A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) deixou de ser apenas uma disputa entre ministros e entrou definitivamente na campanha presidencial. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) tentam agora convencer o eleitor de versões diferentes sobre um mesmo conjunto de acontecimentos, e as pesquisas mostram que nenhum dos dois conseguiu, até agora, monopolizar essa narrativa.A estratégia de Flávio é transformar o desgaste do Supremo em um problema para Lula. A do presidente percorre um caminho mais complicado para preservar a defesa institucional da Corte e da atuação de Alexandre de Moraes após os ataques de 8 de Janeiro, sem assumir como suas as explicações que o ministro terá de dar sobre a relação com Daniel Vorcaro.Leia tambémLula diz que André Mendonça usa cargo no STF para ‘fazer política’Presidente também declarou que o ministro Alexandre de Moraes deve “pagar” caso tenha cometido irregularidadesAo mesmo tempo, o PT tenta deslocar a discussão do STF de volta para o Banco Master e para as ligações do próprio Flávio com Vorcaro.Os primeiros números sobre a percepção do eleitor sugerem que as duas estratégias podem estar produzindo efeitos diferentes.A AtlasIntel/Bloomberg divulgada nesta quinta-feira (17) mostra praticamente um empate quando os entrevistados são questionados sobre quem está mais envolvido nas fraudes do Master: 41,2% apontam aliados de Jair Bolsonaro, enquanto 40,2% citam aliados de Lula. Outros 13,8% atribuem o envolvimento aos dois campos.Quando a pergunta muda do banco para o Supremo, porém, a divisão desaparece. Para 49,5%, a crise na Corte prejudica mais Lula. Apenas 20,9% dizem que Flávio sofre o maior desgaste, enquanto 14,4% enxergam prejuízo semelhante para os dois candidatos. Moraes como problema de LulaA campanha de Flávio encontrou na crise uma oportunidade para retomar um dos discursos mais conhecidos do bolsonarismo, da crítica à atuação do Supremo e, especialmente, a Alexandre de Moraes.No 7 de Setembro, Flávio afirmou que votar em Lula significaria votar também em Moraes. Durante a sessão desta terça-feira (15), que terminou sem uma decisão sobre a possível investigação do ministro, o candidato voltou a associar os dois e, depois do julgamento, acusou ministros indicados pelo petista de atuarem para “blindar” Moraes.O pedido de vista de Flávio Dino ofereceu combustível adicional para esse discurso. Ex-ministro da Justiça de Lula e indicado pelo presidente ao Supremo, Dino interrompeu a discussão antes de a Corte chegar ao mérito das suspeitas envolvendo Moraes.A estratégia, porém, tem uma diferença em relação a momentos anteriores do confronto entre o bolsonarismo e o Judiciário. A orientação na campanha é concentrar os ataques em ministros e decisões específicas, evitando transformar o STF, como instituição, no principal adversário.Leia tambémFlávio Bolsonaro diz que não existe ajuda de governo dos EUA nas eleições brasileiras“Não existe ajuda do governo americano. Essa narrativa não vai colar, desculpa”, destacou o candidato à PresidênciaHá uma razão eleitoral para essa cautela.O Datafolha divulgado na semana passada mostrou uma relação ambígua dos brasileiros com a Corte. Para 76%, os ministros do Supremo têm poder excessivo e 77% enxergam perda de confiança da população no tribunal. Ao mesmo tempo, 71% consideram o STF essencial para a democracia. Entre eleitores de Flávio, 85% apontam excesso de poder; entre os de Lula, são 67%.Atacar ministros encontra, portanto, terreno fértil. Questionar a própria existência ou relevância institucional do Supremo é uma aposta diferente.Lula tenta defender a instituiçãoPara Lula, o equilíbrio é mais delicado. O presidente e seus aliados não querem abandonar a defesa do papel exercido pelo Supremo e por Moraes durante os ataques ao sistema eleitoral, a tentativa de desacreditar as urnas e os episódios que culminaram no 8 de Janeiro. Ao mesmo tempo, a campanha tenta impedir que essa defesa seja usada para transformar Lula em responsável político pelas condutas de Moraes hoje questionadas. Depois da tumultuada sessão de terça-feira, essa separação ficou mais explícita.Aliados passaram a destacar que Moraes não foi indicado ao STF por Lula. Ele chegou à Corte em 2017, escolhido pelo então presidente Michel Temer, e ocupou cargos em governos paulistas do PSDB antes de se tornar ministro. A campanha pretende usar essa trajetória para rebater a tentativa de apresentar Lula e Moraes como integrantes de um mesmo grupo político.Datafolha: 28% defendem impeachment de Moraes; 12% querem saída de MendonçaO próprio presidente elevou o tom após a sessão. Segundo a Folha de S.Paulo, Lula classificou reservadamente o julgamento como um “show de horrores”. Publicamente, passou a defender transparência sobre as relações de Vorcaro com integrantes do Supremo e disse que os diferentes vínculos do ex-banqueiro com ministros devem ser analisados.É uma tentativa de construir uma divisão política difícil de comunicar que defender a atuação institucional do Supremo não significaria oferecer proteção pessoal a Moraes.A AtlasIntel indica, porém, que essa separação ainda não chegou integralmente ao eleitor. Quase metade dos entrevistados considera Lula o candidato mais prejudicado pela turbulência no STF.Master do FlávioSe Flávio tenta levar a eleição do Banco Master para o Supremo, a contraofensiva petista faz o caminho contrário. A campanha de Lula passou a explorar com maior intensidade as relações do adversário com Daniel Vorcaro e o financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro.As investigações tornaram públicas mensagens nas quais Flávio buscava recursos com Vorcaro para a produção. O banqueiro fez aportes milionários ligados ao projeto. Flávio afirma que sua relação com o ex-dono do Master se limitou à busca de patrocínio para o filme e nega irregularidades.Crise no STF não altera voto de mais de 80% dos eleitores, mostra DatafolhaO tema representa uma vulnerabilidade mensurável. Pesquisa Meio/Ideia divulgada em 9 de setembro mostrou que 47,9% dos entrevistados dizem que a relação entre Flávio e Vorcaro reduz sua chance de votar no candidato do PL. Para 32,2%, a informação não altera o voto.A evolução da Atlas também oferece um sinal favorável à estratégia petista. Em março, apenas 28,3% apontavam aliados de Bolsonaro como os mais envolvidos no caso Master. O percentual chegou a 36% em junho e agora alcança 41,2% — avanço de 12,9 pontos em seis meses.No mesmo período, a associação com aliados de Lula praticamente não se moveu, passou de 39,5% para 40,2%.Isso não permite atribuir a mudança diretamente à estratégia eleitoral do PT. O período também foi marcado por novas revelações e pela ampliação das investigações. Mas mostra que uma vantagem de 11,2 pontos que o campo bolsonarista tinha em março na percepção sobre o escândalo desapareceu. Agora, os dois lados estão praticamente empatados. A mesma crise oferece munição para os dois lados. A batalha agora é para decidir qual versão dela chegará às urnas.The post Quem paga pela crise do STF? Lula e Flávio tentam empurrar desgaste ao rival appeared first on InfoMoney.