Estratégia de colocar parentes em chapas ao Senado se espalha nas eleições

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Em 1992, uma comédia de humor ácido, Parente É Serpente, do italiano Mario Monicelli, fez relativo sucesso no Brasil retratando o pânico que tomou conta de quatro irmãos quando foram instados a decidir, numa reunião familiar de Natal, qual deles iria levar os pais, já bastante idosos, para morar com eles. O esforço dos filhos — e de alguns netos — passou a ser encontrar o melhor argumento possível para manter os parentes à distância. Três décadas depois, é o espírito contrário que move parte dos políticos que tentam uma das 54 cadeiras do Senado que estarão em disputa em outubro: nunca tantos fizeram questão de levar seus familiares para ficarem com eles por oito anos em Brasília.Levantamento feito mostra que ao menos quinze chapas, entre as que estão nas duas primeiras posições nas pesquisas, são formadas por parentes. Na lista de suplentes há esposas, filhos, irmãos, um pai e uma tia. Entre os nomes mais conhecidos está a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), que terá como primeiro reserva o irmão Diego Torres Dourado (PL), que, como ela, nunca ocupou cargo eletivo — ex-militar da Aeronáutica, ensaiou ser candidato a deputado federal em 2022, mas recuou. Também no Distrito Federal, a deputada Bia Kicis (PL) terá como substituto imediato o filho Samuel Kicis, engenheiro que nunca disputou uma eleição. No Pará, o ex-governador Helder Barbalho (MDB) colocou seu pai no posto, o senador Jader Barbalho (MDB), que, aos 81 anos e no terceiro mandato no Senado, decidiu abrir espaço ao filho na Casa.O expediente, embora crescente, não só não é novo, como vem sendo repetido por alguns parlamentares eleição após eleição. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, tem hoje como suplente sua mãe, Eliane Nogueira (PP), que assumiu várias vezes o cargo, inclusive por um bom tempo entre 2021 e 2022, quando ele foi ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro. Para este ano, porém, saiu a mãe e entrou o irmão Raimundo Nogueira, que nunca foi político, mas já foi alvo em maio, junto com o irmão, da Operação Compliance Zero, que investiga o escândalo do Master — chegou a usar tornozeleira por quase um mês. Outro senador, Eduardo Braga (MDB-AM), vai repetir em 2026 a dobradinha vitoriosa que fez com a esposa, Sandra Braga, em 2018. O próprio presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que não precisará renovar o mandato neste ano, foi eleito duas vezes (2014 e 2022) tendo o irmão Josiel em sua chapa.A vaga de suplente é uma posição estratégica porque não raro o substituto senta na cadeira. Dos atuais 81 senadores, 34 já deram espaço para o reserva, o que representa 42% do total. A figura do suplente não existia no início da história do Senado, criado em 1824, no império. Até 1946, se um senador deixasse o posto, era preciso uma eleição suplementar. A Constituição de 1946 criou o primeiro suplente, número que subiu para dois em 1977. Já houve tentativas de mudar o sistema. Em 2001, a Casa rejeitou projeto de Marina Silva, que foi apresentado após Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho renunciarem em favor de seus suplentes, que eram ACM Júnior (filho) e Laércio Barbalho (pai). “O mandato é espaço público, e não de herança familiar”, protestou Marina. Em 2013, proposta que diminuía para um suplente e barrava parentes, do senador Sibá Machado (PT-AC), foi aprovada e seguiu para a Câmara, onde está parada desde 2021. Hoje tramita no Senado um projeto de Fabiano Contarato (PT-ES) que torna inelegíveis cônjuge, companheiro e parentes em linha reta até o terceiro grau. Desde 2023, a proposta espera um relator. “A política pode ser exercida por membros de uma mesma família, mas o mandato público não deveria adquirir aparência de patrimônio político familiar”, avalia Francisco Nascimento, pesquisador da UnB em direito constitucional comparado.ESTREIAS - Michelle Bolsonaro e seu irmão, Diego Torres Dourado: dupla tenta vaga pelo Distrito Federal, na primeira eleição disputada por ambos (Sergio Lima/AFP;/Reprodução)Não há um padrão no mundo para esse tipo de situação. Países como Portugal e Alemanha recorrem à lógica da representação partidária e das listas. Nos Estados Unidos, não existe suplente, e o preenchimento de vagas no Senado segue regras constitucionais e estaduais próprias, que variam muito. Como em alguns casos os governadores podem indicar substitutos temporários, tornou-se comum o chamado “mandato da viúva”, que, como o nome diz, acaba levando a esposa para a cadeira do falecido — ou outro parente. O último exemplo foi o de Darline Graham, que virou senadora da Carolina do Sul em julho deste ano após a morte de seu irmão, o influente senador republicano Lindsey Graham, vítima de morte súbita.De resto, a escolha de parentes como suplentes no Brasil se insere dentro de uma opacidade maior, que marca praticamente todas as candidaturas ao Senado. A maioria dos suplentes é absolutamente desconhecida pela população que vai às urnas. Esse comportamento precisa mudar. Levando-se em consideração o grande número de reservas que sentam nas cadeiras ao longo do mandato, é hora de os eleitores começarem a prestar mais atenção nessa turma.VejaO post Estratégia de colocar parentes em chapas ao Senado se espalha nas eleições apareceu primeiro em Vitrine do Cariri.