Mobilidade urbana ganhou destaque nesta sexta-feira, 4 de setembro de 2026, com a apresentação de um estudo do BNDES em parceria com o Ministério das Cidades durante a 32ª Semana de Tecnologia Metroferroviária, em São Paulo. O levantamento mapeia 187 projetos, prevê cerca de 3 mil quilômetros de novos eixos estruturantes e estima em R$ 437 bilhões os investimentos necessários para ampliar as redes brasileiras de média e alta capacidade.A proposta foi apresentada no painel “Regulação, Gratuidade e Expansão das Redes de Transportes”, moderado por Alberto Epifani, da Secretaria dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, e reuniu representantes do Instituto de Engenharia, da NTU e do BNDES. O presidente da AEAMESP, Ayrton Camargo, classificou o estudo como um marco para o setor e afirmou que a iniciativa mensura as perdas causadas pelas deficiências do sistema e aponta caminhos concretos para enfrentá-las.“Para nós, que militamos no transporte há tanto tempo, é quase um sonho ver uma agência pública apresentar uma visão com essa magnitude. Pela primeira vez, temos uma mensuração das deseconomias causadas pela mobilidade nas cidades acompanhada de uma proposta efetiva de atuação”, afirmou.Camargo também colocou a entidade à disposição para apoiar a divulgação e o desenvolvimento das propostas. “Esperamos receber o banco novamente no próximo ano, já com resultados concretos da aplicação prática desse programa”, acrescentou.Planejamento de longo prazo e carteira permanente de projetosLançado em julho de 2026, o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana identificou as necessidades de infraestrutura nas 21 maiores regiões metropolitanas brasileiras, todas com mais de 1 milhão de habitantes. Segundo Pedro Protásio, do BNDES, o diagnóstico mostra que os investimentos no setor têm sido marcados por instabilidade, imprevisibilidade e insuficiência.Ele explicou que a falta de coordenação entre os diferentes níveis de governo e as dificuldades para manter um planejamento contínuo prejudicam a expansão dos sistemas. Além disso, a ausência de investimentos reduz a qualidade e a atratividade do transporte coletivo, afasta passageiros, diminui receitas e compromete a modernização.“Se os investimentos não acontecem, o setor fica cada vez menos atraente para o usuário. Isso reduz as receitas e prejudica ainda mais a capacidade de investir. É necessária uma atuação coordenada dos municípios, dos estados e da União para romper esse ciclo”, afirmou Protásio.O estudo tem três objetivos principais: oferecer uma visão de longo prazo sobre as necessidades da rede, formar uma carteira permanente de projetos e estabelecer uma estratégia nacional para viabilizar técnica e financeiramente os empreendimentos. Somente na Região Metropolitana de São Paulo, o levantamento identificou 41 projetos futuros.Embora o volume total alcance R$ 437 bilhões, Protásio afirmou que os investimentos podem ser distribuídos ao longo dos anos. O pico projetado, de aproximadamente R$ 20 bilhões anuais, já ocorreu no país no período anterior à Copa do Mundo e aos Jogos Olímpicos. “Esse investimento é possível e compatível com outras políticas públicas. O estudo mostra que 70% das regiões metropolitanas analisadas poderiam concluir os projetos previstos em até 15 anos”, disse.O levantamento também aponta que as receitas tarifárias não bastam para financiar a expansão e, em muitos casos, nem cobrem integralmente os custos operacionais. A estimativa é de que cerca de 80% dos investimentos dependam de recursos públicos, com participação da União, dos estados e dos municípios, além de fontes alternativas, receitas extratarifárias e investimentos privados.Mesmo com a necessidade de aportes públicos, o estudo calcula benefícios econômicos e sociais superiores a R$ 400 bilhões, considerando a redução do tempo de deslocamento, a queda das vítimas de trânsito, a diminuição das emissões de gases de efeito estufa e a redução dos custos operacionais.“Nossa conclusão é que vale a pena realizar esses investimentos. Existem diversos benefícios gerados pelos projetos que não entram diretamente nas receitas dos sistemas, mas são apropriados por toda a sociedade”, ressaltou Protásio.A implantação da carteira também teria impacto na cadeia produtiva nacional. Em um cenário de execução integral, seriam necessários mais de 6 mil ônibus elétricos e 2 mil carros metroferroviários, com potencial para gerar mais de 1 milhão de empregos diretos e indiretos.Integração entre ônibus e trilhos na mobilidade urbanaO painel também marcou a primeira participação da Associação Nacional das Empresas de Transporte (NTU) em um evento promovido pela AEAMESP. Representando o setor de ônibus, Francisco Christovam defendeu que os modais deixem de disputar passageiros e atuem de forma integrada.Segundo ele, a escolha entre ônibus, VLTs, trens ou metrôs deve considerar a demanda e as características de cada local. Os sistemas sobre trilhos têm papel indispensável nos corredores de maior capacidade, enquanto os ônibus ampliam o alcance territorial e conectam os passageiros às redes estruturais.“Precisamos somar esforços e permitir que a opção pelo sistema seja feita de acordo com a necessidade. O passageiro não quer saber se o transporte pertence ao município, ao Estado ou à União. Ele quer uma rede funcional, com integração física e tarifária, que o leve ao destino com qualidade”, afirmou.Christovam também destacou os desafios do transporte coletivo por ônibus, que perdeu passageiros para aplicativos, motocicletas, bicicletas e transporte individual. Para recuperar atratividade, o setor precisa entender melhor as necessidades dos usuários, racionalizar itinerários, melhorar conexões e modernizar os modelos de contratação.Entre os avanços necessários, ele citou a separação entre tarifa técnica e valor cobrado do passageiro, além da definição clara de fontes de financiamento para as gratuidades. Também observou que a transição para tecnologias mais sustentáveis, como os ônibus elétricos, exige novas formas de financiar veículos, infraestrutura e custos operacionais.Para Ayrton Camargo, a participação da NTU representa um passo importante para aproximar os modais. “Somos parceiros porque enfrentamos o mesmo desafio: alterar a matriz de transporte. Precisamos retirar passageiros dos modos que provocam mais externalidades e levá-los para alternativas mais racionais, seja na superfície, com ônibus elétricos e VLTs, seja nos sistemas de trens e metrôs. O espaço das cidades exige essa mudança”, afirmou.A manhã do quarto e último dia da 32ª Semana de Tecnologia Metroferroviária também contou com uma apresentação do CREA-SP e com o painel “O Financiamento como Instrumento de Qualidade Ambiental na Mobilidade Urbana”, que reuniu representantes do BNDES e da Caixa Econômica Federal. No debate, Rogério F. Amaral destacou que mobilidade urbana e preservação ambiental caminham juntas e reforçou que o financiamento viabiliza benefícios que permanecem por décadas.A programação do evento seguiu para a tarde de sexta-feira com novos debates sobre inteligência artificial na operação dos sistemas metroferroviários e sobre trens regionais e de alta velocidade, além de uma palestra da Secretaria dos Transportes Metropolitanos e da sessão oficial de encerramento.O post Estudo do BNDES mapeia 187 projetos e aponta caminho para transformar a mobilidade urbana no Brasil apareceu primeiro em Mobilidade Sampa.