Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) pode abrir uma nova frente de valorização para o cajueiro, cultura tradicional do Nordeste brasileiro.A equipe, conduzida pelo professor Marcelo Cristianini e pela pesquisadora Bruna Castro Porto, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, desenvolveu um processo capaz de modificar fisicamente a goma extraída do caule da planta, ampliando sua capacidade de ser utilizada como emulsificante, função desempenhada pela goma arábica em diversas aplicações industriais.A goma arábica ajuda a misturar e estabilizar substâncias que normalmente não se combinam, como óleo e água. A disponibilidade e o preço do ingrediente, porém, podem variar de acordo com as condições de produção e o mercado internacional. Leia Mais Melhoramentos investe R$ 40 milhões em fábrica de embalagens sustentáveis Cascas de laranja jogadas em área degradada em parque na Costa Rica transformaram local em floresta tropical Angola regulamenta sementes transgênicas; há impacto para o Brasil? Nesse contexto, os pesquisadores passaram a investigar a goma de cajueiro, um polissacarídeo natural formado por moléculas de açúcares e que pode ser extraído do caule da planta.Modificação sem transformação químicaO diferencial da tecnologia está no processo utilizado para alterar as propriedades da goma. Os pesquisadores desenvolveram uma modificação física do polímero, sem promover uma transformação química da molécula.Segundo Cristianini, o processo melhora a capacidade emulsificante do material e pode ampliar suas aplicações industriais.A característica também pode representar uma vantagem regulatória e de mercado, já que modificações químicas podem exigir uma nova denominação do ingrediente e a indicação dessa alteração na composição dos produtos.O potencial da goma modificada, no entanto, não se limita à indústria de alimentos. O material também pode ser utilizado em cosméticos e produtos de cuidados pessoais.Goma de cajueiro é testada em cosméticosA tecnologia já despertou o interesse da empresa Symrise, que atua no desenvolvimento de ingredientes e soluções para diferentes mercados. A aproximação ocorreu por meio da Agência de Inovação Inova Unicamp.A empresa recebeu amostras da tecnologia por meio de um Acordo de Transferência de Material (MTA) para realizar testes e pesquisas. Entre as possibilidades avaliadas estão aplicações em produtos para cabelos, incluindo shampoos e condicionadores voltados especialmente para cabelos cacheados.Para os pesquisadores, a interação com a indústria é importante para verificar o comportamento da goma em aplicações comerciais e identificar novos usos para o material.Nova fonte de valor para o cajueiroAlém do potencial industrial, a tecnologia pode criar uma nova oportunidade econômica para a cadeia produtiva do caju.Atualmente, a exploração comercial do cajueiro está concentrada principalmente na castanha e no pedúnculo, utilizado em produtos como sucos. A extração da goma pode acrescentar uma nova possibilidade de aproveitamento da planta.De acordo com os pesquisadores, a retirada da goma do caule pode ser feita sem comprometer a produção de castanhas e o aproveitamento do pedúnculo.A nova tecnologia pode criar uma fonte complementar de renda para produtores, aumentando o valor gerado por uma mesma cultura.Pesquisa ainda está em desenvolvimentoA tecnologia ainda está em fase de desenvolvimento e avaliação. O próximo passo é otimizar o processo de modificação da goma para permitir a produção de quantidades maiores de amostras destinadas a novos testes.Os pesquisadores também pretendem avaliar a aplicação do processo em outros polissacarídeos naturais.IPCA-15: açaí, feijão e ovos impulsionam inflação de alimentos | CNN AGRO NEWS