Um dos debates mais aguardados na história do STF (Supremo Tribunal Federal) tinha um torcedor de camarote, Flávio Bolsonaro. Qualquer que fosse o resultado, ele sabia que poderia conquistar dividendos eleitorais. Uma situação lamentável, pois o STF não deveria se prestar a esse papel de termômetro político.Nesse julgamento, a imagem de Flávio estava politicamente ligada à posição do ministro André Mendonça, e no campo oposto ao de Alexandre de Moraes.Há incontáveis exemplos comprovando o alinhamento de Lula a Moraes. Só para citar alguns que ficaram marcados: em novembro de 2022, como presidente eleito, Lula elogiou Moraes, então presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), pela sua “coragem estupenda” na condução das eleições. Um ano depois, em novembro de 2023, o chefe do Executivo concedeu-lhe a Ordem do Rio Branco, uma das maiores honrarias do país.No desfile do dia 7Nem um ano depois, em setembro de 2024, Lula mexeu os pauzinhos para que Moraes pudesse estar presente no desfile oficial de 7 de setembro, momento seguido de prestigiosa recepção no Alvorada. Esses gestos de apreço e consideração foram observados pela população, que viu em Moraes um verdadeiro “companheiro” do presidente.Ah, e Moraes foi o relator da ação que condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. Até hoje, muitos brasileiros, especialmente os eleitores do ex-presidente, veem o episódio como uma perseguição ao líder conservador.Uma pesquisa reveladoraPor esses e outros motivos, as preferências da população estavam divididas. A pesquisa divulgada pela Quaest em 14 de setembro apontou André Mendonça com 37% de aprovação, contra apenas 16% de Moraes. Essa enorme diferença poderia se transformar em torcida no momento da votação.Houve bate-boca de arquibancada. Mendonça chegou a acusar Moraes de mentir: “Isso é mentira! Mentira”, disparou, depois de o colega alegar ter testemunhas de que ele havia direcionado a investigação. E chamou Gilmar Mendes de “leviano”, em resposta a um “É impressionante a desfaçatez desse sujeito”, bradado pelo decano.Tentando debocharAndré Mendonça, que não tem o perfil de se exaltar, ficou visivelmente irritado. Gilmar não perdeu a oportunidade de tentar ridicularizá-lo: “Pode chorar”, provocou. Mendonça se recompôs na hora: “Aqui não tem choro não. Respeite”.O quórum já estava reduzido pela saída de Luís Roberto Barroso, cuja cadeira segue vaga, e pelo afastamento de dois ministros: Nunes Marques, que se declarou impedido por presidir o TSE, e Dias Toffoli, que se declarou suspeito por foro íntimo. A primeira é uma causa objetiva e declarada; a segunda, uma razão pessoal que ele não precisou detalhar.Placar apertadoChegou a haver uma votação, mas só sobre uma questão processual levantada por Gilmar Mendes: se os casos de Moraes e de Mendonça seriam julgados juntos ou separadamente. O placar fechou 4 a 3 a favor de separá-los. Fachin, Mendonça, Fux e Cármen Lúcia venceram Gilmar Mendes, Zanin e o próprio Moraes, que votou normalmente nessa etapa, já que ela não tratava do mérito sobre ele mesmo.Vale dizer: ao contrário de Nunes Marques e Toffoli, Moraes não se declarou impedido nem suspeito, e chegou a sinalizar que pediria para votar também na etapa de mérito, usando como argumento o fato de Mendonça, também parte interessada no caso, votar normalmente. Faltava só o voto de Flávio Dino, que se alinhava a Gilmar, Zanin e Moraes, o que teria fechado o placar em 4 a 4. Só que, em vez de votar, Dino pediu vista, interrompendo a sessão ali mesmo.Ficou para depoisIsso quer dizer que a pergunta que realmente importava nem chegou a ser votada: se o STF vai abrir uma investigação formal contra Alexandre de Moraes pela Petição 16.662, motivada pelas mensagens e pela relação de proximidade dele com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, reveladas num relatório da Polícia Federal. Ficou para a sessão remarcada de 23 de setembro.Com certeza, quanto mais os apoiadores de Alexandre de Moraes tentavam tumultuar a votação, mais Flávio Bolsonaro se sentia satisfeito. Esse comportamento era tudo o que ele desejava para favorecer sua campanha. Tanto assim que Gilmar Mendes, provavelmente prevendo a reação de quem assistia à votação, tentou desqualificar a posição de André Mendonça.Acusando MendonçaAcusou o colega de ter “viés político-eleitoral” na condução do caso. Disse, sem citar o nome de Flávio, que “o relator aguardou a chegada do período eleitoral” e criticou especificamente a escolha do dia da independência para marcar a sessão: “Evidente condução político-eleitoral a escolha do 7 de Setembro. Isso não se faz, pessoas decentes não fazem isso”.Noves fora nada, se alguém saiu vencedor nesse embate, não foi a democracia, nem a justiça, já que as divergências expostas no plenário alimentaram ainda mais a disputa política que se trava fora dele. As próximas pesquisas devem esclarecer se Flávio tem ou não motivos para comemorar.Siga pelo Instagram: @polito