ETF irlandês, que promete ganho extra, volta ao radar com juro em alta nos EUA

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Os juros dos títulos do Tesouro americano estão nos maiores patamares em quase duas décadas e voltaram a abrir uma janela para o investidor brasileiro diversificar em dólar. Entre as alternativas, ganham destaque os ETFs europeus, normalmente domiciliados na Irlanda ou em Luxemburgo, os UCITS. Conhecidos como ETFs irlandeses, eles oferecem vantagens operacionais e fiscais em relação aos fundos listados nos Estados Unidos.A principal delas está no tratamento dos juros semestrais pagos pelos Treasuries. Nos ETFs europeus de acumulação, esses valores são reinvestidos no próprio fundo, sem distribuição ao cotista, o que evita a retenção de imposto na fonte nos EUA e deixa o dinheiro rendendo ao longo dos anos.O tema ganha relevância em um momento de forte pressão sobre a renda fixa americana. A guerra entre Estados Unidos e Irã, com o Estreito de Ormuz sem previsão de reabertura, mantém petróleo em alta e reacende o temor com a inflação, enquanto as dúvidas sobre a trajetória fiscal e o volume de emissões pressionam os vencimentos mais longos. Para conter a escalada, o Tesouro americano dobrou em agosto o tamanho de suas recompras de títulos longos, e o Federal Reserve mantém a porta aberta para uma nova alta de juros.Simulação da XP Investimentos mostra que, em uma aplicação de US$ 100 mil por sete anos, um ETF UCITS de títulos públicos americanos entregaria um ganho adicional de US$ 7.560 em relação a um ETF americano de característica equivalente. O valor corresponde a cerca de 7,5% durante a série histórica do ETF americano, ou perto de 1% ao ano.A projeção compara os rendimentos do IB01 (UCITS) e do SHV (EUA), que investem em títulos do Tesouro americano com vencimento de até 1 ano. Quanto US$ 100 mil em Treasuries teriam se tornado? ETF EUA vs UCITSFonte: XP. Evolução de um investimento hipotético de US$ 100 mil considerando o impacto do withholding tax (WHT) sobre os rendimentos.Leia também: O preço do dinheiro subiu e “concorrência brutal” vai penalizar o Brasil, diz gestoraA diferença está nas regras que regem os ETFs de renda fixa americanos, que precisam distribuir os rendimentos, sobre os quais incide imposto na fonte de 30%. O investidor estrangeiro é isento da cobrança, mas as instituições financeiras retêm o valor de todos os cotistas, e o não residente só recupera o dinheiro se pedir restituição. Os ETFs irlandeses ficam fora dessa engrenagem porque podem simplesmente não distribuir e reaplicar os valores no próprio fundo, aumentando o potencial dos juros compostos.“Os UCITS de acumulação nunca distribuem dividendos e reinvestem os valores no próprio ETF, o que não ocorre nos ETFs americanos por regulação”, explica Marcelo Cabral, gestor de investimentos e sócio fundador da Stratton Capital, gestora com sede em Nova York. “O UCITS de renda fixa tem essa vantagem porque não há o fato gerador do imposto, que é a distribuição, por isso, para o investidor brasileiro ele é muito melhor.”Vantagem também na herançaOutro ponto favorável aos fundos europeus é o imposto sobre herança americano, o Estate Tax, que incide sobre ativos situados nos Estados Unidos acima de US$ 60 mil e pode variar de 18% a 40% em caso de morte do titular, explica Clara Sodré, analista de fundos da XP Investimentos. A cobrança não alcança o investimento direto em Treasuries, mas atinge os ETFs de renda fixa listados nos EUA. Os UCITS ficam de fora porque têm domicílio fiscal fora do país, na Irlanda ou em Luxemburgo, jurisdições com acordos fiscais com o governo americano.Segundo Sodré, os ETFs vêm ganhando atenção como porta de entrada para o investimento internacional, e os fundos europeus se destacam por dispensarem o processo de recuperação do imposto retido nos EUA, além de somarem à diversificação um componente de proteção patrimonial que tem entrado cada vez mais nas conversas sobre planejamento.Quanto levar para fora?Mesmo com o Brasil entre os países de juros reais mais altos do mundo, Sodré defende que o investidor mantenha ao menos 15% da carteira em ativos globais. A alocação pode ser feita no mercado local, com BDRs e ETFs que replicam índices internacionais, ou com remessa de recursos ao exterior. Tudo depende do ciclo de vida e da estratégia de cada investidor, afirma.Para quem busca ampliar a fronteira de risco, a preferência é pela remessa por meio de uma conta global. Quem ainda não começou, na avaliação dela, tem agora o momento de iniciar a diversificação internacional, e quem já começou precisa alinhar a carteira ao momento de vida. “E para o investidor que está olhando o movimento de juros americanos como um todo, esta é uma janela única em muitos anos, com um yield interessante, que não dispensa, porém, seletividade e diversificação”, diz.Leia também: Tesouro IPCA+ lidera renda fixa e paga 1,58% em agosto; chegou a hora da virada?Onde está a melhor relação risco-retornoCabral, da Stratton, avalia que os Treasuries devem ser entendidos antes de tudo pela função que cumprem na carteira, a de proteger capital e gerar renda previsível, e não a de valorizar o principal. “É essa característica de segurança, liquidez e previsibilidade de fluxo de caixa em dólar que justifica o investimento em carteiras conservadoras e moderadas, sobretudo para o investidor brasileiro que busca preservar patrimônio fora do risco-Brasil”, diz.Depois de um longo período de juros baixos, e até abaixo da inflação, as taxas se normalizaram. Os papéis de 10 anos pagam ao redor de 4,7% ao ano e os de 30 anos, 5,2%. Mesmo os títulos corrigidos pela inflação, os TIPS, oferecem juro real de 2,4% em 10 anos e 2,98% em 30 anos.Para Cabral, a relação mais equilibrada entre risco e retorno está hoje no miolo da curva, entre dois e cinco anos, trecho em que o investidor captura um rendimento mais alto com menor volatilidade. Ele cita as intervenções recentes do Tesouro americano no mercado, a preocupação com o déficit fiscal, a possibilidade de uma alta de juros pelo Federal Reserve ainda neste ano e a mudança na comunicação do banco central como fatores que ampliam as oscilações dos papéis mais longos. “A combinação desses fatores aumenta a volatilidade e o risco de marcação a mercado, principalmente para os vencimentos mais distantes”, diz.Bruno Perri, economista-chefe e sócio fundador da Forum Investimentos, enxerga a oportunidade um pouco mais adiante na curva. Para ele, os vencimentos próximos de 10 anos oferecem bom retorno nominal e real para os padrões americanos, ainda que os prazos muito longos sigam expostos a uma marcação a mercado mais intensa e à volatilidade recente das próprias taxas.Leia também: Juros globais disparam e abalam mercado: o que está acontecendo e como fica o Brasil?The post ETF irlandês, que promete ganho extra, volta ao radar com juro em alta nos EUA appeared first on InfoMoney.