Sua imagem favorita do espaço pode ser fake: os desafios da astronomia na era da IA

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Poucas coisas aproximam tanto o público da astronomia quanto uma boa imagem. Há décadas, capturas feitas por telescópios e sondas ajudam a revelar estruturas invisíveis ao olho humano e apresentam uma versão visual de fenômenos que acontecem a milhões ou bilhões de quilômetros da Terra. O avanço da Inteligência Artificial (IA), no entanto, coloca essa confiança em risco: hoje, a linha que separa o registro científico legítimo de uma mera invenção digital é cada vez mais tênue. O desafio não está apenas na capacidade de criar fotografias falsas. A astronomia trabalha com imagens que passam por diferentes etapas de processamento antes de chegar ao público. Para quem não conhece esses procedimentos, uma fotografia verdadeira, uma composição de dados, uma simulação e uma criação feita por IA podem parecer coisas semelhantes.É nesse ponto que a divulgação científica ganha uma responsabilidade adicional. Além de apresentar descobertas e explicar fenômenos, passa a ser necessário contextualizar as imagens que acompanham essas informações e deixar claro o que foi observado, como os dados foram obtidos e que tipo de representação está sendo apresentada.Imagem impressionante – e real – dos Pilares da Criação capturada pelo Telescópio Espacial James Webb. – Crédito: NASA, ESA, CSA, STScI; J. DePasquale, A. Koekemoer, A. PaganCasos reais mostram como a IA amplificou a desinformação na astronomiaE essa dificuldade não começou com a IA generativa. Em 2022, o físico francês Étienne Klein publicou nas redes sociais uma imagem apresentada como sendo Proxima Centauri, a estrela mais próxima do Sol, supostamente registrada pelo Telescópio Espacial James Webb (JWST), da NASA.A fotografia, na realidade, mostrava uma fatia de chouriço sobre um fundo preto. Klein posteriormente explicou que se tratava de uma provocação sobre a facilidade com que informações são aceitas e compartilhadas na internet. A publicação, porém, ganhou grande repercussão e foi interpretada inicialmente como verdadeira por parte do público.O episódio demonstrou como uma imagem pode adquirir credibilidade simplesmente por estar associada a uma informação científica. Com os atuais geradores de IA, o problema ganhou uma dimensão diferente. Já é possível produzir representações altamente realistas de planetas, eclipses, galáxias, espaçonaves e outros fenômenos sem que exista qualquer registro correspondente.Foto que viralizou do eclipse solar de 8 de abril de 2024 não é real – foi produzida por IA. – Crédito: Reprodução Redes SociaisEste ano, por exemplo, imagens falsas atribuídas à missão Artemis 2, da NASA, circularam nas redes sociais como se tivessem sido produzidas durante a viagem dos astronautas ao redor da Lua. Verificações identificaram imagens artificiais e conteúdos apresentados fora de contexto. Em um dos casos, uma suposta fotografia da Terra vista pela janela da espaçonave Orion apresentava características incompatíveis com o veículo utilizado na missão. Outra imagem mostrava o Orientale Basin, na Lua, mas não correspondia aos registros reais obtidos pela tripulação.O caso chama atenção porque a desinformação não precisa inventar todo o acontecimento. A missão existiu, os astronautas viajaram ao redor da Lua e produziram fotografias reais. Uma imagem falsa pode simplesmente ser associada a esse contexto para ganhar credibilidade.Nem toda foto tratada de astronomia é fake Na astronomia, a distinção entre registro e representação é particularmente importante. Telescópios não observam apenas a luz visível. Dependendo do instrumento, eles podem captar infravermelho, ultravioleta, raios X e outras faixas da radiação eletromagnética que não podem ser percebidas pelos olhos humanos.Os dados precisam ser processados para se transformar em imagens compreensíveis. Em determinadas situações, cores são atribuídas a diferentes comprimentos de onda para destacar estruturas ou características específicas. Ajustes de brilho e contraste também podem ser utilizados.Por isso, uma imagem científica autêntica pode ter aparência muito diferente daquilo que uma pessoa veria se pudesse observar diretamente aquele objeto. Isso não significa que o registro seja falso. Existe uma diferença fundamental entre processar dados obtidos por um instrumento e fabricar uma representação sem dados observacionais correspondentes.Pesquisas sobre comunicação visual da astronomia já analisavam essa questão antes da popularização da IA. O projeto Aesthetics and Astronomy, desenvolvido por pesquisadores ligados ao Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, nos Estados Unidos, estudou como características estéticas das imagens influenciam a percepção e a compreensão do público. Com a IA, surge, então, uma nova preocupação: além de interpretar escolhas feitas por cientistas e observatórios, o público precisa avaliar a própria origem do conteúdo que recebe. Imagem que viralizou em abril como sendo o primeiro registro da Terra feito pela missão Artemis 2, da NASA, é fake. – Crédito: Reprodução Redes Sociais“A mentira é muito mais bonita que a verdade” A preocupação com informações falsas já fazia parte da rotina de divulgadores muito tempo antes dessa nova geração de ferramentas. Durante o Olhar Espacial da sexta-feira (11), o astrônomo amador e astrofotógrafo Marcelo Domingues lembrou que esse era também um dos objetivos do Astronomia ao Vivo, criado no fim de 2012 para aproximar a astronomia do público pela internet, reunindo observações, notícias, entrevistas, astrofotografias e transmissões de fenômenos celestes. Ao longo dos anos, o projeto também procurou responder a teorias conspiratórias e informações sem fundamento que circulavam na rede.Domingues lembra que, na época que o Astronomia ao Vivo começou, alegações de que as missões lunares seriam uma fraude dividiam espaço com ideias como a Terra plana e a Terra oca. Segundo ele, esses conteúdos encontravam pouco contraponto na internet, o que favorecia sua disseminação.Foi nesse contexto que o projeto também passou a atuar como espaço de esclarecimento. Quando a equipe não tinha conhecimento suficiente sobre determinado tema, recorria a pesquisadores e outros especialistas para apresentar explicações fundamentadas. “Essas besteiras acabam se popularizando porque não tem ninguém desmentindo”, afirmou Domingues.Se antes o desafio era responder a afirmações sem fundamento, hoje a própria apresentação visual pode ser usada para conferir aparência de autenticidade a uma informação falsa. A IA amplia, assim, um problema que a divulgação científica já conhecia: a dificuldade de fazer a informação correta chegar ao público com a mesma força de conteúdos enganosos.José Serrano Agustoni, conhecido como Zeca Astrônomo, também participou da discussão. Formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e ex-engenheiro de petróleo da Petrobras, ele passou a dedicar-se à divulgação científica após a aposentadoria, utilizando equipamentos próprios em transmissões abertas pela internet.Zeca amplia essa discussão para além da astronomia. Para ele, a dificuldade de enfrentar conteúdos produzidos ou potencializados pela inteligência artificial não está apenas na possibilidade de criar imagens convincentes, mas na vantagem que esse tipo de conteúdo pode levar quando disputa a atenção do público com uma explicação científica. “A questão não é não ter gente para fazer contraponto. A questão é que às vezes a mentira é muito mais bonita que a verdade”. A ideia, segundo Zeca, é que uma informação falsa pode ser construída de maneira fantasiosa, extraordinária e imediatamente atraente, enquanto a explicação correta muitas vezes é mais simples ou depende de conhecimentos prévios para ser compreendida. Uma narrativa sobre uma suposta invasão alienígena, por exemplo, pode despertar curiosidade instantaneamente, enquanto a explicação sobre o fenômeno real pode exigir conceitos de física ou astronomia.O apresentador do programa Olhar Espacial, Marcelo Zurita, e dois convidados que falaram sobre divulgação científica na edição de 11 de setembro de 2026, Marcelo Domingues e Zeca Astrônomo. – Crédito: YouTube/Olhar DigitalAlfabetização visual: o caminho para não cair em fakes de IA É justamente essa diferença de apelo que torna o combate à desinformação mais complexo. A questão não se resume a produzir uma resposta correta depois que o conteúdo enganoso circula. É preciso disputar também a atenção do público, apresentando informações científicas de maneira compreensível e interessante, sem abrir mão da precisão. Com imagens artificiais cada vez mais convincentes, esse equilíbrio se torna ainda mais importante.A afirmação aponta para uma dificuldade central da divulgação científica. Uma explicação correta pode exigir contexto e conhecimento prévio. Uma narrativa falsa pode simplesmente explorar o espanto: um fenômeno impossível, uma descoberta extraordinária ou uma situação que parece confirmar aquilo que o público já gostaria de acreditar.Por isso, desmentir uma imagem depois que ela viraliza pode não ser suficiente. A divulgação científica precisa produzir referências confiáveis de forma contínua e ensinar o público a compreender o contexto das informações que recebe.Nesse cenário, a procedência se torna tão importante quanto a aparência. Fotografias e dados divulgados por missões espaciais e observatórios costumam estar associados a informações sobre a missão, o instrumento utilizado, a data, a autoria e o processamento realizado.A resposta, portanto, não está em transformar o público em especialista na identificação de imagens geradas por IA. Está em fortalecer a alfabetização científica e visual: compreender que uma imagem pode ser processada sem ser falsa, que uma representação artística não é um registro e que uma fotografia só ganha valor como evidência quando sua origem pode ser verificada.Para a astronomia, isso representa um novo desafio, mas não diminui a força das imagens como instrumento de divulgação. Pelo contrário. Quanto mais fácil se torna fabricar uma aparência de realidade, maior é a importância de explicar o que existe por trás de cada registro.Em tempos de IA, divulgar ciência também significa ensinar a olhar para uma imagem e perguntar não apenas “o que estou vendo?”, mas “de onde veio isso e quais dados sustentam o que está sendo mostrado?”O post Sua imagem favorita do espaço pode ser fake: os desafios da astronomia na era da IA apareceu primeiro em Olhar Digital.