Flávio promete a Trump Pix, Mercosul, soberania, terras raras e honra

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Vamos botar um pouco de ordem nos juízos do Senhor. Aludo ao Salmo 119, uma das maiores passagens do “Velho Testamento” e, pois, da Bíblia. Trata-se de um texto literalmente agônico: viver ou morrer, ter acesso à alma imortal ou perecer… Tudo depende de entender a vontade de Deus. Ali se resumem a grandeza e a fragilidade humanas: “Bem sei eu, ó Senhor, que os teus juízos são justos”; “não me apartei de teus juízos, pois tu me ensinaste”; “Jurei, e o cumprirei, que guardarei os teus justos juízos…” Eis um misto de tarefeiro fiel e homem com medo. Ainda assim, trata-se de um texto essencial para as pessoas de fé, como sou. Ele nos empurra para a essência.Sei que quase virou moda apelar às coisas de Deus para tratar das coisas dos homens. Espero não fazer isso na minha falibilidade escandalosa. Sempre que noto alguém que se mostra capaz de enxergar o futuro sem dúvida ou ambiguidade, não chego a sentir repulsa. Tenho pena. Como não quero me compadecer de mim, articulo mais as minhas dúvidas do que as minhas certezas. Está falando do quê, Reinaldo?Li a carta de Flávio Bolsonaro ao governo norte-americano — na verdade, a Donald Trump. Pensei: “Caramba! É preciso ordenar esse troço, como o sofredor do Salmo 119, que tentava, no fim das contas, pôr um pouco de ordem até nos juízos do Senhor. Ocorreu-me indagar no campo da retórica: “Que gente é essa? Quem é esse cara?”SUJEIÇÃOFlávio pede a Trump que imponha ou não tarifas ao Brasil a depender do resultado das eleições. Se Lula ganhar, ok. Que venham! Sendo ele, Flávio, o vitorioso, então não. Em síntese: espere-se o pleito porque a imposição agora das sobretaxas poderia ser explorada pelo petista como um ativo político. Logo, Flávio considera a tarifa oportuna ou inoportuna, positiva ou negativa, a depender do poder de turno. Como ele é a alternativa a Lula, o povo brasileiro que se dane, desde que ele próprio se dê bem.O candidato do PL foi adiante. Prometeu a seu “nhonhô” moral que, se eleito, vai extinguir o Mercosul — se o Brasil cai fora, o bloco acaba — em proveito dos EUA. Flávio estaria convencido de que o nosso país não alcançará uma boa condição senão sobre quatro apoios. Quando foi para a reunião da tal Cepac, a conferência dos reaças, já havia empenhado as terras raras ao “sagaz brichote” (para empregar expressão do seiscentista nativista Gregório de Matos). Agora ele avança na sujeição.PIX NO JOGOMas isso ainda não lhe pareceu o bastante. Ele também promete, no texto enviado aos EUA, que vai colocar o Pix brasileiro — sem taxa, ó, isso não! — a serviço dos “lobbies” norte-americanos aos quais Donald Trump serve — o bucaneiro ganhou quase US$ 1,5 bilhão só em 2025, a maior parte oriunda de criptomoedas. O sistema de pagamentos ficaria ao abrigo das ambições chinesas — INEXISTE QUALQUER AMEAÇA NESSA ÁREA —, e, adicionalmente, Flávio promete que vai desregular ainda mais a atuação das empresas norte-americanas de cartão de crédito — como se elas fossem umas coitadas oprimidas no Brasil…NEM NO GOLPE DE 1964Nunca se viu nada assim. O golpe de 1964, como sabe toda gente que estudou minimamente o assunto, foi desfechado em parceria com os EUA, e a Operação Brother Sam só não entrou em ação porque João Goulart não tinha como articular a resistência — logo, a intervenção militar norte-americana não foi necessária.Mas nem os golpistas de 64 ofereceram o governo do país aos EUA, como faz Flávio.  Em carta a Marco Rubio, como revelou o próprio em sua resposta, o Zero Um deixou claro que colocará a serviço dos norte-americanos a equipe de transição caso vença a eleição. É inédito.Tudo isso é ideologia? Desculpem devolvê-los ao chão. Trata-se de outra coisa. Quanto bilhões vale entregar as terras raras do Brasil aos EUA? E o Pix, que movimenta, em meses normais, R$ 1,3 trilhão e R$ 3 trilhões nos excepcionais? Qual o preço do Mercosul? E o da biodiversidade do Brasil?VOLTANDOO conjunto das coisas de que não gosto, como o de toda gente, deve ser infinito. Se entramos nessa conversa, a tendência é não acabar nunca. E o mesmo vale para as coisas de que gosto. Ocorre que há o conjunto das escolhas inaceitáveis. E esse é menor e finito.Quando escolho isso ou aquilo, esse ou aquele, nem penso muito no que quero — porque, afinal, “Eu sempre quis muito/ Mesmo que parecesse ser modesto/ Juro que eu não presto/ Eu sou muito louco, muito/ Mas na sua presença/ O meu desejo/ Parece pequeno/ Muito é muito pouco, muito”. Caetano. Os quereres são ambíguos e, no fim das contas, infinitos.Mas sei muito bem o que não aceito negociar. Quem quiser que o faça em sua infinita e incurável amargura. Continuarei a buscar a doçura nos juízos do Senhor, mesmo que improvável. Mas nunca sobre quatro apoios. Para que possa, quando menos, juntar as mãos para orar…Como é, Calderón de la Barca? “Ao rei tudo, menos a honra”. Os Bolsonaros são mais ousados. “Ao rei, tudo. A começar da honra”.