Devemos trabalhar com música? A ciência tem uma resposta menos simples

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O mundo continua lá fora, com os seus telefones, reuniões, notificações e pequenas urgências, mas durante algumas horas existe uma bolha feita de som.A cozinha também tem uma banda sonoraEste ano, investigadores decidiram levar a pergunta para um dos ambientes profissionais menos compatíveis com a ideia romântica de trabalhar ao som da música: uma cozinha profissional, onde o chiar das máquinas, os pedidos que chegam, a pressão do tempo e a necessidade de coordenação entre pessoas transformam cada minuto numa pequena operação logística.O estudo, publicado no International Journal of Industrial Ergonomics, comparou trabalhadores expostos a música clássica, música pop e ausência de música, procurando perceber o que acontecia à atenção e ao chamado flow, aquele estado psicológico em que uma pessoa fica profundamente envolvida numa tarefa e deixa, durante algum tempo, de sentir a distância entre aquilo que pensa e aquilo que está a fazer.O resultado é menos previsível do que poderia parecer. Tanto a música clássica como a pop aumentaram o flow e a atenção, e o flow funcionou como uma espécie de ponte entre a música e a capacidade de permanecer concentrado. Mas havia uma condição decisiva: a preferência musical dos trabalhadores e a complexidade da tarefa alteravam o efeito.Não existe, portanto, uma música universalmente produtiva. O cérebro não recebe Bach, Bowie ou Beyoncé como quem recebe cafeína. Depende do contextoO escritório dentro dos auscultadoresTeresa Lesiuk já tinha encontrado uma pista semelhante duas décadas antes, num estudo que tem uma vantagem preciosa para quem tenta perceber o trabalho real. Durante cinco semanas, a investigadora acompanhou 56 profissionais de desenvolvimento de software em quatro empresas canadianas e observou o que acontecia quando trabalhavam com música e quando trabalhavam sem ela. Os resultados mostraram níveis superiores de emoção positiva e melhor qualidade de trabalho nos períodos em que ouviam música, enquanto a retirada da música estava associada a mais tempo dedicado às tarefas. Para os próprios trabalhadores, a música ajudava sobretudo a melhorar o humor e a experiência do trabalho criativo.É uma distinção importante porque a relação entre música e desempenho não parece passar, necessariamente, pela velocidade com que conseguimos despachar uma tarefa, mas pela qualidade do estado mental em que conseguimos permanecer dentro dela. Nem toda a música ajudaA ideia de que uma playlist adequada pode transformar qualquer pessoa numa máquina de produtividade é, contudo, demasiado bonita para ser verdadeira.Uma revisão sistemática publicada em Music & Science analisou 95 artigos e 154 experiências sobre música de fundo e desempenho cognitivo e encontrou resultados bastante mais contraditórios. O efeito depende do tipo de tarefa, das características da música e da própria pessoa. Em tarefas que exigem memória, linguagem ou elevada concentração, a música pode introduzir uma carga adicional; quando existem letras, sobretudo, o cérebro pode ter de disputar recursos entre aquilo que está a ouvir e aquilo que está a tentar produzir.É por isso que alguém consegue escrever um relatório de vinte páginas ao som de Nine Inch Nails enquanto outra pessoa precisa de expulsar até o frigorífico da sala para conseguir terminar um parágrafo. A produtividade não tem uma banda sonora. Tem muitas. O que ouvimos também diz como queremos trabalharEscolher música para trabalhar é também escolher um estado de espírito. Quem põe uma música acelerada antes de começar uma tarefa repetitiva talvez esteja a tentar criar energia onde ela não existe. Quem escolhe música ambiente para escrever talvez esteja a construir uma fronteira contra o exterior. Quem coloca os auscultadores sem sequer ligar música pode estar simplesmente a comunicar ao resto da sala que, durante os próximos quarenta minutos, não está disponível.Os auscultadores tornaram-se uma espécie de porta. A música, muitas vezes, é a chave. A investigação sobre música e trabalho sugere que o efeito não depende apenas daquilo que ouvimos, mas também de quem somos, da tarefa que temos pela frente e do grau de autonomia que possuímos para escolher a nossa própria banda sonora.Durante anos, desenhámos os espaços de trabalho para os olhos. Escolhemos cadeiras, mesas, luzes, plantas, ecrãs, salas de reunião, cores e paredes de vidro, como se a produtividade pudesse ser arquitectada apenas a partir daquilo que vemos.Entretanto, esquecemo-nos de tudo aquilo que ouvimos. O teclado do colega. O telefone que toca. A conversa que começa três mesas atrás. A máquina de café. A reunião que atravessa uma porta. A notificação que chega ao computador. A pessoa que pergunta qualquer coisa quando finalmente tínhamos encontrado o fio de uma ideia.Não há, por isso, uma banda sonora certa para trabalhar, da mesma maneira que não existe uma única maneira certa de pensar. Há quem encontre na música uma espécie de impulso, quem a use para criar distância em relação ao que acontece à sua volta e quem precise de silêncio para conseguir manter uma ideia inteira na cabeça. O conteúdo Devemos trabalhar com música? A ciência tem uma resposta menos simples aparece primeiro em Revista Líder.