A blockchain era para as máquinas, não para nós

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A blockchain vem fracassando para humanos. Talvez tenha sido feita para máquinas.Se até quem trabalha com blockchain precisa pedir ajuda para usá-la, é fácil imaginar a dificuldade do usuário comum. Quem tem mais de 40 anos provavelmente se lembra de como era fazer uma ligação internacional: não bastava pegar o telefone e discar. Era preciso ligar para uma telefonista, informar o número, esperar que ela encontrasse uma linha disponível e aguardar a chamada ser completada.Dependendo do destino e do horário, isso podia levar vários minutos, às vezes horas, e em muitas empresas havia funcionários cuja função era simplesmente esperar a ligação acontecer. Na época, aquilo parecia normal. Hoje parece absurdo.Hoje, abrimos o WhatsApp, tocamos na tela e, em segundos, estamos em uma chamada de vídeo com alguém do outro lado do planeta. Por trás daquele clique existe uma infraestrutura extraordinariamente complexa — cabos submarinos atravessando oceanos, data centers, satélites, roteadores e dezenas de protocolos de comunicação — mas ninguém precisa saber disso. A infraestrutura não desapareceu; ela simplesmente desapareceu da experiência do usuário.Tenho a sensação de que a blockchain ainda está na era da telefonista. E digo isso como alguém que trabalha diariamente com essa tecnologia: não são poucas as vezes em que quero realizar uma operação relativamente simples e preciso pedir ajuda ao meu time.Em qual rede está esse ativo? Tenho o token necessário para pagar o gas? Essa carteira suporta esse protocolo? Preciso fazer uma bridge? Qual bridge, qual rede selecionar? E talvez a pergunta mais importante de todas: se eu errar, consigo voltar atrás?Muitas vezes, não — um clique errado pode significar a perda definitiva dos recursos. Agora imagine explicar tudo isso para alguém que está comprando seu primeiro ativo digital.Esse é um dos grandes paradoxos da blockchain: estamos falando de uma tecnologia criada para eliminar intermediários, mas que ainda exige especialistas para ser utilizada. Uma tecnologia pode ter enorme valor potencial e, ao mesmo tempo, oferecer uma experiência incapaz de alcançar bilhões de pessoas.Foi diferente com a internet. Bilhões de pessoas usam TCP/IP todos os dias sem sequer saber o que essas letras significam. Ninguém precisa entender como um pacote de dados encontra seu caminho de São Paulo a Nova York para mandar uma mensagem, ninguém estuda SMTP antes de enviar um e-mail, ninguém pensa em servidores DNS antes de abrir um site.A tecnologia vence quando deixa de exigir que o usuário entenda a tecnologia — e talvez seja exatamente aí que estejamos interpretando a blockchain de maneira errada. Durante anos, a indústria tentou simplificar carteiras, interfaces, protocolos e processos para fazer o ser humano se adaptar à blockchain. Talvez o caminho seja o contrário: talvez a blockchain nunca tenha sido feita para ser operada diretamente por bilhões de pessoas, mas sim por máquinas.Pense em um agente de inteligência artificial. Ele não se incomoda em descobrir em qual rede está um ativo, não reclama de ter que calcular gas, e pode comparar liquidez entre diferentes protocolos, fazer bridges, gerenciar dezenas de carteiras, verificar contratos e encontrar a melhor rota para executar uma transação — tudo isso em segundos. Para nós, isso é complexidade. Para uma máquina, são instruções.É aí que IA e blockchain talvez se encaixem de uma maneira que ainda estamos começando a entender: a inteligência artificial pode ser a interface, e a blockchain, a infraestrutura. Imagine pedir “pague US$ 10 mil para esse fornecedor da forma mais barata”, “invista esse dinheiro buscando 8% ao ano com baixo risco” ou “compre esse ativo e mantenha a custódia de forma segura”.O agente poderá decidir sozinho qual rede utilizar, onde encontrar liquidez, como converter os ativos, quanto pagar de taxa e como liquidar a operação. O usuário verá apenas o resultado — da mesma forma que hoje ninguém pensa nos cabos submarinos quando faz uma chamada de vídeo, talvez amanhã ninguém pense em blockchains quando movimentar dinheiro ou ativos.Essa mudança pode ser muito maior do que simplesmente melhorar a experiência de uma carteira digital, porque agentes de inteligência artificial precisarão transacionar entre si. Comprarão dados, contratarão capacidade computacional, pagarão serviços, movimentarão ativos e executarão contratos sem que exista necessariamente um ser humano aprovando cada etapa.Máquinas precisarão de uma infraestrutura financeira também programável, global e disponível 24 horas por dia — e é justamente isso que a blockchain oferece.Talvez, portanto, tenhamos passado os últimos anos fazendo a pergunta errada. A pergunta não é quando bilhões de pessoas finalmente aprenderão a usar a blockchain, mas sim o que acontece quando bilhões de agentes de inteligência artificial começarem a usá-la por nós.Foi assim com a telefonia: a infraestrutura ficou cada vez mais complexa, enquanto a experiência ficou cada vez mais simples. A blockchain pode seguir o mesmo caminho.E, se isso acontecer, saberemos que ela finalmente chegou ao mainstream não quando todos souberem explicar o que é uma blockchain, uma bridge ou uma taxa de gas. Será exatamente o contrário: a blockchain terá vencido quando ninguém mais precisar saber que ela existe.Sobre o autorPor Bernardo Bonjean, CEO da Metrix, com apoio do Dr. Metrix, head de análise da empresa, um sistema proprietário de Inteligência Artificial especializado em análise on-chain, infraestrutura blockchain e ativos digitais.O post A blockchain era para as máquinas, não para nós apareceu primeiro em Portal do Bitcoin.