Uma investigação da Nova SBE e da Blink Impact aponta para um problema menos imediato do que a falta de dinheiro: as regras, métricas, relações e horizontes temporais do próprio sistema de investimento podem não estar preparadas para financiar processos de regeneração. A investigação, desenvolvida pelo Leadership for Impact Knowledge Center da Nova SBE em parceria com a Blink Impact, procurou perceber por que razão o turismo regenerativo permanece relativamente marginal no investimento e, sobretudo, onde existem pontos de intervenção capazes de alterar essa realidade.O estudo recorreu a uma revisão interdisciplinar da literatura, a ferramentas de systems mapping e a 25 entrevistas com diferentes intervenientes, entre investidores, académicos, profissionais e intermediários. O objetivo não foi reunir uma coleção de exemplos de boas práticas, mas compreender as relações que mantêm o atual sistema em funcionamento e identificar os pontos onde uma mudança pode produzir efeitos mais amplos.A própria Nova SBE descreve o turismo regenerativo como uma alternativa ao paradigma convencional do setor, procurando ultrapassar a simples minimização dos impactos negativos e contribuir para efeitos positivos nas comunidades, nos ecossistemas e nas economias locais. A investigação olha, por isso, para o turismo não como uma atividade isolada, mas como parte de sistemas territoriais mais vastos. O capital existe. O que falta é uma relação diferente com o territórioEm 2023, os ativos globais de investimento de impacto ultrapassaram 1,3 biliões de euros, segundo a Global Impact Investing Network. O crescimento deste mercado poderia fazer supor que existe uma porta natural para projetos turísticos com objetivos ambientais e sociais mais ambiciosos. Mas a existência de capital orientado para o impacto não significa que esse capital esteja automaticamente disponível para processos regenerativos.A investigação sugere que há um desfasamento entre aquilo que os investidores procuram reconhecer como um investimento viável e a natureza da transformação que estes projetos exigem.A regeneração raramente acontece depressa. Depende de relações entre empresas, comunidades, instituições públicas, ecossistemas e economias locais e pode exigir anos, ou mesmo gerações, até que os seus efeitos sejam plenamente visíveis. Um território, por outro lado, não funciona como um ativo isolado: as alterações numa atividade turística podem afetar o emprego, o preço da habitação, a agricultura, a utilização dos recursos naturais, a identidade cultural ou a relação dos residentes com o próprio lugar.É esta dimensão sistémica que o estudo coloca no centro da discussão. Em vez de perguntar apenas se determinado projeto produz retorno financeiro ou impacto mensurável, a investigação procura perceber que tipo de capital é necessário para alterar as relações dentro de um território e que condições permitem que essa mudança sobreviva no tempo.Mais do que capital paciente, capital ligado ao lugarUma das ideias centrais da investigação é que a transição não se resolve apenas com aquilo que habitualmente se designa por «capital paciente», isto é, dinheiro disponível para esperar mais tempo pelo retorno.O problema é mais profundo. O estudo aponta para a necessidade de pensar em formas de capital geracional, capazes de acompanhar mudanças que não obedecem necessariamente aos ciclos tradicionais de investimento. A diferença está na relação com o território: em vez de financiar um ativo turístico e avaliar posteriormente o seu desempenho, o capital deve ser capaz de participar numa transformação mais ampla, em que os resultados dependem também da comunidade, dos recursos naturais, da governação e das relações entre os diferentes intervenientes.Isto altera igualmente o papel atribuído ao investidor. Na leitura proposta pela investigação, quem coloca capital num sistema não é apenas alguém que financia uma determinada solução. As suas escolhas ajudam a definir aquilo que passa a ser considerado viável, desejável e legítimo. O investidor torna-se, assim, um agente de mudança do próprio sistema.Essa influência manifesta-se em vários momentos: nos prazos exigidos para o retorno, nos critérios utilizados para decidir o que merece financiamento, nas métricas escolhidas para avaliar resultados e na relação que se estabelece com quem trabalha no território.O que conta como sucesso pode estar a deixar de servirÉ aqui que entram as métricas. Projetos convencionais são relativamente fáceis de traduzir para folhas de cálculo: investimento, receitas, custos, ocupação, crescimento, retorno. Já os efeitos regenerativos são mais difíceis de condensar num único indicador.Quanto vale a recuperação de um ecossistema? E a transmissão de conhecimento entre gerações? Ou a confiança construída entre uma comunidade e uma empresa turística? Como medir a capacidade de um território para resistir melhor a uma crise climática, económica ou social?O estudo defende que dados, tecnologia, métricas e certificações podem continuar a desempenhar um papel importante, mas não devem funcionar apenas como mecanismos de validação rápida. Podem ser instrumentos de aprendizagem contínua, acompanhando uma transformação que não tem necessariamente um ponto final.A própria ideia de regeneração é apresentada como uma jornada e não como um estado que um projeto alcança e passa a poder reivindicar definitivamente.Esta distinção é relevante num setor onde conceitos como sustentabilidade e impacto são cada vez mais utilizados. Um projeto não se torna necessariamente regenerativo por cumprir uma lista de critérios ou obter determinada certificação. A questão passa antes pela trajetória e pela capacidade de contribuir para a renovação dos sistemas dos quais depende.A fragmentação também afasta o investimentoOutro dos problemas identificados está na fragmentação do sistema. Existem investidores, empresas, comunidades, investigadores, entidades públicas e organizações intermediárias, mas estes atores nem sempre partilham a mesma linguagem ou a mesma noção de sucesso. A consequência pode ser um problema de confiança que aparece antes sequer de existir uma decisão de investimento.Os profissionais que trabalham no terreno conhecem profundamente o contexto onde atuam, mas essa experiência pode ser difícil de traduzir para investidores que procuram informação comparável, métricas e modelos de risco. Do outro lado, os investidores podem trazer capital e conhecimento financeiro, mas trabalhar com horizontes temporais ou critérios de avaliação incompatíveis com os processos de regeneração.O desalinhamento surge, portanto, antes de o dinheiro mudar de mãos. A investigação identifica esta relação entre capital e prática como um dos pontos fundamentais de intervenção. A mudança exige uma relação mais próxima entre quem dispõe do capital e quem conhece o território, com expectativas, critérios e horizontes de investimento que possam ser partilhados desde o início.Escolher o investidor também é uma decisão estratégicaPara quem está no terreno, a investigação deixa outra conclusão relevante: captar investimento não deve significar aceitar qualquer capital disponível.O investidor escolhido influencia a trajetória de um projeto, desde os prazos definidos até à governação e às métricas utilizadas para avaliar resultados. Um financiamento que obrigue uma iniciativa a acelerar, alterar a sua relação com a comunidade ou privilegiar determinados resultados financeiros pode acabar por afastá-la dos próprios objetivos regenerativos que justificaram o investimento. Dizer «não» pode ser uma forma de intervenção no sistema.A confiança, por seu lado, não depende de apresentar um projeto como perfeito. Constrói-se através da coerência entre o que é dito, a evidência apresentada e as decisões tomadas. E aqui surge outro dos estrangulamentos identificados: muitos profissionais têm dificuldade em comunicar o seu trabalho de forma que seja compreensível fora do território onde acontece.Uma iniciativa pode estar profundamente integrada numa comunidade e produzir mudanças relevantes, mas, se não conseguir tornar essa experiência legível para potenciais parceiros e investidores, continuará a ter dificuldade em atrair o capital de que precisa.Do turismo que explora ao turismo que regeneraA mudança proposta pelo estudo é, no fundo, mais ambiciosa do que acrescentar uma nova categoria às carteiras de investimento.O turismo regenerativo parte da ideia de que um destino não é apenas o lugar onde o visitante dorme, come ou passa alguns dias. É um sistema vivo, composto por pessoas, recursos naturais, património, atividades económicas, infraestruturas e relações que existiam antes da chegada do turista e continuarão depois da sua partida.A literatura sobre o conceito tem vindo precisamente a distinguir a regeneração da sustentabilidade tradicional: enquanto a sustentabilidade procura sobretudo equilibrar benefícios económicos com conservação ambiental e integridade sociocultural, a regeneração procura restaurar e revitalizar ecossistemas e comunidades, criando impactos positivos líquidos.Esta mudança de paradigma também ajuda a explicar por que razão o investimento é mais complexo. Não basta tornar um hotel mais eficiente energeticamente ou reduzir os resíduos produzidos por uma operação turística. A pergunta passa a ser outra: o que fica melhor num território porque aquela atividade turística existe?Pode ser um ecossistema recuperado, uma atividade agrícola preservada, conhecimento transmitido entre gerações, maior capacidade económica da comunidade ou uma relação diferente entre visitantes e residentes.O caso português mostra a complexidade da mudançaA discussão não é apenas teórica. Outro trabalho académico recente sobre turismo regenerativo em Portugal, centrado nas tradições do Vinho Madeira, mostra como uma atividade turística pode simultaneamente criar oportunidades económicas e ameaçar os próprios recursos culturais e territoriais que lhe dão valor.Nesse caso, os intervenientes identificaram riscos associados à perda de terrenos agrícolas, à descontinuidade geracional e à mercantilização do património. Ao mesmo tempo, viram no reconhecimento da UNESCO uma possível alavanca para proteger a agricultura, reforçar a transmissão de conhecimento e integrar património, turismo e planeamento territorial.É um exemplo da contradição que o conceito de regeneração procura enfrentar: o turismo pode dar visibilidade e gerar rendimento, mas, sem uma governação integrada, pode também contribuir para degradar as condições que tornam um território atrativo.Uma transição que não cabe num único investimentoA investigação da Nova SBE e da Blink Impact acaba por colocar a questão num plano mais vasto. Se o turismo regenerativo pretende transformar a relação entre visitantes, empresas e territórios, então o financiamento dessa transformação não pode ser pensado apenas como uma transação entre investidor e projeto.É necessário aproximar capital e território, criar confiança entre os intervenientes, rever os horizontes temporais e encontrar formas de avaliar aquilo que ainda não é facilmente quantificável.Para os investigadores, o desafio está precisamente em reconhecer que os investidores não são meros fornecedores de dinheiro, mas participantes nas mudanças que ajudam a tornar possíveis. Do outro lado, quem está no terreno também molda o sistema, através das escolhas que faz sobre financiamento, governação, parceiros e formas de comunicar o impacto.O desafio pode estar no próprio modo como o investimento olha para o turismo. Enquanto o capital continuar a privilegiar resultados rápidos, métricas facilmente comparáveis e ativos isolados, terá dificuldade em financiar uma atividade cuja transformação depende do tempo, das relações e da saúde dos territórios.O estudo será apresentado no evento online «A Systems Approach to Regenerative Tourism», marcado para 22 de setembro, entre as 9h00 e as 10h00. A sessão apresentará as conclusões da investigação e os dois instrumentos desenvolvidos a partir dela, um dirigido aos investidores e outro aos profissionais que trabalham no terreno.O conteúdo Porque é que o turismo regenerativo continua a ter dificuldade em atrair investimento? aparece primeiro em Revista Líder.