A tempestade solar mais perigosa da história

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Em maio de 1967, o Sol produziu uma das mais significativas explosões solares observadas no século XX. Uma enorme região ativa em sua superfície liberou uma quantidade extraordinária de radiação e provocou uma intensa emissão de ondas de rádio. Aqui na Terra, esse nervosismo solar gerou belas auroras polares, e interferências em sistemas de comunicação em diferentes partes do planeta. Efeitos severos, mas nem de longe comparáveis ao Evento Carrington, a mais intensa tempestade solar que se tem notícia, ocorrida em 1859.Só que existe uma particularidade que torna essa história especialmente interessante e faz desse evento 1967, a tempestade solar mais perigosa para a humanidade.Erupção solar registrada em 2010. – Créditos: NASA/SDOUma explosão solar acontece quando a energia acumulada nos campos magnéticos de uma região ativa do Sol é liberada de maneira extremamente rápida. Isso produz radiação em várias faixas do espectro eletromagnético, incluindo raios X e ondas de rádio.Viajando na velocidade da luz, os raios X chegam à Terra cerca de oito minutos depois. Ao atingir a nossa atmosfera, eles provocam perturbações na ionosfera, uma camada mais elevada que contém partículas eletricamente carregadas e que desempenha um papel importante na propagação das ondas de rádio.Isso porque a ionosfera reflete as ondas de rádio de alta frequência, ou HF, o que permite a comunicação a enormes distâncias. É por isso que esse tipo de comunicação foi, durante décadas, fundamental para navios, forças militares e outras operações que precisavam transmitir informações para muito além do horizonte, inclusive para resgatar aviões perdidos no meio do oceano.Mas uma explosão solar suficientemente intensa pode alterar as condições da ionosfera de maneira abrupta. O resultado pode ser um apagão de rádio, afetando a comunicação através de HF em grande parte do planeta.Propagação as ondas de rádio HF através da ionosfera. – Crédito: Imagem gerada por IAFoi exatamente isso que aconteceu em 23 de maio de 1967.A explosão solar foi acompanhada por uma emissão de rádio excepcionalmente intensa, que interferiu diretamente nas comunicações. Depois, partículas energéticas associadas à atividade solar atingiram a Terra e provocaram outros efeitos, especialmente nas regiões polares. Nos dias seguintes, a atividade solar contribuiu para uma importante perturbação geomagnética.Aquela não era a primeira, nem seria a última vez que as tempestades solares prejudicam as comunicações na Terra. Mas para a gente entender porque, em 1967, isso foi tão perigoso para a humanidade, precisamos relembrar o contexto histórico daquele momento.O mundo vivia no auge da Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética mantinham enormes arsenais nucleares, e na iminência de um ataque que poderia colocar em risco sua própria existência, os Estados Unidos possuíam uma rede de radares e sistemas de alerta destinados a detectar possíveis lançamentos de mísseis soviéticos. Esses sistemas dependiam de comunicações rápidas e confiáveis.Agora imagine a situação: equipamentos fundamentais para detectar e responder a uma possível ameaça militar começam a apresentar problemas de comunicação. Todos ao mesmo tempo. Afetando sistemas que precisam funcionar justamente quando uma informação precisa ser transmitida com absoluta confiança.Região McMath 8818 registrada em 23 de maio de 1967. – Créditos: National Solar Observatory editada por IAUma das hipóteses que precisava ser considerada, naquele contexto, era que aquilo pudesse ser uma ação deliberada dos soviéticos. Uma sabotagem dos sistemas de comunicação para que seus mísseis tivessem o caminho livre para o ataque definitivo. Não era difícil imaginar o tamanho do problema: se aquela interferência fosse interpretada como uma ação soviética, uma reação seria inevitável e extremamente perigosa.Felizmente, para americanos, soviéticos e para todo o mundo, os Estados Unidos já haviam criado um departamento de clima espacial, com equipes especializadas em observar o Sol e acompanhar suas consequências sobre a Terra.Por isso, quando os problemas de comunicação começaram, os especialistas conseguiram relacioná-los à enorme atividade solar que estava acontecendo naquele momento.A origem não era soviética. Era solar. Os Estados Unidos, por estar no lado diurno da Terra no momento da explosão, sentiram primeiro os efeitos daquela tempestade, que posteriormente, acabaram se propagando por todo o globo. Provavelmente, se fosse a União Soviética no lado do Sol, o dilema teria se repetido, mas com bandeiras trocadas. Durante o período da Guerra Fria, a tensão entre as duas principais potências da época era elevada e constante. Não fosse o monitoramento sistemático da atividade solar iniciado recentemente, talvez aquela tempestade no Sol poderia desencadear  uma série de eventos de consequências imprevisíveis aqui na Terra. Registros do Sol em maio de 1967 durante a grande tempestade solar. As imagens superiores (a–c) mostram os mapas do campo magnético e das manchas solares (pontos alaranjados) na região ativa McMath 8818. As imagens inferiores (d–g) mostram a explosão solar em detalhes no observatório de Sacramento Peak, destacando a emissão de luz, as áreas mais intensas do evento e a polaridade magnética dos polos norte (N) e sul (S) que alimentaram o fenômeno. – Créditos: Adaptado de D. J. Knipp et al. (2016) / Dados de McIntosh (1969, 1979) e DeMastus & Stover (1967)Mas o que aprendemos com aquele caso é que uma explosão solar pode produzir efeitos distintos, em diferentes momentos. Radiação eletromagnética, ondas de rádio, partículas energéticas e perturbações do campo magnético podem afetar sistemas tecnológicos de maneiras distintas.Por isso, a tempestade de 1967 é tão interessante. Ela mostra que não existe uma única maneira de medir o perigo de uma tempestade solar. Ela pode ser extremamente intensa do ponto de vista geomagnético, ou pode produzir um apagão de rádio particularmente grave. E o impacto final depende também de quais tecnologias estão funcionando na Terra naquele momento.Hoje, a dependência humana de sistemas de rádio, transmissões via satélite e dispositivos eletrônicos que podem ser afetados por tempestades solares, é muito maior que 60 anos atrás. Até temos uma ciência mais desenvolvida, capaz de prever esses eventos extremos com mais antecedência. Mas será que os principais líderes mundiais teriam a mesma sensatez diante dos efeitos de um apagão tecnológico?Curiosamente, a principal lição dessa história é que, em 1967, o conhecimento científico ajudou a humanidade a lidar com uma das tempestades solares mais perigosas que já enfrentamos. Mas o maior perigo não estava no Sol, nem nas partículas lançadas em direção à Terra. Estava aqui mesmo: nos seres humanos, que haviam se dado a capacidade de aniquilar sua própria existência.O post A tempestade solar mais perigosa da história apareceu primeiro em Olhar Digital.