Inspirada na coluna “Lugar de cocô de cachorro não é na sola de sapato”, de Becky Korich, publicada na Folha de S.Paulo, aproveito o Dia da Gentileza Urbana para pensar naquilo que devemos uns aos outros quando dividimos os espaços urbanos. Somos cerca de 87% de brasileiros morando em cidades.Gentileza urbana costuma ser confundida com boa educação, simpatia, um sorriso, um bom dia oferecido a quem passa. É pouco. Viver entre milhões de desconhecidos exige algo anterior à gentileza: civilidade.Civilidade é compreender que a cidade não termina onde começa a nossa vontade. A calçada não é minha e nem extensão da nossa casa, o banco do ônibus não pertence à nossa mochila, a rua não é lixeira, a vaga destinada a outra pessoa não se torna nossa porque serão “só uns minutinhos”. E cocô de cachorro, convém lembrar, não desaparece quando seu dono vira a esquina. Fica lá esperando que algum cidadão pise nele como ocorreu com ela e comigo recentemente. Saio de casa literalmente olhando para o chão minado de excrementos.Recolhê-lo não deveria ser considerado um ato de gentileza. É obrigação e ponto final. Assim como não bloquear uma rampa, respeitar uma fila, não avançar sobre o pedestre ou não obrigar desconhecidos a participar da nossa vida particular.Talvez seja aí que entre um comportamento tão cotidiano que quase deixamos de percebê-lo: o barulho.Gritamos para conversar a poucos metros de distância. Gargalhamos em restaurantes, cafés, salas de espera e vagões fechados como se as paredes delimitassem apenas a nossa mesa ou o meu espaço na cidade. Atendemos ao celular e oferecemos aos demais passageiros detalhes de reuniões, negócios, brigas conjugais, discussões com fornecedores, maledicências diversas e detalhes de exames médicos. Assistimos a vídeos sem fones. Crianças gritam, adultos gritam para as crianças pararem de gritar e, em algum momento, ninguém mais percebe o volume da própria voz. Para escrever preciso de inspiração: nada melhor do que subir num ônibus, ir à praça, pegar o vão de trem, sentar em frente a um bar para obter material de primeira para a próxima crônica. Está lá, de graça: todos contam tudo sem o menor pudor aos berros.Fora do país, não é raro ouvirmos brasileiros comentarem, entre constrangidos e divertidos (não sei do quê), que reconheceram outros brasileiros antes mesmo de escutarem uma palavra: pelo volume — da vóz e pelos gestos espalhafatosos. A anedota pode conter estereótipos. Eu bem sei; mas o comportamento que a alimenta merece atenção.Porque ruído também ocupa espaço.Não deixa sacola no chão nem impede fisicamente uma passagem, mas atravessa a mesa ao lado, invade o apartamento vizinho, entra no ouvido de quem lê, trabalha, descansa ou simplesmente não deseja participar da nossa alegria, da nossa conversa ou da nossa música.Numa madrugada recente — que passei em claro porque os anfitriões do condomínio ao lado promoveram um karaokê —, ouvi quem considerasse exagero reclamar: coisa de mulher chata que não sabe ser feliz. Tem quem considere tudo isso de espontaneidade, expansividade, jeitinho de ser do brasileiro, coisa cultural, imagino. Considero, particularmente, incivilidade e egoísmo ou, ainda, comportamentos que revelam uma dificuldade bastante elementar de conviver socialmente respeitando o direito do outro.A gentileza começa quando, além de cumprir aquilo que a convivência social exige, percebemos alguém. Cedemos passagem. Seguramos uma porta. Diminuímos o passo. Baixamos a voz.Civilidade é reconhecer que o outro tem lugar no mundo urbano além do nosso. Gentileza é perceber que, às vezes, para que o outro cidadão caiba, precisamos ocupar um pouco menos.