Vestidos “vivos” podem se limpar e se renovar sozinhos

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Comprar uma roupa que não vai exigir muito cuidado na hora de lavar vai facilitar sua vida. Uma roupa que não precisa do ferro de passar? Melhor ainda. Mas e se a ideia é uma roupa que se limpa e se repara sozinha? Parece um sonho, né? Mas esse é o projeto de pesquisadores chineses: um tecido feito a partir de micélio vivo que é autolimpante, quase autorreparador e pode ser colorido ou receber proteção UV por meio da adição de diferentes fungos ou leveduras.A inovação dos pesquisadores dos Institutos de Tecnologia Avançada de Shenzhen é um material vivo projetado (ELM, na sigla em inglês) – um tecido construído a partir de organismos vivos que permanecem ativos mesmo depois da etapa de fabricação.Isso o distingue da maioria dos usos contemporâneos do micélio, que é o nome dado à rede de raízes de diferentes tipos de fungos. Esse material é usado para os mais diversos fins e, na indústria têxtil, virou matéria prima para tecidos que podem substituir o plástico e o couro, por exemplo.As asas dessa borboleta decorativa são feitas com tecido de micélio vivo. Foto: Ke LiMas, com a inovação vinda da China,  ao invés de usar as fibras do micélio, o novo tecido mantém o fungo Cordyceps militaris vivo, porém dormente. Com isso, os pesquisadores conseguiram aproveitar suas funções biológicas. Leia também: 1.Empresa cria fraldas com fungo que transformam lixo em solo fértil 2.Fungos armazenam um terço das emissões de carbono do planeta O resultado é um material autorrenovável e responsivo ao ambiente, um tecido que pode inovar surpreendentemente as criações de estilistas e marcas. A inovação permite ainda a mistura com outros fungos ou leveduras, criando novas funcionalidades e características.Segundo Ke Li, pesquisadora principal da equipe, o tecido é uma “plataforma fúngica programável” onde o micélio é tratado como um sistema modular, com o material em forma de folha formando uma estrutura básica com habilidades biológicas extras, como cor e resistência aos raios UV, complementos criados por meio de outros organismos conectados ao elemento inicial.O tecido pode ser transformado ao longo do tempo com outras formas de vida e alimentos. Foto: Ke LiIsso aproxima o tecido deles da capacidade de autorreparo, da responsividade ambiental e da funcionalidade controlável que são a promessa dos materiais vivos projetados, argumentam eles.Li e sua equipe detalharam todas as informações em um artigo publicado na revista científica revisada por pares Science Advances e criaram um protótipo de vestido criado em parceria com a empresa de inovação em materiais Peelshere.“Embora a biologia sintética tenha expandido enormemente as capacidades funcionais dos ELMs, um desafio persistente reside na integração da montagem estrutural autônoma com a atividade biológica sustentada em escalas macroscópicas”, escrevem os cientistas.Tecido vivo pode ser usado em roupas e outras criações. Foto: Ke Li“Alcançar essa integração é essencial para aplicações práticas, desde têxteis adaptáveis ​​a biomateriais arquitetônicos, onde robustez mecânica, uniformidade espacial e fabricação escalável devem convergir com a função biológica projetada”, conta Li. Leia também: 1.Biotecido é alternativa mais limpa para indústria da moda 2.Tecido inspirado em pele de lula ajusta a temperatura das roupas Como funciona o tecido?A capacidade de autorrenovação e semirreparo do ELM provém da estrutura da base do micélio. Após a secagem a 45 graus, o material não está exatamente vivo nem exatamente morto, mas sim em um “estado dormente de baixo metabolismo”, explicou Li, o que significa que não está crescendo ativamente.No entanto, um novo crescimento pode ser estimulado pela aplicação de uma solução nutritiva de água de batata, levando o micélio dormente a germinar, emitir novos filamentos fúngicos e renovar a superfície do material.Vaso feito de tecido de micélio. Foto: Ke LiQuando essa solução nutritiva é aplicada sobre um orifício, juntamente com uma pequena porção de fungo fresco, ela estimula o crescimento de células vivas na área afetada, reparando a superfície de forma imperceptível, sem a necessidade de adesivos ou costuras. O material também possui propriedades autolimpantes naturais, pois é hidrofóbico.A cor azul e a resistência aos raios UV, por sua vez, provêm da levedura de cerveja – também conhecida como Saccharomyces cerevisiae – e do fungo Aspergillus niger, respectivamente. Estes são misturados com o Cordyceps militaris no início e simplesmente cultivados em conjunto, evitando a necessidade de engenharia genética.Vestido vivoO protótipo de vestido foi confeccionado com o material dos cientistas pela empresa Peelshere, sediada em Berlim, cuja fundadora, YouYang Song, é amiga de Li. Song desenvolveu o design conceitual e estético do vestido, enquanto sua colega Ruochen Wang, que reside na China, cuidou do corte e da confecção.O vestido apresenta diversas versões do material, incluindo algumas cultivadas em conjunto com levedura de cerveja para obter a tonalidade azul uniforme e autopigmentada no corpo da peça.Vestido vivo criado a partir de tecido de fungo. Foto: Ke LiLi acredita que o material é adequado para aplicações como moda conceitual, acessórios, superfícies têxteis decorativas, peças de exposição e embalagens biodegradáveis.“Sua textura de superfície diferenciada, coloração biológica, reparo controlado e biodegradabilidade podem ser particularmente úteis em aplicações onde a expressão visual e uma vida útil definida do produto são importantes”, disse ela.“Seriam necessárias melhorias adicionais em durabilidade, resistência à umidade, segurança e consistência de fabricação antes que o produto pudesse ser considerado para uso em vestuário de uso diário ou em projetos arquitetônicos permanentes.” Leia também: 1.Tecido translúcido e lavável é feito com bagaço de maçã 2.Fibras de bananeira viram tecido biodegradável The post Vestidos “vivos” podem se limpar e se renovar sozinhos appeared first on CicloVivo.