Chefs on Fire 2026: «Não sabia fritar um ovo até 2004», conta Gonçalo Castel Branco

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Por trás de chefs, concertos e pratos preparados nas brasas, há dados e uma grande equipa para fazer acontecer o Chefs on Fire. O evento gastronómico, que regressa a Cascais nos dias 19 e 20 de setembro, conta com um cartaz de excelência e o fogo como ponto de partida, num festival que só acontece alimentado por uma equipa que antecipa necessidades e responde aos imprevistos. Nos bastidores, há até uma ‘operação chouriço’ para acudir às filas e um CEO que, até 2004, não sabia fritar um ovo.São estas e outras histórias que Gonçalo Castel Branco, produtor executivo do festival, partilha com a Líder, no preâmbulo da oitava edição que amanhã começa. O também CEO da Lohad, empresa de eventos e experiências, fala das novidades do festival, da presença feminina na gastronomia e da expansão internacional. Pelo meio, explica a filosofia que orienta as suas experiências: «Nós profissionalizamos o carinho.»O Chefs on Fire nasceu de uma festa de aniversário. Como aconteceu e em que momento percebeu que essa experiência podia transformar-se num festival?A maior parte dos nossos eventos não nasceram para ser um negócio nem foram pensadas como um produto. Foram coisas bonitas que nos aconteceram, ou que me aconteceram, nas quais vi potencial para serem partilhadas com mais gente.Neste caso, foi exatamente isso. Há oito anos, a minha irmã pediu-me para cozinhar no aniversário dela, numa casa no Alentejo. Disse-lhe que sim. Na semana anterior, perguntei quantas pessoas iam estar e ela respondeu: «Não vem muita gente, vão ser umas 50 ou 60 pessoas.» Disse-lhe que, com dois bicos no fogão, cozinhar para 60 pessoas seria uma loucura. Pedi-lhe que me mostrasse o exterior da casa por videochamada e vi uma árvore de que gostei e pensei numa coisa que nunca tinha feito, mas queria experimentar.Fui mais cedo, levantei-me às quatro da manhã e pendurei pernas de borrego, frangos, ananases e barrigas de porco. Fiz fogo no chão, abri um buraco e cozinhei 40 quilos de vegetais em curanto (método ancestral em que se cozinham vegetais e tubérculos debaixo da terra). Resolvi assim o problema.Lembro-me de estar a nascer o sol, de ter uma pequena coluna com música, estar a tratar do fogo e de já começar a sentir o cheiro da comida. Olhei à volta e pensei: «Isto dá um festival muito giro.» Decidi que ia fazê-lo. Dez meses depois, fizemos a primeira edição para 750 pessoas. Hoje, são 50 mil pessoas em cinco países. É o maior festival de fogo do mundo.Chefs on Fire em Cascais, em 2025.Sentar à mesa e conviver faz parte da cultura portuguesa. Num quotidiano cada vez mais digital e acelerado, estes encontros ganham outro valor? O que procuram as pessoas quando chegam ao Chefs on Fire?A relação com a comida é profundamente cultural, social e política. Há países em que a comida é combustível: as pessoas comem durante dez minutos, com uma mão no computador, para continuarem a trabalhar. Em países como o nosso, a comida é um ritual de amor. De amor próprio e de amor pelos outros, é uma cola social. Essa relação existe nos países latinos em geral, mas a portuguesa é muito especial.É à mesa que discutimos, que nos apaixonamos, que reencontramos amigos e que fechamos negócios. A mesa e a comida são, para nós, um lubrificante social.O Chefs on Fire respeita esse ADN de uma forma muito concreta. Continua a parecer um almoço de amigos um bocadinho maior. Não parece um festival onde as pessoas vão apertar-se em filas para comer comida barata. A nossa mensagem deste ano é «Aqui não há estranhos», porque o Chefs on Fire é uma grande família. O sentimento de estar ali com cinco mil pessoas é igual ao de estar em casa da minha irmã naquela manhã no Alentejo.Sentamo-nos no chão, na relva ou em fardos de palha. A pessoa que está a cozinhar está mesmo à nossa frente e podemos conversar com ela, perguntar de onde veio a receita. Um amigo vai buscar uma garrafa e ficamos ali. É o mesmo espírito do primeiro dia.Estamos a atravessar uma vaga de informação e tecnologia muito impactante, que está a mudar a maneira como nos relacionamos. Mas acho que isso acontece em duas direções. O digital e o virtual acabam por absorver aquilo que é substituível. Ao mesmo tempo, enquanto seres sociais, valorizamos cada vez mais o que não pode ser substituído por uma câmara, uma fotografia ou um vídeo: estar com os amigos, abraçar, comer e brindar.Já tinha experiência em cozinha ou era apenas algo de que gostava?Até 2004, não fritava um ovo. Depois fui pai e tive de aprender a cozinhar. Descarreguei uma aplicação que ensinava receitas passo a passo, comecei a entusiasmar-me e a cozinhar bastante. Na verdade, gosto ainda mais de receber pessoas em casa do que de cozinhar.Tive em tempos um restaurante clandestino dentro de casa, um supper club, que mantive durante um ano. Dois dias por semana, recebia dez pessoas, cozinhava para elas e jantava com elas. Foi assim que comecei a ganhar experiência. Não sou chef, garantidamente, nem sequer sou cozinheiro, mas sei cozinhar. E sempre gostei de trabalhar com fogo. Quais são as principais novidades desta oitava edição?É o segundo ano neste espaço, que nos permite uma escala diferente. Vamos ter a maior edição de sempre, o maior número de chefs internacionais e a maior presença feminina. São dimensões em que temos procurado investir e estamos a ver resultados.Uma das maiores novidades é a app que acabámos de lançar. Permite às pessoas orientarem-se no recinto, saberem onde estão as diferentes atividades e receberem informações como: «Vamos agora lançar um prato secreto nesta zona» ou «Vai começar um concerto no palco secreto.» Não gostamos de depender demasiado da interação digital, mas um espaço daquela dimensão exige alguma orientação desse tipo, para que as pessoas não se percam.Temos também o acesso à praia. Não é uma praia privada, está aberta ao público, mas os nossos visitantes podem estar no festival a comer e a beber, ir à praia, ter uma barraquinha para mudar de roupa, uma toalha e cadeiras, dar um mergulho e voltar para junto dos amigos. Acho que é um luxo que só é possível de proporcionar em Cascais.Os workshops e as escolas vão crescer muito. A escola de fogo e a escola de cerveja tiveram muito sucesso no ano passado. Este ano, acrescentamos uma escola de café e outro, de que gosto particularmente, dedicada à gastronomia pré-histórica. Será com Pedro Cura, historiador e antropólogo especializado em técnicas de gastronomia do Neolítico e do Paleolítico. Vamos ensinar como se cozinhava com fogo há 30 mil anos. Já fiz esse workshop e é absolutamente mágico.A zona de artes e ofícios também vai ser maior. Continuamos a ter conversas sobre o setor, este ano com a Farta, e vamos criar uma novidade que ainda não anunciámos: o Hall of Flames. É uma espécie de passeio das estrelas para celebrar os chefs veteranos, aqueles que participaram em mais edições do Chefs on Fire. Mandámos fazer umas estatuetas, mas não quero revelar tudo. Vamos ter uma rua dedicada a celebrar esse talento.O festival terá a maior presença feminina de sempre. O que revela essa escolha sobre a vossa curadoria e sobre o espaço que as mulheres estão a conquistar na gastronomia?Durante muitos anos, antes de existir a cultura dos chefs, havia a cultura da cozinheira. As mulheres ocupavam um espaço muito grande na cozinha, tanto nos restaurantes como em casa. Quando a gastronomia começou a transitar para uma cultura de chefs e de estrelato, parece que houve uma inversão e que passou a ser dado mais espaço aos homens.Acho que isso se está a reverter. Estamos todos mais atentos e, no nosso caso, há um esforço muito consciente para dar mais palco às mulheres. É merecido. Temos imenso talento em Portugal, feminino e masculino.Para nós, é uma das responsabilidades que assumimos enquanto maior palco da gastronomia portuguesa no mundo. Mas não se trata apenas de representatividade de género. Também nos interessa a representatividade nacional, para que não sejam apenas chefs de Lisboa e do Porto, e a representatividade étnica. São questões que estão no nosso radar e na nossa consciência. Tentamos fazer a nossa parte.O Corporate Day levou empresas e equipas ao Chefs on Fire. O que pode acontecer à volta de uma fogueira ou de uma mesa que dificilmente acontece numa sala de reuniões?Os negócios são relações. Mas continua a existir uma formalidade antiga em muitos dos formatos disponíveis para encontros empresariais e B2B. O mercado mudou. Temos trabalho remoto, procuramos diversidade e já não estamos a falar apenas de homens brancos de fato. As empresas evoluíram muito. Se compararmos quem estava numa sala de decisões há vinte anos com quem está hoje, vemos uma grande diferença.Curiosamente, os modelos para reunir equipas, motivá-las ou criar relações com outros gestores continuam muitas vezes a ser o cocktail, o copo de vinho e o púlpito. Continuamos a pensar nessa formatação.Acho que as empresas querem que esses momentos também reflitam a diversidade e a informalidade que hoje fazem parte da vida empresarial. O Chefs on Fire é um ótimo lugar para isso. Quando estamos sentados num fardo de palha com o nosso chefe, abre-se um espaço para uma conversa diferente daquela que teríamos num cocktail de fato e gravata. Estamos a comer, a interagir com pessoas diferentes e com talento, num ambiente familiar.Estamos a ocupar um espaço em que os gestores podem sentir: «Vou ter uma experiência B2B com o profissionalismo e o rigor de que preciso. Quero reunir a equipa, apresentar resultados e ter privacidade, mas também quero que as pessoas passem um bom dia.» O feedback que recebemos do Corporate Day foi esse: cumpriram os objetivos da empresa e saíram encantadas, a cheirar a fumo, mais próximas dos colegas e dos seus chefes. Conseguiram uma aproximação que dificilmente teriam numa sala de hotel. Como se lidera um evento que reúne chefs com identidades e formas de trabalhar tão diferentes? Como se conjugam a liberdade criativa e as exigências da organização?Em primeiro lugar, com uma equipa muito boa. Fico com muito mais crédito do que mereço. Tenho uma equipa formidável, dedicada e especializada. Trabalhar com talento, sobretudo criativo, seja um músico ou um chef, é sempre complicado, porque vive de uma liberdade que muitas vezes não é escalável. Uma determinada forma de trabalhar pode funcionar num restaurante para vinte pessoas, mas não funciona para cinco mil.Se preciso de 1500 doses, estou a contar com 1500 doses. Não podem ser 1200, porque a comida acaba. Os chefs e as equipas precisam de ser orientados para um modelo rigoroso e profissional. Mas, antes disso, temos de ser nós a conquistar essa confiança e a tratá-los de forma rigorosa e profissional. Na minha experiência, as pessoas reagem muito bem a essa troca.Um dos principais mandamentos da Lohad é este: nós profissionalizamos o carinho. Tratamos toda a gente como gostaríamos que nos tratassem a nós. Isso aplica-se ao cliente, ao chef, à empregada da empresa, à minha diretora de operações ou a qualquer outra pessoa.Tratar as pessoas bem, com profissionalismo, rigor e carinho, é uma metodologia absurdamente simples. Quando o fazemos de forma consistente, vamos conquistando confiança, aprendendo com os erros e percebendo onde falhámos para melhorar no ano seguinte.Também somos uma empresa muito focada em dados, com uma forte componente tecnológica. Usamos essa informação para perceber, em função do perfil do chef, do prato e da localização no recinto, quantas doses são necessárias e em quanto tempo.Sabemos quantos pontos de comida por pessoa precisamos de ter para que a espera seja inferior a dez minutos. Quando uma fila ultrapassa esse tempo, qualquer pessoa da organização pode ativar a ‘operação chouriço’: começamos a grelhar chouriço e entregamos à fila, pedindo desculpa.Tudo isso é trabalhado com dados, uma filosofia muito concreta de serviço e uma equipa rigorosa e profissional. É uma metodologia simples, mas exige processos e trabalho durante todo o ano. Espero que essa diferença se sinta no resultado final. Na expansão internacional, o que descobriram que funciona em qualquer país e o que tiveram de adaptar? O que fizeram questão de manter português?O que funciona em todo o lado é o tom, a verdade do projeto. Gosto muito desse conceito de verdade nas coisas que faço. Ser um churrasco de família, tratar bem as pessoas, ter uma formalidade informal: estou sentado num fardo de palha, mas tenho um copo de vidro. São coisas que vêm daquele almoço em casa da minha irmã e que funcionam em qualquer lugar. O Chefs on Fire não pode transformar-se num festival de comida indiferenciado. Tem de manter essa verdade.Depois, há muitas diferenças. Na nossa experiência, os portugueses chegam ao meio-dia e ficam até à meia-noite. Os brasileiros ficam duas horas, seguem para outro lugar e ainda têm outro programa depois, mesmo a cheirar a fumo. Os espanhóis comem mais depressa e não se importam tanto com as filas.Há aprendizagens culturais muito diferentes. Nas Maldivas, por exemplo, a noção de estética é outra. A nossa conceção visual e espacial é muito específica, mas há coisas que funcionam de maneira diferente em cada lugar e que vamos adaptando. Parte da verdade deste projeto é também ser um produto português. Temos uma colaboração de vários anos com o Turismo de Portugal que nos permite investir em coisas em que, sozinhos, não conseguiríamos.Por exemplo, recebemos uma comitiva de trinta jornalistas internacionais, maior do que a do Guia Michelin. Somos a maior plataforma de promoção da gastronomia portuguesa no mundo. Isso só é possível com o apoio de entidades como o Turismo de Portugal e o Turismo de Cascais. São parceiros que têm objetivos. É um processo sério, auditado, medido e regulamentado, e temos de entregar esse retorno. Manter o festival português faz parte da minha vontade e da vontade dos nossos parceiros.Vamos promover a gastronomia portuguesa e lembrar ao mundo que temos uma das melhores gastronomias. Isso não é negociável. Está no nosso ADN. Há alguma história ou momento das últimas edições que tenha ficado particularmente na sua memória?Há muitas. No ano passado, quando mudámos para este espaço, houve um momento que guardei na memória.Costumo dizer que um evento é um tigre amestrado. Podemos passar anos a fazer-lhe festas e parecer que nunca nos vai atacar, mas basta tirar os olhos dele por um segundo para nos saltar à garganta.Os eventos são assim: correm bem até, de repente, correrem mal. Por mais que nos preparemos durante o ano inteiro, naquele momento é preciso estar sempre atento. Quando mudámos de local e passámos de duas mil para cinco mil pessoas por dia, houve uma curva de aprendizagem. Por muita preparação que existisse, algumas coisas tiveram de ser resolvidas com dor, em modo de sobrevivência. O tigre atacou muitas vezes e tivemos de o agarrar.No ano passado, fizemos o Corporate Day pela primeira vez, na véspera do festival. Isso implicou três dias de evento e uma nova montagem durante a noite, para transformar o espaço depois do dia dedicado às empresas. Lembro-me de serem quatro e meia da manhã. Tínhamos quatrocentas pessoas de staff e eu estava sozinho a levantar copos sujos das mesas e a guardá-los. Às cinco da manhã, chegaria uma equipa para retirar as mesas e levá-las para outro lugar, e não podia haver copos em cima delas.Toda a equipa estava a fazer outras coisas, a dormir ou completamente exausta. Portanto, ali estava eu, o CEO, sozinho a levantar copos às quatro e meia da manhã. Percebi, em primeiro lugar, que aquilo era sinal de uma falha estrutural. Era preciso aprender: onde tínhamos falhado para chegar àquela situação?Ao mesmo tempo, senti que eu e qualquer pessoa da equipa sabemos que não há nenhum trabalho pequeno demais para nós, nem nenhuma emergência que não mereça a nossa atenção. Acho que é por isso que os nossos eventos são especiais. Há uma entrega muito bonita de toda a equipa. Normalmente, essa entrega é mais visível nos outros, mas naquele dia também me coube acompanhá-los. Fico feliz por estar rodeado de pessoas que fariam exatamente o mesmo naquele momento! Fotografias: Chefs on FireO conteúdo Chefs on Fire 2026: «Não sabia fritar um ovo até 2004», conta Gonçalo Castel Branco aparece primeiro em Revista Líder.