O Brasil tem se beneficiado da busca de investidores globais por alternativas aos ativos ligados ao dólar e reúne condições para continuar atraindo capital estrangeiro. A continuidade desse movimento, porém, passa pela trajetória das contas públicas e pelo comportamento do câmbio, avaliaram os economistas-chefe Fernando Honorato e Diogo Guillen, do Bradesco e do Itaú Unibanco, respectivamente. Eles participaram do evento B3 Week, realizado em São Paulo nesta terça-feira (15).Honorato chamou atenção para o desempenho recente dos mercados emergentes em um momento no qual investidores buscam maior diversificação de suas carteiras.Segundo o economista, em outros períodos de maior incerteza global, os ativos de países emergentes normalmente seriam mais pressionados. Desta vez, porém, esse movimento não tem ocorrido com a mesma intensidade, abrindo espaço para mercados como o brasileiro.O Brasil ainda conta com vantagens próprias para capturar parte desses recursos. Entre elas estão a disponibilidade de recursos naturais e a posição do país nos setores de petróleo e energia renovável.A oferta de energia pode ganhar ainda mais importância diante do avanço da inteligência artificial e da expansão dos data centers, que demandam grandes quantidades de eletricidade. Nesse cenário, o Brasil poderia se tornar um destino para uma parcela desses investimentos.Guillen também avaliou que o país está bem posicionado, inclusive pela disponibilidade de energia limpa, apesar dos desafios que ainda precisam ser enfrentados.Fiscal pode determinar continuidade do fluxoPara os economistas, porém, aproveitar esse ambiente mais favorável dependerá também da capacidade brasileira de avançar nas contas públicas.O tema ganhou importância diante da proximidade das eleições de 2026 e das dúvidas sobre qual será a trajetória fiscal a partir do próximo governo.Honorato avaliou que o Brasil precisa recuperar a credibilidade nessa frente para sustentar um cenário mais favorável para os ativos domésticos.Ele lembrou que, há cerca de uma década, quando o país discutia a implementação do teto de gastos, a situação das contas públicas era ainda mais distante de uma trajetória de superávits.“Não é difícil colocar o brasil de volta nos trilhos”, avaliou Honorato. Segundo ele, o desafio é construir uma trajetória fiscal crível e dar ao mercado maior visibilidade sobre o período posterior às eleições.Para Honorato, será necessário apresentar de maneira consistente como o próximo governo pretende lidar com as contas públicas nos anos seguintes.Guillen também colocou a credibilidade fiscal entre os elementos fundamentais para a continuidade do atual ciclo. Uma melhora nessa frente poderia abrir espaço para condições financeiras mais favoráveis, juros mais baixos e, consequentemente, aumentar os investimentos no país.Para onde vai o dólar?Além do fiscal, o cenário externo deve continuar sendo determinante para os ativos brasileiros, principalmente para o real.Honorato avaliou que a trajetória da moeda brasileira dependerá em grande medida do comportamento global do dólar.Isso significa que uma desvalorização do real não precisaria necessariamente ser provocada por um choque doméstico. Uma mudança nas expectativas para a política monetária dos Estados Unidos, com um Federal Reserve mais duro do que o mercado espera, por exemplo, poderia pressionar moedas emergentes.Guillen também trabalha com alguma depreciação do real e indicou o dólar na região de R$ 5,30. Na avaliação apresentada no evento, esse movimento estaria mais relacionado ao ambiente internacional do que a fatores exclusivamente brasileiros.