.EUA avançam por partes enquanto Congresso não resolve impasseNos Estados Unidos, o problema é diferente: não existe um único marco nacional abrangente.Jason Holloway, diretor de políticas para fintechs do Escritório de Regulação Financeira da Flórida, destacou que o sistema americano já é naturalmente fragmentado entre diferentes autoridades federais e estaduais. Durante anos, a regulação do setor ficou marcada principalmente pelas ações de enforcement da SEC, especialmente durante a gestão de Gary Gensler.Esse cenário começou a mudar. Em 2025, os EUA aprovaram o GENIUS Act, criando uma estrutura específica para stablecoins de pagamento. No painel, Holloway destacou que o regime permite caminhos regulatórios tanto federais quanto estaduais e estabelece mecanismos pelos quais determinados emissores podem operar nacionalmente.Já a tentativa de estabelecer uma estrutura mais ampla para todo o mercado esbarrou no Congresso. O Clarity Act não conseguiu os 60 votos necessários para avançar no Senado nesta semana, deixando novamente SEC e CFTC responsáveis por preencher parte das lacunas.Holloway avaliou durante o evento que dificilmente haverá tempo para concluir a aprovação da legislação no atual Congresso. Ainda assim, espera que as negociações continuem e que SEC e CFTC avancem com regras próprias enquanto o impasse político permanece.Isso já está acontecendo.Em março, SEC e CFTC publicaram uma interpretação conjunta que estabeleceu uma taxonomia para diferentes tipos de criptoativos e esclareceu o tratamento de atividades como staking, mineração e stablecoins. A SEC afirmou na ocasião que a medida deveria funcionar paralelamente ao esforço do Congresso para criar uma estrutura permanente.Em agosto, a SEC avançou novamente ao apresentar a Regulation Crypto Assets, com regras específicas e exceções para determinadas ofertas de ativos digitais. O presidente da autarquia, Paul Atkins, ressaltou, porém, que uma lei aprovada pelo Congresso continua sendo necessária para dar maior permanência às normas e reduzir o risco de mudanças de orientação sob futuras administrações.Três caminhos e o mesmo desafioOs três mercados, portanto, enfrentam o mesmo problema por caminhos diferentes: como criar segurança jurídica sem impedir que uma tecnologia que ainda muda rapidamente continue evoluindo.A Europa priorizou previsibilidade e uniformidade desde o início, mas já revisa se seu marco se tornou excessivamente rígido. Os Estados Unidos avançaram de forma fragmentada, criando primeiro regras para stablecoins e usando SEC e CFTC para preencher as lacunas enquanto o Congresso tenta chegar a um acordo mais amplo. O Brasil está entrando agora na fase prática de um regime que procura estabelecer exigências institucionais sem definir de forma excessivamente detalhada quais tecnologias ou modelos deverão prevalecer.Nenhum desses modelos está concluído.No próprio Brasil, Paulino deixou claro que staking e outras atividades ainda precisarão de maior detalhamento. Na Europa, o MiCA já está formalmente em revisão. E nos Estados Unidos, mesmo com a atuação mais ativa dos reguladores, a SEC reconhece que regras administrativas não substituem completamente uma legislação federal.A diferença mais relevante pode estar, portanto, menos na existência ou não de regulação e mais na capacidade de cada jurisdição de ajustar suas regras conforme o mercado muda.Foi justamente essa questão que permeou o painel do DAC. Para os participantes, uma regulação eficaz não termina quando a norma é publicada: ela precisa continuar sendo construída depois que empresas e reguladores descobrem, na prática, quais regras funcionam e quais precisam mudar.Quer investir na maior criptomoeda do mundo? No MB, você começa em poucos cliques e de forma totalmente segura e transparente. Não adie uma carteira promissora e faça mais pelo seu dinheiro. Abra sua conta e invista em bitcoin agora!O post Executivos comparam regulação cripto de Brasil, EUA e Europa — e criticam falhas de cada país apareceu primeiro em Portal do Bitcoin.