Nesta “superquarta”, é o Federal Reserve que está na berlinda. O Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto) inicia sua reunião de política monetária nesta terça-feira (15), sob a expectativa de que deve subir os juros dos Estados Unidos pela primeira vez em três anos.O movimento para cima, a ser confirmado na quarta (16), ocorre em meio à pressão inflacionária ao redor do mundo, resultado sobretudo da disparada do preço do petróleo em reflexo ao conflito dos Estados Unidos e aliados contra o Irã.Há um mês, a fotografia era outra. Cerca de 30% do mercado acreditava que o Fed elevaria sua taxa referencial em 0,25 ponto percentual no meio de agosto, contra mais de 60% que bancavam a manutenção dos juros entre 3,5% e 3,75%, segundo a ferramenta Fed Watch do CME Group.Há uma semana, o jogo já havia virado, mas estava próximo do empate: 59,4% apostavam em alta ante 40,6% em estabilidade.Na segunda-feira (14), 92,4% dos operadores viam a alta como caminho mais provável.A pressão dos preços já se traduz em números. Em julho, o PCE – índice que mede as despesas de consumo pessoal e indicador inflacionário favorito do Fed – encerrou com alta de 3,7% no acumulado em 12 meses.O resultado mostrou estabilidade ante o mês anterior, mas ainda assim indicou aceleração de praticamente 1 ponto percentual ante o mesmo período do ano passado.As apostas de alta ganham força com recentes recados do chair da autoridade monetária, Kevin Warsh, em trazer a inflação para baixo.“A dúvida sobre se o Fed garantirá inflação na meta, entregando as altas de juros conforme o necessário pressiona os rendimentos dos títulos também via credibilidade, além de um possível erro de política monetária”, pondera Andressa Durão, economista do ASA.“Isso tudo impacta o investidor porque juros maiores reduzem os preços dos títulos, pressionando os bonds e ações, e impacta a economia tornando crédito e financiamentos mais caros, reduzindo o consumo e o investimento.” Leia Mais Títulos do Tesouro dos EUA fecham no maior patamar em 3 anos com juros e IA Mercado projeta alta de juros pelo Fed e amplia expectativas para dezembro Às vésperas do Fed, Trump defende que EUA deveriam ter menor taxa de juros Inflação pressionaEm pouco mais de seis meses, os reflexos da guerra dos EUA contra o Irã seguem presentes na economia norte-americana.De um lado, a crescente dívida pública federal do país começa a gerar dúvidas sobre a integridade fiscal da gestão republicana de Donald Trump, já gerando uma pressão sobre o prêmio de risco na curva de juros futuros. Em agosto, a dívida nacional dos EUA ultrapassou o recorde de US$ 40 trilhões, com crescimento de cerca de US$ 7 bilhões por dia e já equivale a mais de US$ 117 mil por habitante do país.Do outro, a guerra pressiona diretamente o bolso do consumidor norte-americano, com a alta do petróleo no mercado internacional levando o preço de combustíveis a níveis recordes.Não obstante, o CPI (Índice de Preços ao Consumidor) dos EUA acelerou em agosto, com a recuperação do preço da gasolina após duas quedas mensais consecutivas.“Observamos uma inflação acima da meta há cinco anos e meio, mantendo-se em patamares pressionados”, ressalta Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos.Juros futuros em altaCom todos esses fatores trazendo incerteza econômica e pressão por uma política monetária mais restritiva, a curva de juros – referência para contratos e títulos de renda fixa – abre nos EUA.Os títulos do Tesouro dos Estados Unidos com prazo de 10 anos encerraram a segunda-feira em 4,99%, chegando a tocar os 5% ao longo do pregão. A última vez que o bond yield norte-americano chegou a esse patamar foi em 14 de outubro de 2023.“Esse movimento indica um mercado que começa a desancorar as expectativas de inflação, resultando em uma elevação expressiva da curva de juros, com os investidores exigindo prêmios maiores”, indica Marcatti.E com a alta do rendimento dos títulos norte-americanos – considerados um porto seguro dos investimentos -, se torna mais atrativo para os investidores mandarem dinheiro para os EUA, diminuindo o fluxo para emergentes.“O fortalecimento do dólar resulta na saída de capital de países emergentes, que migram em direção aos títulos da dívida norte-americana”, complementa o CEO da Veedha.Além disso, uma vez que a curva serve de referência para o custo do crédito em geral, de financiamentos imobiliários a empréstimos para empresas, o mercado segue atento a seu movimento.“Quando ela sobe, o crédito fica mais caro, o que tende a esfriar o consumo e o investimento. Ela também ajuda a precificar outros ativos financeiros, como ações, então juros mais altos tendem a pressionar os preços na Bolsa”, afirma Vitor Kayo, economista sênior da Nomad.Inflação para 2027 vem piorando gradativamente, diz economista | ABERTURA DE MERCADOFed divididoMas o mercado acredita que haverá um “dissenso por manutenção”, como destaca prévia do ASA sobre a decisão do Fed.Além do cenário inflacionário, os investidores colocam na conta o “discurso mais duro do presidente do Fed, Kevin Warsh, no simpósio de Jackson Hole, sinalizando menor tolerância a qualquer desvio da meta de inflação”, segundo Kayo.“O resultado é um mercado que passou a tratar a alta de juros como praticamente certa”, pontua.Indicado ao cargo por Donald Trump, o presidente do Fed manteve a postura firma apesar da pressão contínua do republicano por juros mais baixos. Além de defender um corte às vésperas da decisão, Trump ameaçou suspender parcerias comerciais se o BC dos EUA não baixar suas taxas.O banco central dos EUA “terá trabalho a fazer” se os formuladores de política monetária não estiverem confiantes de que a inflação subjacente está voltando à meta de 2%, afirmou Warsh durante o simpósio econômico do Fed em Jackson Hole, no Wyoming.Na contramão, o diretor Christopher Waller acredita que a autoridade monetária pode esperar mais uma reunião antes de alterar os juros, diante de sinais anteriores de desinflação, mas reiterou que apoiaria uma alta caso o movimento fosse revertido com os dados de agosto.Andressa Durão, economista do ASAAinda assim, o mercado não vê um consenso na decisão desta quarta.Juros altos desencorajam consumo e podem frear economia; entenda