Funk, reggae, rap, hardcore e… soul? Entre os “muitos amigos” que o cantor e compositor Danilo Cutrim tem na música em quase três décadas de carreira, o gênero afro-americano surge como uma das novas relações a ser explorada no segundo álbum solo, Neon, lançado em agosto deste ano, cuja turnê passou por São Paulo no show de estreia.Conhecido pelos trabalhos com o Forfun e o Braza, o soteropolitano radicado no Rio de Janeiro já havia lançado o disco Azul em 2023 – o primeiro trabalho solo, com faixas que exaltam a MPB e a bossa nova. Três anos depois, com ainda mais bagagem, surge o segundo LP: mais suingado, mais ousado e também mais curto, com apenas sete faixas em 23 minutos.“Eu tinha 20 e poucas músicas prontas, mas só essas que acreditei”, conta Danilo em entrevista exclusiva à Jovem Pan, pouco antes de subir no palco pela primeira vez com o novo trabalho. “É um disco direto ao ponto, com qualidade de ponta a ponta e que eu me emociono cantando. É mais econômico também…”, ele brinca.De fato, Danilo não perde tempo para mostrar a que veio com Neon. Já em Devagar, a segunda faixa do disco, a atmosfera se mostra bem estabelecida com grooves fortes, metais melódicos e uma guitarra que, sem precisar gritar, se impõe na harmonia. Com estes ingredientes, está instaurado um clima de boate que não vem por acaso.Para isso, Cutrim mergulhou na década de 1980. De volta à infância na Zona Norte do Rio de Janeiro, brincando com a linearidade do tempo, é onde se encontram as influências do artista, como Tim Maia, Sandra de Sá, Cassiano e a dupla Robson Jorge e Lincoln Olivetti.“Tenho uma tendência boatística natural no meu quadril. Desde moleque, gosto muito de dançar”, relembra o músico que ainda se recupera de uma cirurgia no joelho feita no primeiro semestre deste ano. “Nunca imaginava fazer um disco só nesse ritmo. Deu muito trabalho porque é uma música minimalista, de toques, de silêncio…Se a vida realmente imita a arte, este pode ser um dos exemplos mais claros. Em 2003, o Forfun, formado por quatro adolescentes que recém haviam deixado o ensino médio, lançou o álbum Das Pistas de Skate às Pistas de Dança. O título da demo da banda que viria a se tornar um dos principais nomes da música independente do Brasil nos anos seguintes poderia muito bem ser o título de uma biografia de Cutrim, identificado artisticamente com cada vez mais ritmos.Do hardcore que marcou o início da trajetória no Teoria Dinâmica Gastativa (2005), Danilo flertou com a música eletrônica e o reggae já no segundo álbum, Polisenso (2008). A relação se expandiu com a chegada do Alegria Compartilhada (2011), com sons cada vez mais brasileiros. Cinco anos depois, o nascimento do Braza trouxe os traços do rap e gêneros africanos. Em 2019, foi a vez do DaBossa mostrar uma nova cara do cantor.Alternar entre ritmos pode ser uma tarefa difícil para um músico. A personalidade que cada gênero carrega consigo também pode provocar conflitos pessoais para alguém em busca de entender a si próprio. Mas Danilo aparenta navegar com extrema tranquilidade nas diferentes águas em que se propõe a explorar artisticamente. “É fácil me identificar porque eu realmente amo [os ritmos]. Isso tudo fica guardado, é só abrir o armário e mudar”.“Cada ritmo traz uma ideologia, uma forma de linguagem não verbal, uma maneira de se vestir. Tem uma coisa muito social.. a roda de samba é cerveja e o Neon é um vinho”, explica Cutrim em uma tradução etílica dos gêneros por onde já passou.Libriano e RomânticoPor mais que o Braza soe cada vez mais carnal e festivo, as composições mais românticas de Danilo Cutrim acabam tendo como destino os discos solo. A temática já havia sido explorada em Azul, com faixas como Somos Um e Meu Jardim, mas fica ainda mais evidente no Neon, como no caso de Segundas Intenções.O autoidentificado “libriano passional” é, afinal de contas, um boêmio romântico. “Sou bastante. Romantizar é ter um sentido; não só um encontro conjugal, ou como estou falando nessa entrevista… é colorir a vida, se não seria só preto e branco. A gente tem que ser romântico mesmo, eu tento ser o máximo nessa vida”, confessa.A faceta sentimental ganha força no trabalho solo, onde as composições consideradas mais pessoais acabam se tornando um destino automático. “Sempre mostro o que faço para os meus amigos do Forfun e do Braza e eles mesmos já, pelo olhar, mostram o que pode ir para onde”.Depois de cerca de 20 anos compondo quase que exclusivamente com as duas bandas, Cutrim é claro sobre as diferenças na rotina. Se o processo criativo do Braza, que lançou no final de agosto o Baile Cítrico Utrópico Lunar – versão deluxe do disco de 2025, com o adjetivo Solar alternando o título – inclui viagens para cachoeiras, estrutura e metas ligadas ao calendário, o Neon é resultado de um trabalho diário.“O mais difícil é buscar diariamente a composição, mas o bacana é que consigo colocar de corpo e alma cada palavra. Não estou preocupado se vai agradar alguém ou não. Se faz sentido para mim, é aquilo ali. Então, isso é uma satisfação”, relata Danilo, que também descreve um disco mais descomplicado em relação ao antecessor.“Segui o fluxo da música, para onde ela ia apontando. Não cheguei e falei “vou inverter esse acorde, vou entortar aqui” só para os meus amiguinhos da MPB ou meu professor de violão gostarem”. Entre as inspirações “muito humildemente” referenciadas para simplificar a produção estão Michael Sullivan e Paulo Massadas, compositores que criaram faixas como Me Dê Motivo e Whisky a Go Go.O futuro é em pazEm Saudade, a última faixa de Neon, Danilo Cutrim canta sobre o luto e os percalços que a partida de alguém próximo costuma envolver. Apresentada anteriormente apenas na versão voz e violão, a música ganhou uma nova roupagem, se encaixando perfeitamente no conjunto do álbum, mas ficando de fora do setlist do primeiro show da turnê, na Casa Rockambole.Quem sabe vai rever mais tarde/E transbordar o amor é a mensagem principal do refrão e serve para a reflexão sobre o futuro da carreira. Até porque, se aproximando da terceira década em atividade, o músico pode dizer que já foi e voltou diversas vezes pelo próprio currículo, a ponto de aceitar revisitar ritmos antigos nos próximos passos a serem tomados.“Fiz as pazes. Às vezes você deixa um ritmo de lado, mas hoje estou em paz com tudo. Se eu for tocar um punk rock, um hardcore, um heavy metal ou um forró, vou tocar feliz da vida. O que vale é a canção, é o que está sendo passado e com quem você está tocando. O ritmo, não estou nem aí, e me sinto livre para revisitar o que quiser”, diz.Chegar neste ponto, porém, não foi fácil. O fim abrupto do Forfun em 2015, um ano após o lançamento do último álbum, Nu, deixou para os quatro integrantes marcas difíceis de serem superadas. No caso de Danilo, foram necessários alguns anos e muita terapia para entender a necessidade de deixar o trabalho antigo de lado e seguir em frente.“Antes, as pessoas pediam para tocar Forfun e eu ficava meio assim [abalado]. Hoje, eu fico emocionado”, conta. A setlist do show trouxe duas músicas, Cósmica e Minha Joia, ligadas a este período – agora, com as portas mais abertas do que nunca para um reencontro que transcende uma questão de palcos e acaba se tornando, principalmente, um reencontro com fases da vida que não ficam para trás, mas sim à espera do momento ideal para se tornarem realidade novamente.O reencontro mais próximo com Danilo Cutrim em São Paulo é mais simples de ser apontado no calendário. No próximo dia 24, ele estará com o Braza no SESC Bom Retiro. Já em 13 de novembro, a banda retorna à capital paulista para um show no palco da Audio, em uma comemoração definitiva dos 10 anos de atividade do grupo.