Chega um momento na carreira de qualquer grupo musical em que não deveria ser necessário provar nada para ninguém. É assim com a maioria dos nomes já estabelecidos dentro do rock, salvo raríssimas exceções — entre as quais está o Avenged Sevenfold, escalado pela segunda edição consecutiva como headliner do Palco Mundo no Rock in Rio. Mas provar o quê? Sobretudo que ainda é digno do cetro e da coroa que lhe foram ofertados quando caiu a ficha de que poderíamos estar diante dos legítimos herdeiros do Iron Maiden na corte do metal, haja vista, especificamente, as guitarras-pastiche dos primeiros trabalhos, construídas conforme aquela estética de frases assobiáveis de tão grudentas.Mas o tempo foi passando, e a majestade perversa acometeu o grupo de Huntington Beach, na Califórnia. Primeiro, com a partida precoce de seu baterista e mentor criativo, The Rev, em 2009, aos 28 anos. Depois, com a morte, pelo menos como a conhecíamos, da voz de M. Shadows, que o destituiu daqueles rasgados que apavoravam nos primórdios. Para quem vê de fora e não se debruça tanto sobre as entrelinhas, o efeito disso tudo foi prático — e se fez ouvir. Não necessariamente desbravar novos horizontes musicais seja uma resultante disso, mas, quando a paisagem não contém praticamente nada de familiar, a suspeita se eleva.O Avenged hoje é um gigante cansado, mas também um gigante que não se dá por vencido, por mais que os aspirantes ao trono venham com artilharia pesada.Foi necessária meia hora até que o palco estivesse pronto para receber Shadows, os guitarristas Zacky Vengeance e Synyster Gates, o baixista Johnny Christ e o baterista Brooks Wackerman. Não houve comunicado da produção, mas nem foi preciso. O telão deu o famigerado pau, e dezenas de colaboradores foram acionados para entender o que havia ocorrido e, então, solucionar tudo. “Tanto tempo para isso?”, questionou um fã ao lado deste escriba ao avistar o night filter — recurso visual que escurece e dessatura a imagem para conferir às cenas uma aparência noturna — aplicado às imagens da banda exibidas no aparato.No quesito visual, os LEDs do Avenged equivaliam a uma catacumba mal iluminada. Às primeiras de muitas — e algumas enormes — labaredas, logo se sacou o porquê: o contraste fica bem na foto, e ninguém pode negar que há um quê, ou vários quês, de mórbido em músicas como “Afterlife” e “Buried Alive”. Mas nem todo contraste fica bem na foto — neste caso, no vídeo — e, depois da abertura de eficácia 100% comprovada previamente com “Nightmare”, a broxada foi real com “Magic”, a segunda da noite e lançada em conexão com a franquia “Call of Duty“.“Outro dia eu estava rolando a timeline do Twitter e fiquei surpreso com a quantidade de comentários negativos acerca do festival e de uma ou outra banda”, falou Shadows. “Bem, eu gostaria que vocês soubessem que todos nós, das bandas, somos amigos. Portanto, parem com isso.” O tom meio conciliador, meio de carrasco pegou a todos de surpresa, mas não tanto quanto a boa execução de “Seize the Day”, que veio logo a seguir.Foi a primeira das três escolhidas de “City of Evil” (2005) para o set, e o disco que fez o Avenged estourar acabou sendo aquele com mais representantes no repertório. Faltou “Beast and the Harlot”, que está para o repertório dos caras como “Falling to Pieces” está para o do Faith No More: amada pelos fãs, odiada pelos integrantes.Shadows até que se saiu bem, dentro das limitações que lhe foram impostas na última década. O problema talvez seja a existência de um parâmetro prévio de inevitável comparação. Ouvir músicas como “Bat Country” e “M.I.A.” com o registro vocal “atualizado” tem sua dose de angústia e lamento. Excluindo-se, porém, o paralelo, o que se ouve do cara é paixão e entrega, além de um aspecto orgânico que muitas vezes falta aos colegas — em especial ao robótico Synyster, um monstro das seis cordas cujo semblante, do início ao fim, equivale a uma oração sem sujeito.Talvez o Avenged já não seja o herdeiro do Iron Maiden que muitos imaginaram nos anos 2000 — e, francamente, nem precise ser. No Rock in Rio, porém, ficou evidente que a transição teve um preço: o gigante continua de pé, mas carrega as marcas do percurso, e o clima teatral e contemplativo de “Cosmic” e “Nobody”, do terrível “Life Is But a Dream…” não ajuda muito na cicatrização das feridas. Fica o questionamento se a coroa, depois de tantos anos, continuará sendo um símbolo de soberania ou apenas a lembrança de um reinado que já não existe da mesma maneira.Setlist Avenged SevenfoldNightmareMagicAfterlifeShepherd of FireBuried AliveSeize the DayThe StageHail to the KingNobodyM.I.A.Bat CountryUnholy ConfessionsBis 1:A Little Piece of HeavenBis 2:CosmicQuer receber novidades sobre música direto em seu WhatsApp? Clique aqui!Clique para seguir IgorMiranda.com.br no: Instagram | X/Twitter | Facebook | YouTube | Bluesky | Threads | TikTok.O post Avenged Sevenfold defende a coroa, mas exibe as cicatrizes do tempo no Rock in Rio apareceu primeiro em Igor Miranda.