As pretensões da ex-primeira-dama, conforme os enteados, têm no horizonte até a Presidência da RepúblicaCom dificuldade para reverter a vantagem do presidente Lula no eleitorado feminino, o senador Flávio Bolsonaro anunciou durante dias que faria um ato para colher propostas de mulheres para o seu programa de governo. O plano era atenuar a rejeição que ele enfrenta nesse segmento, herdada da postura machista imputada pelos adversários a seu pai, Jair Bolsonaro. Não deu certo. Realizado a portas fechadas na quarta-feira 1, em Brasília, o ato não contou com algumas das principais parlamentares da direita. Ministras no governo do capitão, as senadoras Tereza Cristina (PP-MS) e Damares Alves (Republicanos-DF) não compareceram, apesar de estarem na capital. Pensada no roteiro original como a grande estrela da festa, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também não prestigiou o enteado, em mais um sinal de que o rompimento entre eles parece trilhar um caminho sem volta. Com o capitão em regime de prisão domiciliar e impossibilitado de comandar pessoalmente as articulações políticas, a crise familiar escalou alguns degraus, dificultando ainda mais a campanha do Zero um.PARCERIA - Figueiredo e Eduardo: ação orquestrada contra rivais (./Reprodução)Depois de revelar publicamente a disputa interna travada na família Bolsonaro, por meio de um vídeo em que desfia uma série de queixas contra os enteados, Michelle intensificou seu afastamento da candidatura do senador e ameaçou deixar de lado todo o processo eleitoral. Um dia antes do ato organizado por Flávio Bolsonaro, ela renunciou à presidência do PL Mulher após uma conversa com o comandante da legenda, Valdemar Costa Neto, que fracassou na tentativa de costurar um armistício entre madrasta e enteado. Em nota, a ex-primeira-dama não mencionou o senador, mas mandou um recado para ele, a quem acusa de ser machista, sabotar sua participação nas decisões políticas e querer restringi-la ao papel de dona de casa. Tudo com a ajuda dos irmãos. “Que as mulheres ocupem, cada vez mais, os lugares que lhes pertencem nas esferas de decisão e de poder”, escreveu Michelle, que avisou previamente o marido da iniciativa.O estrago podia ter sido maior. Depois de se desligar do cargo partidário, a ex-primeira-dama seguiu para o Palácio do Buriti, onde conversou durante três horas com a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), e a senadora Damares Alves. No encontro, Michelle disse que pretendia se desfiliar do PL e afirmou que não concorreria mais ao Senado pelo Distrito Federal. A vitória dela no páreo, segundo as pesquisas, é barbada. Celina e Damares conseguiram demovê-la da decisão de desfiliação, mas não da ideia de não disputar a eleição. Eventual desistência de Michelle pode atrapalhar os planos da própria Celina, que a considera seu mais poderoso cabo eleitoral. “Falei sobre a importância dela para o país”, disse a governadora. A crise no clã bolsonarista ganhou tração após a divulgação do vídeo-desabafo de Michelle. Sob a proteção do anonimato, uma amiga dela contou que a ex-primeira-dama esperava que a reação de Flávio Bolsonaro fosse pegar o telefone, marcar uma conversa pessoalmente e pedir desculpas.PROBLEMA - Flávio: ato de campanha esvaziado não contou com a presença de importantes lideranças da direita (./Reprodução)Não houve o armistício esperado. Pelo contrário, Michelle passou a ser atacada nas redes sociais por influenciadores ligados aos filhos de Bolsonaro. Foi chamada de traidora e recebeu ofensas. Algumas de suas aliadas, como Damares, foram alvos de montagens de cunho sexual. A ofensiva dos blogueiros foi um dos assuntos dominantes da reunião no Palácio do Buriti e de outros desabafos pretéritos. Michelle já contou a uma pessoa de sua confiança que, após ser xingada por Carlos Bolsonaro, pensou em se separar do pai dele, por não aguentar viver numa família disfuncional e machista. Em meio à recente onda de ataques, uma manifestação em especial causou perplexidade. Parceiro de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, Paulo Figueiredo afirmou que mulheres solteiras votam “muito mal” e mulheres casadas tendem a acompanhar o voto do marido, finalizando a postagem com palavras grosseiras. Por essa lógica, Michelle deveria respeitar em silêncio a escolha de Flávio por Jair Bolsonaro.A resposta foi imediata. Quando ainda estava no comando do PL Mulher, ela usou a rede social da estrutura partidária para reproduzir uma foto de Paulo Figueiredo e defender a tese de que, como Flávio Bolsonaro não havia discordado dele, estava na prática endossando barbaridades destinadas a “implodir pontes e desrespeitar as mulheres”. A ex-primeira-dama também repostou um vídeo publicado por Anthony Garotinho, ex-governador do Rio de Janeiro, no qual ele descreve uma suposta festa organizada por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, na qual estariam senadores, deputados e governadores que “defendem a família” — todos nus, interagindo com mulheres vestidas apenas com capacetes de astronauta. “A verdade de Jesus Cristo prevalecerá”, legendou Michelle. Para muitos, estava ali uma insinuação de que Flávio Bolsonaro participara da farra. Em discurso no ato pensando para impulsionar sua campanha entre as mulheres, o senador rebateu a madrasta. “Quando ela pega um vídeo do Garotinho insinuando que eu possa estar numa festa do Vorcaro, ela está completamente desinformada”, afirmou. A fala do Zero Um não cessou a onda de boatos nos bastidores de que pode aparecer em breve alguma peça comprometedora ligando ele a Vorcaro. A pessoas próximas o senador vem desmentindo os rumores, dizendo que apenas tirou fotos com o ex-banqueiro, em situações sociais.Ciente da delicadeza do momento, Flávio Bolsonaro também estendeu a mão para a ex-primeira-dama. Primeiro, elogiou seu trabalho à frente do PL Mulher e disse que espera contar com ela na campanha, para impedir que o Brasil fique mais quatro anos nas mãos do PT. O objetivo maior, a derrota da esquerda, seria mais importante do que rixas pessoais. Ele ainda criticou a fala de Paulo Figueiredo sobre as mulheres: “Não tenho responsabilidade sobre o que ele fala, mas tenho a obrigação de falar aqui que eu me senti ofendido com a fala dele”. Um dos alvos de ataques, a senadora Damares reagiu com ironia à reação do primogênito de Bolsonaro: “Demorou, né”, declarou a VEJA. Antes, ela encerrou os trabalhos da Comissão de Direitos Humanos do Senado, da qual é presidente, reclamando da violência política contra as mulheres: “Queria dizer uma coisa aos homens que estão fazendo pré-campanha: se vocês não nos defendem, o silêncio de vocês é de conivência”.CABO ELEITORAL - Celina: governadora conta com a ajuda da amiga Michelle para renovar o mandato em outubro (Matheus Borges/Agência Brasília/.)A disputa política entre Michelle e os enteados é antiga. No fim do ano passado, ela foi lembrada como uma possível presidenciável e cotada para o posto de vice numa chapa que seria encabeçada pelo governador Tarcísio Gomes de Freitas. Antes de Jair Bolsonaro optar por Flávio Bolsonaro, a ex-primeira-dama entrou na mira de blogueiros, que a acusavam de se lixar para a situação do marido e priorizar sua carreira política. Aliados do senador dizem que a crise atual decorre do fato de Michelle não se conformar por ter sido preterida. Também afirmam que ela não aceita ficar fora da disputa pelo espólio eleitoral do marido e quer emplacar candidaturas de seus afilhados políticos mesmo quando estes não contribuem para o projeto eleitoral nacional. Ela não estaria digerindo bem o fato de não conseguir impor candidatos de sua predileção. Isso ocorreu, por exemplo, no Ceará, onde Flávio Bolsonaro fechou acordos que, na prática, rifaram os nomes defendidos por Michelle para o governo estadual e o Senado.SEM DIREÇÃO - Valdemar Costa Neto: fracasso na tentativa de costurar um armistício na família Bolsonaro (Beto Barata/PL/.)Entre os principais conselheiros do Zero Um, há quem defenda que ele deixe a ex-primeira-dama de lado e desista de contar com ela na eleição. Há queixas ainda sobre o trabalho do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha, que estaria falhando em agir como bombeiro. Apesar de ter convidado a senadora Tereza Cristina para o evento com as mulheres, Marinho não conseguiu garantir a presença dela. A senadora alegou que tinha um compromisso no mesmo horário, assumido previamente, na Confederação Nacional da Indústria (CNI). Parte do entorno de Flávio Bolsonaro acha que, com ou sem Michelle, ele não perderá votos entre os evangélicos, algo que não vem sendo confirmado pelas pesquisas recentes. O maior problema, no entanto, sempre foi o voto das mulheres. De acordo com a última pesquisa BTG/Nexus, feita após a divulgação do vídeo-desabafo de Michelle, Lula aparece com 47% das intenções de voto na simulação de segundo turno, empatado dentro da margem de erro com Flávio Bolsonaro, que tem 44%. Considerando apenas o eleitorado feminino, a vantagem do petista é bem maior: 55% a 36%.PRISÃO - Bolsonaro: impossibilitado de negociar alianças pessoalmente (Wilton Junior/Estadão Conteúdo/.)Em tese, a ex-primeira-dama seria o quadro ideal para ajudar na redução dessa desvantagem. Até agora, ela não se mostra disposta a cumprir tal missão. Pelo contrário, suas pretensões, conforme os enteados, são bem maiores e têm no horizonte até a Presidência da República. O último levantamento AtlasIntel/Bloomberg tratou dessa possibilidade. Em eventual segundo turno, Michelle perderia para Lula por quase 10 pontos de diferença (48,7% a 38,9%). Já Flávio Bolsonaro sairia derrotado por 48,8% a 42,3%. Madrasta e enteado têm quase o mesmo potencial de votos. A crise entre eles não acabará tão cedo.Com VejaO post Os bastidores da ‘declaração de guerra’ de Michelle, que escala a crise no clã Bolsonaro apareceu primeiro em Vitrine do Cariri.