Um resíduo que antes representava um problema para a indústria da água de coco começa a ganhar um novo destino no Rio Grande do Norte. É que, com o apoio do Sebrae RN, um pequeno negócio na região do Vale do Açu está transformando cascas de cocos em um bioinsumo conhecido como biochar. O produto é capaz de melhorar as características físicas, químicas e biológicas do solo e deve ampliar as possibilidades de manejo na agricultura regenerativa.Diretor geral e fundador da Charma, empresa que produz o biochar à base do resíduo da casca de coco, Xavier Mulliez explica que a proposta ultrapassa a ideia de destinação adequada de um resíduo. A empresa, segundo o empresário, trabalha com o conceito de agricultura circular, em que o material descartado por uma atividade produtiva pode retornar ao campo como insumo de outra etapa do sistema. No caso da empresa, a perspectiva é estabelecer uma simbiose entre a indústria da água de coco e a produção agrícola.“Eu chamo isso de uma simbiose agroindustrial, porque os rejeitos da indústria da produção de água de coco passam a ser insumos para a planta de pirólise e o que sai da planta, que é o biochar, volta para os coqueirais. As duas atividades passam a ser interdependentes”, explica.A produção de biochar a partir dos resíduos da indústria de água de coco coloca o Rio Grande do Norte entre os territórios que começam a explorar, de forma mais estruturada, o potencial do produto na agricultura. Produzido a partir da pirólise da biomassa, processo termoquímico realizado com pouco ou nenhum oxigênio, o material é obtido a partir de resíduos agrícolas que passam por trituração e homogeneização antes de serem submetidos a altas temperaturas em um reator. Durante o processo, parte dos gases gerados é reaproveitada para alimentar a própria operação, enquanto a fração sólida resulta no biochar.Tecnologia aplicada no campoA produção de biochar ainda está em fase de expansão no estado, mas já existe demanda de produtores e instituições de pesquisa. A unidade instalada no Vale do Açu tem, atualmente, capacidade produtiva de aproximadamente 10 toneladas por ano. O material produzido pela empresa já desperta interesse em diferentes regiões do Rio Grande do Norte, especialmente em Mossoró, no Vale do Açu e em Touros.Entre os usuários e potenciais usuários estão produtores de coco, algodão e manga, além de instituições que desenvolvem pesquisas relacionadas ao uso do biochar em diferentes condições de solo. Ainda conforme Mulliez, a Charma mantém articulações com instituições como Embrapa, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA) para ampliar os testes e o conhecimento sobre as aplicações do produto.Em regiões como o semiárido, onde a disponibilidade de água e a qualidade dos solos são fatores decisivos para a produção agrícola, o biochar pode contribuir para aumentar a retenção de água e nutrientes. Também atua na melhoria da estrutura do solo e favorece a atividade biológica, integrando-se a outras práticas de manejo regenerativo.É justamente nessa fronteira entre inovação e necessidade do campo que a Charma encontrou espaço para desenvolver seu negócio. A empresa surgiu há cerca de três anos, quando Xavier buscava uma nova atividade profissional, e encontrou no ecossistema de inovação do Sebrae-RN um dos primeiros caminhos para transformar a ideia em empreendimento.“O começo foi muito positivo. Encontrei no Sebrae contatos-chave para iniciar o negócio e, no programa de aceleração, tive acesso a muitas informações que foram enriquecedoras para estruturar minhas ideias e transformá-las em um negócio”, relata.A trajetória da Charma passou por programas do Sebrae-RN voltados ao desenvolvimento de negócios de impacto socioambiental. A empresa participou do Impacta RN, iniciativa de pré-aceleração que apoia empreendimentos na estruturação da gestão, validação do modelo de negócio e ampliação do mercado. O negócio integrou ainda o Regenera, programa de aceleração voltado a negócios inovadores de impacto socioambiental.De acordo com a gerente da Unidade de Agronegócio e Negócios de Impacto do Sebrae-RN, Mona Nóbrega, ao aliar solução inovadora, com potencial de mercado e capacidade de gerar impacto ambiental positivo, a Charma reúne características que dialogam diretamente com a proposta dos programas.“A Charma é uma empresa acelerada pelos nossos programas de negócios de impacto social e ambiental positivo. No Regenera, ela recebe assessoria em modelagem de negócio, abertura de mercado, capacitação financeira e outras intervenções importantes para estruturar e fortalecer a empresa. É um negócio que une inovação, sustentabilidade e potencial de mercado”, destaca.A aproximação com o setor produtivo também faz parte desse processo. Segundo o gestor de Fruticultura do Sebrae-RN, Franco Marinho, a instituição tem contribuído para conectar a empresa a produtores de coco e ampliar o conhecimento sobre a tecnologia no campo.“Temos orientado a Charma na construção de parcerias com produtores de coco da região e também na participação em eventos que aproximam a tecnologia dos agricultores. Na edição desse ano do evento Frut&Tec, realizada no Distrito de Irrigação do Baixo-Açu, os produtores puderam conhecer a unidade de produção e ver de perto como o biochar é produzido e quais são suas possibilidades de utilização”, explica.Do resíduo ao campoA primeira parceria estabelecida pela Charma também nasceu dessa articulação. A partir de uma conexão realizada pelo Sebrae RN, a empresa chegou a uma agroindústria de produção da água de coco, que se tornou sua principal fornecedora de matéria-prima e parceira nos testes de campo.A partir dessa relação, novos contatos foram construídos. Hoje, a empresa contabiliza 13 parcerias e trabalha na realização de aplicações do biochar em áreas agrícolas, incluindo coqueirais. A articulação também abriu caminho para projetos com instituições de pesquisa e para novas conexões que podem ampliar o conhecimento sobre o produto e suas aplicações.De acordo com Xavier, existem aproximadamente 400 unidades de produção de água de coco no Brasil que podem, futuramente, integrar um modelo de simbiose agroindustrial semelhante. De acordo com o empresário, o primeiro passo é consolidar a atuação no Rio Grande do Norte e avançar para o Ceará, maior produtor nacional de água de coco.“Meu sonho é chegar a toda a indústria de produção de água de coco. Seria uma usina de produção de biochar para cada cadeia, dentro desse conceito de simbiose agroindustrial, em que o resíduo de uma atividade vira insumo para outra. É essa escala que eu quero alcançar”, afirma.