O bairro de Pinheiros, na zona oeste, é um dos mais monitorados por câmeras na cidade de São Paulo. Com imagens à disposição, os casos de violência e as queixas costumam ganhar superexposição rapidamente, com inúmeros flagrantes de ladrões levando celulares já registrados pelo “VAR do crime”. Em paralelo, a presença policial também é mais notada que em bairros periféricos.Ainda assim, roubos e furtos de celulares cresceram 21,5% em 2026, na contramão da cidade como um todo, com mais de 4.600 casos registrados de janeiro a julho (ante pouco mais de 3.800, em igual período de 2025). É uma rotina de violência que se estende ao longo dos últimos anos e parece não ter fim.O 14º Distrito Policial, que representa o bairro, é aquele com o maior número de casos dessa natureza na capital paulista, com mais de 22 registros na Polícia Civil por dia, em média, nos sete primeiros meses do ano.Para especialistas em segurança pública, falta ação coordenada e ataque à cadeia de receptação, entre outras coisas, em meio a um bairro com gigantesca população circulante e facilidade nas rotas de fuga (veja abaixo), além de moradores com alto padrão de vida. Vale ressaltar que 71% dos celulares levados por ladrões em Pinheiros entre janeiro e julho são Iphones.Levantamento realizado pelo Metrópoles com base em dados da própria Secretaria da Segurança Pública (SSP) expõe a “resiliência do crime”, mesmo em pontos críticos já divulgados à exaustão e que surgem como “pontos de calor” em qualquer mapa da violência à disposição das autoridades.Oito vias do bairro que apareciam em 2025 como de maior incidência de roubos e furtos de celular continuam no “top 10” do ranking, sendo que apenas duas tiveram redução nos índices. Em alguns casos, a ação dos criminosos mais que dobrou.Vias como mais roubos e furtos de celularesAo todo, mais de 280 vias dos bairro tiveram ao menos um roubo ou furto de celular ao longo dos sete primeiros meses do ano.DesconexãoProfessor titular da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e especialista em segurança pública, Rafael Alcadipani afirma que Pinheiros conta com uma série de “posições vantajosas” em relação a outros bairros da capital, como a ampla rede de câmeras de monitoramento e grande policiamento.“Pinheiros é um caso que mostra como as nossas formas de fazer segurança pública não conseguem dar conta da realidade de hoje. Tem todo um aparato de câmeras, aparato policial, mas essas coisas não são integradas. Não estão umas relacionadas com as outras”, diz.O especialista diz que é preciso fazer um estudo detalhado e sério com a integração das forças de segurança para fazer frente ao crime. “Pinheiros poderia ser um modelo onde você criaria um patrulhamento e policiamento inteligentes, utilizando-se, no limite, de todas as capacidades que estão instaladas lá. Tem tudo, mas está desarticulado, e gera a situação que a gente vive.”Alcadipani cita também o déficit de profissionais na Polícia Civil como um problema grave, o que dificulta o trabalho de inteligência e investigação. “Precisa melhorar e muito a forma de atuação para ser de maneira mais inteligente”, diz.“VAR do crime”Coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, Rafael Rocha transita entre o Bom Retiro, na região central, onde mora, e o seu trabalho, justamente em Pinheiros.“Já vi a gangue da bicicleta tanto no centro como em Pinheiros. Mas assalto à mão armada, pessoas parando uma moto e colocando uma arma na frente de alguém para roubar celular, eu vi em Pinheiros”, diz.A saturação da presença da polícia na região central de São Paulo, em bairros como Sé, República e Santa Cecília, pode ter “empurrado” a criminalidade para Pinheiros, segundo Rocha.“O cara está ali na pista, roubando três, quatro, cinco celulares por dia. Então ele vai fazer esse cálculo. Se ele sai do centro, ele não vai para o Capão Redondo [extremo da periferia]. Se está todo mundo meio desguarnecido, vai pra Pinheiros. Tem ali pessoas, em geral, de mais alta renda, é um bairro relativamente tranquilo, mas ao mesmo tempo tem um certo movimento em algumas vias”, diz.Embora exista uma visibilidade maior no policiamento ostensivo em Pinheiros do que em bairros periféricos, Rocha suspeita que possa ter ocorrido um deslocamento de parte do efetivo para bairros ainda mais centrais.O coordenador do Sou da Paz afirma que já pediu para a SSP, via Lei de Acesso à Informação, dados sobre o efetivo da Polícia Militar (PM) justamente para checar se houve deslocamento de tropa para atender outros bairros mais centrais. Ele afirma que não foi atendido.Sobre a onipresença das câmeras no bairro, Rocha afirma que elas vendem mais a “sensação de segurança” do que segurança em si. “Ela não garante que você não vai ser roubado. Ela vira um VAR do crime”, diz, sobre a capacidade dos equipamentos de confirmar o crime depois de ocorrido.Segundo o coordenador do Sou da Paz, sistemas como o Smart Sampa funcionam para pegar o devedor de pensão e alguém que está com mandado de prisão em aberto, mas são pouco eficazes no combate ao crime patrimonial.“Tem esse monte de câmeras que não resolvem nada, tem uma escolha de um padrão de policiamento que não tem conseguido cobrir toda a cidade, principalmente esses bairros que são vulneráveis por serem ricos e terem uma grande movimentação de pessoas”, diz.Para Rocha, falta também atuar sobre a cadeia de receptação, revenda e desbloqueio de celulares.Rotina violentaA caminho da escola, no carro com amigos, passeando com cachorro ou curtindo a vida noturna do bairro. Pessoas que vivem, trabalham ou se divertem em Pinheiros relatam que os ataques promovidos por ladrões influenciam suas rotinas das mais variadas formas.5 imagensFechar modal.1 de 5Uso do celular em Pinheiros, na zona oeste de São PauloWilliam Cardoso/Metrópoles2 de 5Uso do celular em Pinheiros, na zona oeste de São PauloWilliam Cardoso/Metrópoles3 de 5Bairro de Pinheiros, na zona oeste de São PauloWilliam Cardoso/Metrópoles4 de 5Uso do celular em Pinheiros, na zona oeste de São PauloWilliam Cardoso/Metrópoles5 de 5Rua Edson Dias, em Pinheiros, na zona oeste de São PauloWilliam Cardoso/MetrópolesA estudante Liz França, 18 anos, foi surpreendida por criminosos quando estava a caminho da escola pela Rua Artur de Azevedo. “Percebi porque o meu fone desconectou. Eles são muito rápidos, muito ligeiros. Estava andando às 6h40, passaram a mão no meu bolso e levaram o meu celular”, diz.Liz afirma que o seu pai também mora no bairro e que a violência mudou a forma como ele agora se relaciona com as ruas, com os constantes avisos de roubos que recebe no grupo do condomínio.A gerente Marcela Vieira, 30 anos, foi surpreendida no carro em que estava com outras três pessoas. Dois criminosos praticaram o assalto e ainda agrediram as vítimas. “Pediram celular, tudo o que a gente tinha. Um deles me deu um tapa, também na menina do banco de trás”, diz.As baladas na rua Edson Dias e proximidades também trazem insegurança para os frequentadores. “Estava com a mão abaixada segurando a bolsa e senti uma pressão. Quando fui olhar, o celular não estava mais”, afirma a gestora ambiental Luana Figurelli Rantiquieri, de 27 anos, sobre um furto ocorrido há um ano.Mesmo elevados, os números não dão a dimensão do que ocorre no bairro. Muitos dos crimes que acontecem nas ruas de Pinheiros acabam nem entrando para as estatísticas. O engenheiro químico Arthur Moga Foroni, 29 anos, teve o celular na Edson Dias, em 2022, e nem registrou o boletim de ocorrência. “A gente sabe que nunca dá em nada. Como era celular antigo, não tinha localizador e ficou por isso mesmo”, diz.O que dizem os responsáveisA SSP afirma que o policiamento preventivo na região é constantemente reorientado com base na análise dos indicadores criminais e por meio do cruzamento de informações dos sistemas policiais e de inteligência.“Na área da 3ª Delegacia Seccional, que abrange diversos bairros da zona oeste da capital, 3.122 infratores foram presos ou apreendidos no período citado pela reportagem”, diz, em nota.Segundo a SSP, as vias com maior incidência criminal são permanentemente monitoradas e, na região oeste, há ações permanentes e ações estratégicas voltadas à prevenção e à repressão qualificada dos crimes patrimoniais, como as operações Impacto, Big Mobile, Mobile, DRAKE e Pedal, esta última com foco na repressão a criminosos que se passam por ciclistas ou entregadores de aplicativos. Leia também Alfredo HenriquePolicial preso mantinha 49 celulares no lixo e R$ 19 mil em delegacia de SP São Paulo“Cemitério de celulares” era ponto de venda de drogas, diz testemunha Mirelle PinheiroPF prende motorista com carro recheado de celulares estrangeiros Mirelle PinheiroPM apreende R$ 800 mil em celulares irregulares após perseguição A pasta diz que a Polícia Civil realiza ações preventivas e investigativas de combate a roubos, furtos e receptação. “A PM também promove operações com reforço do patrulhamento ostensivo, como a Centauro, Hidden Trails e Cavalo de Aço”, diz.“Os roubos e furtos de celulares diminuíram 15,5% e 2,7%, respectivamente, na capital paulista, nos primeiros sete meses deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado. Na área da 3ª Delegacia Seccional, os roubos em geral apresentaram queda de 9,81%”, diz.A Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU), da prefeitura, diz que a Guarda Civil Metropolitana (GCM) realiza patrulhamento preventivo e ostensivo de forma contínua na região de Pinheiros, com emprego estratégico de efetivo e viaturas e reforço em pontos considerados prioritários, incluindo as vias mencionadas pela reportagem. “As ações são direcionadas especialmente para áreas com maior circulação de pessoas, concentração de estabelecimentos comerciais e incidência de ocorrências”.Segundo a prefeitura, a atuação da GCM é “potencializada com o auxílio de mais de 14 mil câmeras instaladas em pontos estratégicos pela zona oeste “para identificação de situações suspeitas, pronta resposta das equipes e apoio à localização de pessoas e veículos relacionados a ocorrências”.A GCM diz que conta com acesso ao CompStat Paulistano, ferramenta online de consulta de dados que auxilia o acompanhamento das ocorrências e a análise territorial pelas equipes.O Serviço Especializado de Abordagem Social (SEAS) Pinheiros, da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), realiza acompanhamento semanal no local.A SP Regula diz que a Subprefeitura de Pinheiros conta com amplo sistema de iluminação pública, incluindo no entorno do Largo do Batata e em todo trajeto da Av. Brig. Faria Lima.