Ana Lua Caiano será das poucas artistas a levar para palco, no mesmo concerto, um pandeiro e um sintetizador. Conhecida como uma one woman band, a artista atuou no Festival Iminente, que decorre até amanhã, em Marvila, levando consigo a fusão de géneros musicais que lhe é característica.Com dois singles de avanço — Uma Vida a Menos e Um Mais Um —, prepara um novo álbum em que as inquietações do presente encontram lugar: desde a vida organizada em torno do trabalho, até à imigração, guerra e Palestina.A Líder esteve à conversa com a artista sobre o seu percurso, liberdade criativa, representação feminina no mundo da música e o papel da cultura num futuro que admite olhar com apreensão.Ana Lua Caiano atuou no Festival Iminente no dia 17 de setembro. Créditos: Leonor WickeCruzas música tradicional com outros géneros musicais. Como chegaste a essa linguagem tão própria e como foi encontrar um lugar comum para géneros tão diferentes?Sinto que esta junção começou durante a pandemia. Antes da Covid-19, tinha vários grupos musicais, várias bandas, e já explorava a música tradicional nesses grupos e nas minhas composições. E um pouco antes da pandemia, comecei a fazer workshops de sintetizadores e de várias coisas mais relacionadas com a eletrónica. Fiz também workshops de música concreta e de outras coisas um pouco fora do mundo de onde vinha, que era o da música clássica e do jazz.De repente, veio a Covid-19 e eu estava com essas novas ideias na cabeça. Tinha acabado de comprar um sintetizador e, portanto, tinha essa junção entre um mundo que já conhecia melhor, o da música tradicional, e a eletrónica, que estava a começar a explorar. A pandemia deu-me espaço para conseguir explorar essa ligação.Créditos: Leonor WickeConsideras as tuas canções música de intervenção? Achas que este conceito pode estar a ganhar um novo significado ou uma nova importância nos dias que correm?Sempre ouvi músicos de intervenção, como Zeca Afonso e Sérgio Godinho. Eles falavam muito dos problemas que existiam na altura, que, felizmente, já não são os mesmos que existem hoje. A minha linguagem de escrita também acaba muitas vezes por falar dos problemas que existem na sociedade. Não são tão maus como os que existiam naquela altura, mas ainda existem muitas coisas.No próximo disco que vou lançar, falo muito sobre a imigração e sobre a guerra, muito inspirada na questão da Palestina. Acabo por falar bastante dos temas que me preocupam na atualidade. Agora, não sei bem se isso é intervenção. Mas tenho uma necessidade de falar daquilo que me preocupa. Achas que a música de intervenção pode estar a ganhar um novo significado nos dias que correm?Acho que a música pode ter muitas formas e não tem de ser necessariamente de intervenção. Para mim, falar destas coisas que me preocupam é o que gosto de fazer. Por exemplo, o último single que lancei, Uma Vida a Menos – que é o primeiro single deste disco – fala sobre o facto de a vida girar à volta do trabalho e de as pessoas não terem tempo para descansar.Lancei-o em maio, no mês do Dia do Trabalhador, e de repente ganhou outra conotação. Queria lançá-lo nesse mês por causa disso. Para mim, é bom perceber que a música também pode juntar-se a essas causas. Não sei se ajuda em alguma coisa (risos), mas fico contente com isso, porque acho que são questões que precisam de mudar.Créditos: Leonor WickeÀ medida que o teu trabalho vai ganhando visibilidade, sentes mais liberdade para arriscar ou algum conforto no lugar onde já estás?Sinto que sempre fiz a minha música muito para mim. No fundo, gosto de acabar músicas para fazer outras músicas. Lanço-as para poder começar outros trabalhos.Tudo o que vem a seguir é uma parte boa. Nunca estive à espera que houvesse pessoas a ouvir e que pudesse tocar ao vivo. Tem sido mesmo incrível e sinto que acabo por ter muita liberdade.Por exemplo, em Uma Vida a Menos, há uma parte bastante longa, de cerca de vinte segundos, que é só piano. Claro que me passou pela cabeça: «Será que isto vai passar na rádio?» Poderia eventualmente ter cortado essa parte, mas pensei que o que me interessa é fazer aquilo que gosto. Acho que vou continuar assim.Sinto que este disco tem um bocadinho mais de exploração nesse sentido e já estou a pensar noutras coisas que, se calhar, são ainda mais malucas. Portanto, vou continuar a fazer o que me vai apetecer fazer. O que pode um festival como o Iminente trazer à comunidade, especificamente aqui em Marvila, onde existem vários bairros e diferentes realidades? O que pode trazer à cidade de Lisboa?Acho que este festival é mesmo muito incrível. Primeiro, porque pega em espaços que foram abandonados e os valoriza. É uma pena existirem tantos sítios abandonados em Lisboa e tantas pessoas a precisar de espaço para estar. Acho muito bonito pegarem nestes espaços, que também ganharam outro tipo de vida por estarem abandonados, e, de repente, habitarem-nos desta forma.Depois, trazem muitos tipos de arte diferentes para o festival, músicos mais pequenos, músicos maiores e muitos tipos de música. Isso é muito importante, porque dá palco a muitos artistas.É incrível podermos explorar, ver arte e ouvir música. É um festival muito eclético e acho que também é muito importante estar nestes espaços. É preciso que a cultura chegue a todo o lado. Como achas que está a representatividade feminina na música portuguesa?Felizmente, hoje em dia sinto que estão a aparecer muitas cantoras, produtoras e compositoras, algo que antigamente não acontecia tanto. A mulher era muito mais intérprete do que propriamente compositora. Ou, se era compositora, não mostrava as suas coisas.Fico muito contente por ver tantas mulheres a aparecer. Claro que ainda têm de existir mais, mas começam a aparecer pessoas da minha idade, como a Emmy Curl, Bia Maria, Rossana e A Sul. Sinto que há muitas pessoas da minha geração e isso significa que, daqui a dez anos, provavelmente vamos ter ainda mais.Acho importante que estejam nos festivais porque a representação faz com que mais miúdas pequeninas consigam perceber que também conseguem fazer isso. É muito importante.Créditos: Leonor WickeO tema da nossa próxima revista é After Tomorrow. Estamos a fazer exercícios de futurismo para pensar como serão os próximos trinta anos. Como imaginas esse futuro e o que achas importante levarmos connosco para o After Tomorrow?Esta semana têm saído aquelas notícias muito fatalistas que dizem que, daqui a dez anos, já não haverá humanidade. Portanto, é difícil, porque há muitas coisas que parecem ameaçar a humanidade, tanto em termos tecnológicos como em termos de ideais. Há muitos ideais que voltaram a ser um pouco fascistas e é assustador pensar sobre isso.Quero acreditar que esse tipo de ideias pertence a minorias. Infelizmente, são minorias que falam muito, mas espero, principalmente, que essas ideias não avancem tanto.Com a minha música, vou continuar a falar de tudo aquilo que me incomodar e espero que, de certa forma, isso ajude. O que achas que falta aos líderes da atualidade? Que músicas lhes recomendarias ouvir para se tornarem melhores?Falando da cultura, sinto que Portugal está mesmo muito atrasado em relação a outros países. Acho que é o único país, tirando a Ucrânia, que agora está em guerra, que não tem um gabinete de exportação de música. Portanto, não há algo estatal que pense em como vamos promover e mostrar a música portuguesa lá fora. Isso é muito importante. Por exemplo, num concerto conheci uma rapariga islandesa que dizia que, só por ser da Islândia, um país muito associado à Björk, toda a gente quer que ela toque em todo o lado.Promover a música de um país é muito importante, também para trazer pessoas para cá e para mostrar a música.Portugal não pensar numa estratégia e não ter apoios, por exemplo, para tocar lá fora torna tudo muito difícil. Existe a WHY Portugal, existe a GDA — Gestão dos Direitos dos Artistas, que também tem apoios, e existem várias iniciativas, mas não há um organismo estatal.Espero que os líderes consigam perceber que a cultura é mesmo muito importante. E que vão ouvir o álbum Com as Minhas Tamanquinhas, do Zeca Afonso. Fotografias: Leonor WickeO conteúdo Ana Lua Caiano no Iminente: «Com a minha música, vou continuar a falar de tudo aquilo que me incomodar.» aparece primeiro em Revista Líder.