Fuligem já é responsável por até 1/3 do derretimento das geleiras do Himalaia

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A poluição por fuligem já é ligada ao aumento do risco de colapsos de geleiras no Himalaia. O tema ganhou urgência depois do desastre que atingiu vales no Nepal no fim de agosto, deixando milhares de desaparecidos.Geleiras que antes eram brancas estão cada vez mais cobertas por resíduos de exaustão de carros, usinas a carvão e fábricas, segundo o New York Times. Essa camada escura faz o gelo absorver mais calor do sol e derreter mais rápido.Como a fuligem acelera o derretimentoO fenômeno enfraquece o chamado efeito albedo: a capacidade de uma superfície de refletir energia solar de volta para o espaço. Neve limpa em alta altitude reflete até 90% da luz solar recebida.Quando fuligem e poeira se depositam sobre a neve, essa reflexividade cai bastante. A superfície passa a absorver mais calor em vez de devolvê-lo ao espaço – como uma camiseta preta usada sob sol forte.“Isso está tendo um impacto enorme nessas geleiras, especialmente à medida que elas ficam cada vez mais finas”, disse Marco Tedesco, professor de geofísica do Observatório Terrestre Lamont-Doherty, da Universidade Columbia, ao New York Times. Um terço da perda de gelo já vem da poluiçãoUma modelagem da Academia Chinesa de Ciências estimou que o carbono negro do Sul da Ásia – fuligem liberada por queima de combustíveis – respondeu por até um terço da perda total de massa glacial no Himalaia entre 2007 e 2016.Um estudo mais recente, com seis anos de dados de satélite, mostrou como fuligem e poeira mineral das áreas industriais do Paquistão viajam até geleiras de alta altitude e escurecem sua superfície.“Podemos notar cada vez mais perda no futuro” se a poluição continuar sem controle, disse Abira Sengupta, pesquisadora da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, que liderou o estudo, ao New York Times. “E corremos o risco de mais enchentes, como vimos no Nepal.”Um ciclo que se retroalimentaFuligem no ar também prende calor sobre as montanhas, altera a formação de nuvens e reduz as nevascas regionais, privando as geleiras da neve nova de que precisam para se manter.“Quando essa camada escura começa a absorver calor, ela derrete a superfície ao redor, o que pode revelar camadas ainda mais antigas de poeira e detritos presos no gelo abaixo”, disse Aashutosh Paudel, pesquisador da Universidade Tribhuvan, no Nepal, ao New York Times. “Então, à medida que o derretimento acelera, existe um ciclo que se retroalimenta.”Geleiras cada vez mais instáveisSegundo a ONU, as geleiras das montanhas nepalesas encolheram um terço em 30 anos, o que aumentou sua instabilidade, conforme reportagem da DW. Pesquisas apontam que a região do Hindu Kush-Himalaia pode perder até metade de sua cobertura glacial até o fim do século, mesmo em cenários de aquecimento contido a 2°C.Levan Tielidze, pesquisador em geomorfologia glacial da Universidade Monash, na Austrália, disse à DW que o Himalaia não é um “ambiente congelado e relativamente estável”, mas sim feito de “sistemas dinâmicos nos quais interagem geleiras, neve, permafrost, encostas rochosas, rios e processos de monção”.Enchentes provocadas pelo rompimento de lagos glaciais também aumentaram cinco vezes por década desde os anos 1950 na região, segundo Dipesh Chapagain, cientista sênior do Instituto de Meio Ambiente e Segurança Humana da Universidade das Nações Unidas, em entrevista à DW.Adaptação tem limitesEm 2025, o colapso de uma geleira nos Alpes suíços destruiu a vila de Blatten – mas resultou em apenas uma morte, porque o monitoramento detalhado permitiu evacuar a população a tempo.Isso é mais difícil no Himalaia, que abriga mais de 63,7 mil geleiras e carece de sistemas de alerta precoce, segundo a DW. Tielidze defende sistemas integrados que combinem satélites, detecção sísmica e alertas automatizados.“O que aprendemos com isso é que podemos nos adaptar às mudanças climáticas, mas não a um apocalipse climático”, disse à DW Shreya K.C., copresidente de um grupo de advocacy da Loss and Damage Youth Coalition, sediado em Katmandu.Fuligem não fica no ar para sempreDiferentemente do CO2, que persiste na atmosfera por séculos, o carbono negro some do ar em dias ou semanas. Isso significa que reduzir as emissões pode limpar o ar quase de imediato.Um estudo de 2023 do Instituto Indiano de Meteorologia Tropical usou os lockdowns da Covid-19 em 2020 como um experimento real: a queda temporária na poluição deixou a neve mais clara e reduziu o derretimento no Himalaia em até 40%, segundo o New York Times.A ONU alertou nesta quarta-feira (02) que o aumento das temperaturas globais deve ultrapassar o limite de 1,5°C nos próximos anos, o que deve intensificar a pressão sobre geleiras e cidades costeiras de baixa altitude, segundo relatório citado pela DW.O post Fuligem já é responsável por até 1/3 do derretimento das geleiras do Himalaia apareceu primeiro em Olhar Digital.