A ação de incluir pessoas com deficiência vai muito além de assegurar a existência de rampas de acesso ou informações em braile, por exemplo. Ela está na forma de atender, comunicar, contratar, desenvolver produtos e, principalmente, enxergá-las na sua integralidade. É com esse olhar que o Sebrae lança, no dia 21 de setembro, Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, a Campanha Nacional Anticapacitismo para Pequenos Negócios, realizada em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC).A iniciativa prevê um conjunto de ações de conscientização, mas nesse primeiro momento a mobilização contará com conteúdo nas redes sociais e no Portal Sebrae. No Brasil, 18,6 milhões de pessoas com 2 anos ou mais têm algum tipo de deficiência, o equivalente a 8,9% dessa população, segundo o Censo 2022 do IBGE. O empreendedorismo também faz parte da realidade desse público. Segundo a PNAD, 36,5% das pessoas com deficiência ocupadas atuavam por conta própria, índice superior aos 25,4% registrados entre as pessoas sem deficiência.Para Kelly Scalia, analista de Empreendedorismo, Diversidade e Inclusão e responsável nacional pela pauta de pessoas com deficiência no Sebrae, a campanha quer provocar uma mudança de perspectiva entre os empreendedores.Inclusão é respeito, oportunidade e desenvolvimento. Quando uma empresa remove barreiras e reconhece esse público por suas competências, talentos e potencial, ela amplia sua capacidade de inovar, melhora o atendimento e abre espaço para novos negócios.Kelly Scalia, analista de Empreendedorismo, Diversidade e Inclusão do Sebrae NacionalEssa mudança pode começar por uma atitude simples no dia a dia. “Um negócio só é realmente bom quando é bom para todas as pessoas. Esse caminho começa com uma pergunta simples, mas transformadora: ‘Como posso te atender melhor?’, em vez de presumir o que a pessoa precisa”, reforça Kelly.Luiza Habib é fundadora do Acessibilizei | Foto: DivulgaçãoMudança de olharO debate ganha ainda mais força quando parte da experiência de quem vive essa realidade. Luiza Habib, farmacêutica, especialista em inclusão e direito da pessoa com deficiência, é fundadora da Acessibilizei, negócio voltado à promoção da acessibilidade e à aproximação entre empresas e a comunidade de pessoas com deficiência. Para ela, dar protagonismo a esse público é um dos pontos mais importantes da campanha.“Quanto mais a gente fala sobre a deficiência, mais traz conceitos como capacitismo, anticapacitismo, acessibilidade, tipos de deficiência e traz empreendedores com deficiência para falar. É aquele ‘nada sobre nós sem nós’”. Luiza, que é uma pessoa com deficiência que utiliza cadeira de rodas e andador, conta que um dos reflexos mais presentes do capacitismo é a associação entre deficiência e incapacidade.“Não importa o sucesso que você tenha, o dinheiro, os exemplos ou as histórias. Sempre alguém vai te diminuir e achar que você é incapaz só porque você tem uma deficiência.” Para ela, naturalizar a presença dessas pessoas nos diferentes espaços é parte fundamental da transformação. No empreendedorismo, esse olhar também precisa ir além de enxergar a pessoa com deficiência somente como consumidora. Luiza chama atenção para um potencial ainda pouco explorado pelos negócios.As pessoas com deficiência podem ser parceiras, podem ser fornecedoras, podem contribuir para os pequenos negócios. Não só elas precisam de um produto acessível, mas podem ser a pessoa que fornece, que é o caminho ou o networking para o objetivo daquele pequeno negócio.Luiza Habib, empreendedoraJá a especialista do Sebrae ressalta que muitas pessoas com deficiência também encontram no empreendedorismo uma alternativa diante das barreiras existentes no mercado formal. “Para uma parte desse público, empreender acaba sendo uma alternativa para gerar renda, conquistar autonomia financeira e ocupar espaços que ainda não foram plenamente abertos pelas empresas.”Considerar esse público pode ainda trazer novas oportunidades para os pequenos negócios, seja ao alcançar consumidores, atrair talentos ou desenvolver produtos e serviços melhores. “Acessibilidade e diversidade fortalecem o negócio porque melhoram a experiência de todos. Um empreendimento inclusivo atende melhor, se conecta com mais pessoas e inova com mais consistência”, conclui Kelly.