A troca de concentração da seleção durante a Copa de 1950 não se deu antes de Brasil e Uruguai como, por décadas, relataram os jogadores

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A primeira vez em que os jornais fazem referência ao local em que a seleção ficaria concentrada durante a Copa de 1950, no Brasil, foi em 23 de maio daquele ano. “No Joá, possivelmente a concentração do scratch”, informou o Jornal dos Sports. A CBD estava em tratativas com o proprietário do imóvel, o empresário Drault Ernanny de Mello e Silva (1905-2002). Naquele mesmo dia, tudo foi acertado, como detalhou a mesma publicação: “Finalmente foi resolvido ontem o angustioso problema da concentração dos cracks brasileiros que participarão da Copa do Mundo. Graças à lembrança do desportista Armando Barcellos [ligado ao Botafogo e amigo de Ernanny], tudo foi solucionado satisfatoriamente, encontrando os dirigentes da entidade máxima a melhor boa vontade por parte do proprietário da Casa dos Arcos, o banqueiro Drault Ernanny, que cedeu sua residência no Joá, graciosamente para a concentração do scratch nacional. Ontem mesmo, Flávio Costa, Castello Branco, Armando Barcellos e Amílcar Giffoni, estiveram em visita ao local da concentração, tomando as primeiras providências para a adaptação do local para a concentração. (…).” O Jornal dos Sports mencionava Armando Barcelos, citado como “desportista” do Botafogo e que passou a ser chamado pela CBD de “patrono da concentração”.A “Casa dos Arcos”, um local distante da região central do Rio de Janeiro, foi aberta aos jogadores em 31 de maio de 1950, quarta-feira, com direito a um churrasco. Já em 20 de junho, depois que a seleção fez um segundo treino no gramado do recém-inaugurado Maracanã, o técnico brasileiro determinou, de forma inesperada, que a concentração do Joá fosse desmobilizada temporariamente e que os atletas voltassem a São Januário. “(…) A medida entrará em vigor hoje [20.06], tendo ficado estabelecido que (…) os cracks ficarão repousando mesmo nas dependências do clube cruzmaltino. A decisão de abolir temporariamente a concentração do Joá deve-se ao fato dos poucos dias que restam para o início da Copa do Mundo. É que no Joá não era possível o preparo intensivo que os cracks necessitam no momento. Além disso, (…) atualmente faz muito frio e o Departamento Médico considerou mais prudente a saída do local para evitar resfriados”, detalhou o Jornal dos Sports. Instalada em São Januário, a seleção estreou na Copa contra o México, no dia 24 de junho, um sábado, e goleou o adversário por 4 a 0. Depois da partida, a equipe voltou ao Joá e a concentração na “Casa dos Arcos” foi reaberta. Na segunda, 26, a equipe embarcou para São Paulo e enfrentou a Suíça, em 28 de junho. No mesmo dia, o grupo voltou ao Rio de Janeiro e ficou em São Januário e não na Tijuca.Em seguida à terceira partida no mundial, no dia 2 de julho, contra a Iugoslávia, ainda pela primeira fase, o Jornal dos Sports publicou: “Os craques brasileiros, ao que ficou estabelecido, não retornarão mais ao Joá. A concentração será mesmo em São Januário, onde existe conforto e toda a facilidade para o bom cumprimento do programa de preparativos. Além disso, a temperatura no Joá, no momento, é desaconselhável aos cracks, devido ao frio que existe durante à noite.”No dia 9, também um domingo, a seleção goleou a Suécia por 7  a 1, no  Maracanã. Após a partida, Flávio Costa decidiu retornar ao Joá, com a seguinte justificativa, de acordo com o Jornal dos Sports: “E para fugir da curiosidade dos torcedores, levou os cracks novamente ao Joá, onde passaram a noite de domingo para segunda-feira. Mas, já ontem [10.07.1950/segunda-feira], todos estavam em São Januário, onde aguardarão o momento da batalha sensacional com a representação da Espanha.” Por apenas uma noite, os jogadores estiveram no local. A partir daquele momento, a seleção nunca mais retornou ao Joá, contradizendo inúmeras fontes que indicam que a desmobilização definitiva da “Casa dos Arcos” se deu depois da goleada contra a Espanha por 6 a 1, no dia 13 de junho, uma quinta-feira. De acordo com os jornais da época, Flávio Costa até quis tirar os jogadores do burburinho de São Januário, visando uma preparação mais tranquila para o duelo contra o Uruguai, longe da torcida. Mas o  departamento médico vetou a ideia e, de novo, a justificativa foi o frio na Barra da Tijuca: “(…) Depois da memorável vitória de ontem sobre os espanhois, os scratchmen brasileiros tomaram o rumo de São Januário e ali encontram-se novamente concentrados, aguardando agora a peleja decisiva. Houve o propósito de levar os cracks novamente para o Joá. Mas o Departamento Médico vetou a sugestão, justificando que a temperatura, no Joá, estava muito baixa e não seria aconselhável expôr os jogadores.(…)”, detalhou a reportagem do Jornal dos Sports.Às vésperas da partida contra os uruguaios, marcada para o domingo, 16 de julho de 1950, a concentração em São Januário virou um inferno com a presença de torcedores, cartolas e políticos, pois afinal, era ano eleitoral. Em um Maracanã abarrotado, a seleção perdeu por 2 a 1, de virada. Entre as justificativas para a perda da Copa, os atletas passaram décadas citando a falta de sossego nos alojamentos do Vasco. Eles culpavam o técnico Flávio Costa por determinar ou aceitar a saída da tranquilidade do Joá. Entretanto, uma pesquisa criteriosa nos jornais indica que, durante o mundial, a equipe brasileira ficou mais tempo em São Januário do que na “Casa dos Arcos”. De 24 de junho a 16 de julho, os jogadores passaram apenas três noites na Barra da Tijuca.