Belo Horizonte – A faxineira Paola Stefany Neto Cirino, de 30 anos, presa em Itabira, na madrugada de quarta-feira (1/7), na Região Central de Minas Gerais, é descrita pela Polícia Civil como uma pessoa “cruel”, “calculista”, “dissimulada” e que representa risco à sociedade. Alguém que, apesar de ter evitado ser pega, já vivia do crime e tinha um modo de agir.A avaliação é do delegado Gustavo Barletta, chefe do Departamento Estadual de Investigação de Crimes Contra o Patrimônio (Depatri), responsável pelas apuração sobre o duplo latrocínio que vitimou o advogado Cláudio Atala Inácio, de 75 anos, e a empresária aposentada Maria Clotilde Moreira Maciel Atala Inácio, de 76.O investigador acredita que, com a repercussão do caso, mais vítimas da diarista vão aparecer. Duas delas já conversaram com a polícia, que segue investigando o caso.O casal foi assassinado dentro do apartamento de alto padrão onde moravam, no Bairro São Pedro, na região da Centro-Sul de Belo Horizonte, na última segunda-feira (28/7). Em entrevista ao Metrópoles, Barletta detalhou o perfil da suspeita, explicou por que acredita que ela fazia do crime um modo de vida e revelou que a Polícia Civil já investiga possíveis novas vítimas.4 imagensFechar modal.1 de 4As vítimas e a diaristaReprodução2 de 4Diarista Paola Stefany Neto Cirino, suspeita de matar casal em Minas é presa em hotel de ItabiraReprodução/Redes sociais3 de 4Casal foi encontrado morto no apartamento de luxo onde vivia em BHRedes sociais/ Reprodução4 de 4O advogado Cláudio Atala Inácio, de 75 anos, e a empresária Maria Clotilde Moreira Maciel Atala Inácio, de 76, foram mortos à facadasRedes sociais/ ReproduçãoSegundo a investigação, Paola havia sido contratada para fazer apenas uma faxina na residência das vítimas, indicada por uma primo de Maria Clotilde. Conforme contou à Polícia Civil, ela se impressionou com os objetos de valor existentes no imóvel e decidiu cometer o crime ainda no primeiro dia de trabalho.Após dopar o casal com clonazepam, matou os idosos com dezenas de facadas e fugiu levando joias, relógios Cartier e Omega, celulares, dinheiro e outros bens avaliados em cerca de R$ 200 mil.“É uma pessoa cruel e perigosa”, afirmou o delegadoApós quatro dias de diligências praticamente ininterruptas, Barletta afirmou que o caso está entre os mais cruéis que já investigou ao longo da carreira. “É um crime que realmente impressiona. Ela dopou essas pessoas, utilizou um meio que dificultou qualquer possibilidade de defesa das vítimas. Foi uma atitude extremamente covarde.”, relatou ao Metrópoles.Motivo para tamanha violênciaO delegado contou que questionou diretamente Paola sobre o motivo de ter matado o casal, já que poderia ter levado os bens sem tirar a vida das vítimas, que já estavam dopadas.“Perguntei por que ela não se satisfez apenas com a subtração do patrimônio. Por que tirar a vida de duas pessoas idosas daquela forma? Imagina o sofrimento que ela causou para essas pessoas e para os familiares. Ela respondeu que teve um surto, mas essa justificativa não convence.”Na avaliação do investigador, a suspeita demonstra uma frieza incomum.“Acho que ela é uma pessoa muito cruel. É alguém que precisa ser avaliado quanto à possibilidade de um dia voltar ao convívio social. Não é qualquer ser humano que aceita praticar um crime dessa natureza e conviver com isso pelo resto da vida”, analisa o delegado.Delegado vê manipuladora e descarta “surto”Durante o interrogatório, segundo Barletta, Paola tentou demonstrar arrependimento, chorou diversas vezes e manteve uma postura tranquila diante dos investigadores.Apesar disso, o delegado afirma que enxergou uma personalidade manipuladora.“Ela fala manso, observa muito as pessoas, tenta conquistar pela postura, despertar pena. É uma pessoa extremamente dissimulada, calculista, que fica analisando quem está à frente dela”, analisa o delegado.A principal linha da defesa da suspeita é a de que ela sofre há algum tempo de transtornos psiquiátricos e faz uso contínuo de medicamentos controlados. Para Barletta, porém, toda a sequência dos fatos demonstra planejamento.“Ela escolhe a vítima, vai trabalhar normalmente, dopa as pessoas, pratica o crime, vende os objetos roubados e continua vivendo como se nada tivesse acontecido. Se houve um surto, foi um surto conveniente apenas para ela.”Segundo a investigação, depois dos assassinatos, a faxineira se limpou, vestiu roupas da vítima, deixou o prédio tranquilamente, utilizou um carro por aplicativo, negociou os objetos roubados logo após o crime.Os 40 comprimidos reforçaram suspeitasUm dos detalhes que mais chamaram a atenção dos investigadores foi a quantidade de clonazepam encontrada com a suspeita. Segundo Barletta, Paola carregava aproximadamente 40 comprimidos do medicamento na bolsa.“Não é razoável alguém andar com essa quantidade de remédio. Quem faz tratamento costuma deixar os medicamentos em casa e leva, no máximo, um ou dois comprimidos […] é ter pronta resposta, pronta entrega, pronto uso dos medicamentos para cometer os seus delitos.”Para o delegado, esse detalhe reforça a hipótese de que o remédio fazia parte do modo de agir da investigada. A percepção da Polícia Civil é que ela mantinha os medicamentos sempre à disposição para dopar possíveis vítimas.“Com a experiência policial que nós temos aqui, […] com esse tipo de crime, que ela é voltada a prática criminosa de forma habitual, que ela vive do crime, que ela apesar de ter uma profissão, ela gosta de praticar os delitos, ela se sente bem, ela aceita essa condição de criminosa e vive disso, ela vive com isso, com essa condição de fazer com que o crime faça parte do seu dia a dia”, afirmou Barletta.Outras vítimas apareceramAs investigações já ultrapassaram o caso do casal de idosos. De acordo com Barletta, um homem que inicialmente compareceu à delegacia como testemunha passou a ser tratado como possível vítima. Foi ele quem indicou a diarista para o casal que foi morto.Ele contou que contratava Paola, duas veze por semana, como faxineira havia cerca de um ano. Em determinado dia, passou mal após permanecer na companhia dela, perdeu a consciência e, ao acordar, percebeu o desaparecimento da carteira. Na época, acreditou na explicação dada pela própria faxineira de que teria ingerido bebida alcoólica em excesso.“Hoje entendemos que ele pode ter sido dopado. O relato dele coincide integralmente com o modo de agir identificado nesta investigação.”Outra mulher também procurou a Polícia Civil após reconhecer Paola pelas reportagens sobre o caso. Ela relatou que contratou a faxineira para uma limpeza, adormeceu e, semanas depois, percebeu o desaparecimento de joias.A vítima chegou a registrar um Boletim de Ocorrência sobre o furto das joias. “E é comum, você, nós, as pessoas, não conseguem ficar todo dia: deixa eu ver se as minhas coisas estão no lugar; então a pessoa é furtada hoje, daqui um mês ela fica sabendo, daqui um ano, que é uma coisa que ela não usa a todo momento”, explicou o delegado.Para Barletta, os relatos fortalecem uma hipótese preocupante.“A gente acredita, pela experiência da equipe e pelos elementos reunidos até agora, que ela é voltada para a prática criminosa de forma habitual. Ela vive do crime.”Comprador devolveu relógiosOutro desdobramento da investigação foi a recuperação de parte dos objetos roubados. Os relógios de luxo pertencentes ao casal foram devolvidos espontaneamente pelo homem que os havia comprado. Segundo a Polícia Civil, ele procurou uma delegacia após reconhecer o caso na imprensa e entregou as peças. Até o momento, não há indícios de que ele soubesse da origem criminosa dos objetos.A investigação aponta que Paola vendeu parte dos bens por cerca de R$ 3,3 mil, valor muito abaixo do patrimônio levado do apartamento. Para os investigadores, isso reforça que o objetivo era transformar rapidamente os objetos em dinheiro.Motorista estranhou oferta de tênisA Polícia Civil também localizou o motorista de aplicativo que aparece em imagens de câmeras de segurança levando Paola logo após o crime, em um carro de alto padrão da cor cinza.Segundo Barletta, o homem compareceu espontaneamente à delegacia e confirmou que recebeu R$ 50 por uma corrida de R$ 30, sendo autorizado pela passageira a ficar com o troco. “Ele informa que naquele momento ele estava esperando um pouco alguém chamar […] não vai ficar andando gastando combustível, que é comum, é verdade, essas pessoas fazem isso, e também escutando um pouco da seleção brasileira jogar”, relatou o delegado sobre o depoimento do motorista.Durante o trajeto, ela ainda tentou vender dois pares de tênis masculinos usados.”Ele disse que aquilo nunca aconteceu em toda a experiência como motorista. Depois que viu as reportagens, percebeu que os tênis eram justamente os que haviam sido levados da casa das vítimas.”A Polícia Civil descartou qualquer participação do motorista no crime. Leia também Minas GeraisDiarista presa por matar casal em BH chora na audiência de custódia Minas GeraisJuíza ajusta tipificação do crime de diarista que matou casal em BH Minas GeraisJustiça decreta prisão preventiva da acusada de matar casal em BH Minas GeraisPerícia confirma calmante em sangue de casal morto por diarista em BH Casal tentou resistir às agressõesEmbora o laudo definitivo da necrópsia ainda não tenha sido concluído, Barletta revelou que a perícia trabalha com um número muito superior ao inicialmente divulgado.Segundo o delegado, Cláudio apresentava diversas lesões nas mãos, antebraços e braços, características típicas de quem tentou se defender durante o ataque. O perito relatou que foram cerca de 35, 40 facadas no homem – 17 somente na região do tórax – , e na esposa entre 10 e 15 golpes de faca.“No homem foram diversos locais, principalmente nas mãos, no palma das mãos e no dorso, isso chama atenção, e também no antebraço; caracteriza aí uma forma, uma tentativa de se defender, de se desvencilhar daquelas agressões tão cruéis que foram impostas. As lesões mostram que ele tentou impedir os golpes. Foi uma violência extrema.”Crime deve continuar sendo tratado como latrocínioApesar da repercussão nacional do caso, Barletta acredita que a investigação seguirá o entendimento jurídico de latrocínio — roubo seguido de morte. Segundo ele, embora duas pessoas tenham sido assassinadas, a motivação patrimonial prevalece na tipificação penal.“Salvo entendimento diferente do Ministério Público ou da Justiça, a tendência é que ela responda por latrocínio, e não por homicídio doloso submetido ao Tribunal do Júri.”Durante audiência de custódia de Paola Stefany Neto Cirino, a juíza Juliana Beretta Kirche Ferreira Pinto ajustou a tipificação inicial do crime atribuída pela autoridade policial para, segundo ela, refletir com maior precisão a gravidade do crime.A juíza acolheu o requerimento do Ministério Público para tipificar a conduta como latrocínio, porém em dose dupla, já que o crime foi praticado por duas vezes. “As circunstâncias fáticas narradas nos autos melhor se adequam à capitulação tipificada pelo artigo 157, §3º, inciso II, por duas vezes, em concurso material de infrações, na forma do artigo 69 do Código Penal”, declara.As investigações continuam e, segundo Barletta, o inquérito policial deve ser finalizado nos próximos dias.