Candidato ao governo e ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT) cobrou explicações da prefeitura após a Operação Vectura Corrupta. Deflagrada nesta quinta-feira (17/9), a ação mira empresas de transporte público no estado por suspeitas de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC).“Essas coisas precisam ser explicadas, porque, por trás desses esquemas, você pode ter certeza de que tem algum vínculo político que precisa ser esclarecido. Ninguém faz isso sem ter algum suporte político por trás”, afirmou o petista durante agenda de campanha em Jundiaí, no interior.Entre os alvos, está o ex-presidente da Câmara Municipal, Milton Leite (União), aliado do prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), e do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Ao todo, a Polícia Civil e o Ministério Público paulista (MPSP) cumprem 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão.Haddad ainda disse que a Prefeitura de São Paulo deve dar esclarecimentos sobre as investigações recentes envolvendo contratos assinados pela gestão municipal, como os que envolvem a concessão de cemitérios, o fornecimento de Wi-Fi nas periferias e a questão do transporte público. “Tanto a polícia quanto o Ministério Público podem avançar nessas investigações para saber qual é o esquema político que está por trás”, disse.Prefeito paulistano entre 2013 e 2016, Haddad também afirmou que, quando deixou o cargo, as licitações envolvendo o transporte por ônibus tinham apenas um concorrente para cada lote.A concessão das linhas de ônibus aconteceu em 2019, após anos de adiamentos ordenados pelo Tribunal de Contas do Município (TCM) devido a irregularidades técnicas nos editais lançados pela Prefeitura. O acordo anterior havia sido assinado em 2003, sob a gestão de Marta Suplicy (PT), e terminou em 2013.O edital previu a divisão do serviço em subsistemas e colocou 32 lotes em disputa, cobrindo toda a cidade. No entanto, apenas um deles teve concorrência. Os outros 31 lotes registraram somente uma empresa ou consórcio de empresas interessados.O Metrópoles procurou a Prefeitura de São Paulo para comentar as falas de Haddad sobre a licitação e aguarda retorno.Entenda a operação contra o PCC no transporteSegundo a investigação, o suposto esquema envolvia empresas, advogados, integrantes do crime organizado e agentes públicos para alcançar os objetivos da facção.A ação desta quinta-feira é um desdobramento de outra operação, deflagrada em agosto de 2024 e batizada de Decúrio. Na ocasião, as autoridades identificaram uma rede de comunicação entre integrantes da PCC e trocas de mensagens sobre a atuação do grupo.A investigação cita a “contaminação, pelo crime organizado, de empresas de transporte coletivo de passageiros na Capital e no interior”. Essa infiltração, de acordo com as autoridades, ocorria por meio de uma estrutura organizada que combina o uso de empresas de fachada, direcionamento de licitações, apoio político e lavagem de capitais.Os criminosos também utilizariam os sócios formais das concessionárias e empresas de ônibus como “laranjas” para ocultar os verdadeiros proprietários das empresas, que seriam integrantes do PCC. Além disso, o grupo teria promovido ajustes prévios para direcionar licitações e obter contratos emergenciais em diversos municípios. Há registros de acordos para que as empresas passassem a ser administradas por membros da facção logo após vencerem as licitações, mediante repasse de propinas a agentes públicos.As facilidades no setor, conforme indica a apuração, seriam obtidas em troca do financiamento de campanhas eleitorais de candidatos e cooptação de agentes públicos. Candidato a deputado estadual, Danilo Morgado (PL) foi preso durante a operação desta quinta-feira. Morgado é investigado por envolvimento com o núcleo político do PCC. Segundo a polícia, a campanha dele ao pleito municipal, em 2024, foi financiada pela facção criminosa. Leia também São PauloHá 18 dias Tarcísio agradeceu Milton Leite, alvo do MPSP: “Parceria enorme” São PauloMilton Leite nega estar foragido e diz que vai se apresentar em 24 horas São PauloQuem é Milton Leite, alvo de operação contra o PCC no transporte de SP São PauloQuem são os alvos de operação contra esquema do PCC no transporte público Os agentes da PCSP ainda citam encontros periódicos com ex-gestores do sistema público, como o servidor da SPTrans Levi Oliveira, e políticos que atuariam como responsáveis ou proprietários por empresas do setor, como o ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União), apontado como dono da Transwolf.O dinheiro do crime seria injetado no setor de transporte por meio da negociação de veículos e compra/venda de frotas inteiras de ônibus, com pagamentos de comissão aos laranjas, além da transferência de valores entre as contas das empresas e dos investigados.A apuração também indica a existência de um núcleo chamado “Sintonia dos Gravatas”, composto de advogados e operadores ligados à facção, que teriam o papel de intermediar negociações contratuais, atuar em licitações, gerenciar repasses de comissões e disponibilizar contas bancárias e escritórios para reuniões de integrantes do esquema.“Em síntese, os elementos descritos pela autoridade policial procuram demonstrar que a atuação investigada extrapolaria o tráfico de drogas, abrangendo a utilização de empresas de transporte, pessoas interpostas, contratos públicos, articulações políticas e estruturas da área da saúde, além de evidenciar suposta divisão de tarefas e subordinação entre os envolvidos, com atuação coordenada em benefício do PCC”, diz um trecho do documento.O que dizem os envolvidosO Metrópoles tenta contato com os investigados. Por telefone, Milton Leite negou envolvimento no esquema e destacou que se apresentará às autoridades dentro de 24 horas.Em nota, a Prefeitura de São Paulo anunciou que a intervenção determinada na empresa Transwolff, em abril de 2024, foi uma medida para proteger o sistema municipal de transporte. Na mesma ocasião, a administração municipal determinou a intervenção na UPBus, “mesmo sem qualquer solicitação da Justiça”. A administração municipal diz que sempre agiu com rigor, inclusive encerrando contrato a fim de preservar o interesse público e garantir que a população não fosse prejudicada.A administração municipal informou ainda que abriu processo pela Controladoria-Geral do Município contra as empresas e, desde então, atua em conjunto com o Ministério Público e a Polícia Civil no processo investigatório.Sobre o “conluio” citado por Fernando Haddad, a Prefeitura de São Paulo foi procurada pelo Metrópoles, mas ainda não respondeu. O espaço segue aberto.Também em nota, a Câmara Municipal de São Paulo disse acompanhar os desdobramentos das investigações promovidas pelo MPSP, em conjunto com a Polícia Civil e o Poder Executivo, e aguarda as conclusões.