O preço do petróleo voltou a aproximar-se dos 100 dólares por barril, num mercado condicionado pela instabilidade no Médio Oriente, e a pressão já se sente no preço dos combustíveis. O problema, para famílias e empresas, é conhecido: quando o petróleo sobe, sobem também os custos de transporte, distribuição e deslocação, com efeitos que podem chegar muito além da bomba de gasolina, atravessando cadeias de abastecimento, logística e despesas das empresas.Mas há uma diferença importante face a outros momentos em que o petróleo disparou. O automóvel que chega hoje ao mercado português já não é necessariamente um consumidor de petróleo.Os números mais recentes da ACAP ajudam a perceber a dimensão da mudança: em agosto, os veículos 100% elétricos representaram 36,1% dos novos ligeiros de passageiros matriculados em Portugal, depois de terem crescido 65,2% face ao mesmo mês de 2025. Foram 5.079 carros elétricos novos, num mercado de 14.086 ligeiros de passageiros.É um número particularmente significativo porque não estamos a falar de uma pequena franja de consumidores que decidiu experimentar uma tecnologia nova. Entre janeiro e agosto, foram matriculados 45.388 veículos ligeiros de passageiros 100% elétricos, mais 43,1% do que no mesmo período do ano passado, fazendo com que os elétricos representassem já 26,8% das novas matrículas. Se forem considerados também híbridos e híbridos plug-in, as energias alternativas representaram 75,6% dos novos ligeiros de passageiros no mesmo período, segundo a ACAP.A mudança portuguesa acompanha, aliás, uma transformação mais ampla no mercado europeu. Segundo dados divulgados esta semana pela Reuters, os veículos elétricos a bateria chegaram, em agosto, a 30,5% das novas vendas nos 16 principais mercados europeus, depois de um crescimento homólogo de 54,2%. Portugal, com 36,1%, ficou acima dessa média.A coincidência entre as duas tendências torna-se, por isso, mais interessante. Cada subida do petróleo continua a ser imediatamente traduzida em custos para quem conduz um carro a gasolina ou a gasóleo, mas cada novo elétrico vendido representa também uma deslocação que deixa de depender diretamente do preço de um barril de petróleo.É uma mudança lenta, porque o parque automóvel não se transforma à mesma velocidade que as vendas de carros novos. Os milhões de automóveis que já circulam em Portugal continuam, na sua esmagadora maioria, a precisar de combustível líquido e continuarão a fazê-lo durante muitos anos. Mesmo entre os carros novos, os elétricos ainda não representam a maioria das vendas anuais. Mas a composição das novas matrículas dá uma indicação clara sobre a direção da mudança.As frotas do futuroDurante décadas, o preço do petróleo foi uma variável praticamente transversal à economia: afetava diretamente o custo de deslocação das famílias, mas também as frotas empresariais, os transportadores, os serviços de entregas, a distribuição e uma longa cadeia de atividades que dependem da mobilidade rodoviária. A eletrificação não elimina essa exposição — a eletricidade também tem um preço e a produção, distribuição e carregamento têm custos —, mas altera a natureza dessa dependência.Para uma empresa com uma frota elétrica, por exemplo, uma subida do petróleo não desaparece magicamente da folha de custos, mas deixa de ter o mesmo impacto direto sobre a energia consumida pelos veículos. E, à medida que a eletrificação avança, esta distinção deixa de ser apenas uma questão ambiental ou tecnológica para se tornar uma questão de risco empresarial: quanto custa a uma organização estar dependente de um combustível cujo preço pode mudar drasticamente em poucas semanas?É por isso que o crescimento dos elétricos ganha outra dimensão quando colocado ao lado da subida do petróleo. A transição energética, pouco a pouco, está alterar a forma como a economia portuguesa absorve os choques provocados pelo preço do petróleo.Ainda é cedo para dizer que o petróleo perdeu importância, está muito longe disso. Continua a ser indispensável à aviação, ao transporte marítimo, à indústria, à produção de inúmeros bens e, sobretudo, ao enorme parque automóvel que já existe. Mas há uma fronteira que começa a deslocar-se: o petróleo pode continuar a subir e a preocupar quem abastece, ao mesmo tempo que perde espaço na decisão de compra de quem está a escolher o próximo carro. O conteúdo O petróleo está mais caro. O carro elétrico ganha terreno aparece primeiro em Revista Líder.