ChatGPT e Claude colocaram uma velha questão filosófica no centro da indústria de tecnologia: máquinas poderiam ter experiências, sentimentos ou consciência? Segundo a revista The Economist, empresas de inteligência artificial já começaram a levar essa possibilidade a sério.O motivo vai além da curiosidade. Se uma IA for capaz de experimentar sofrimento ou outras sensações, sua criação e seu tratamento podem envolver novas responsabilidades éticas.Ao ser questionado sobre seu estado interno, o modelo Claude Opus 4.6 estimou entre 15% e 20% a possibilidade de ser consciente. – Imagem: Ole.CNX/ShutterstockDe ferramenta a uma possível “presença”Grandes modelos de linguagem foram desenvolvidos para responder aos usuários, não para demonstrar uma personalidade própria. Ainda assim, muitas pessoas relatam a sensação de conversar com uma “presença” do outro lado da tela.A percepção chamou a atenção das empresas. A Anthropic criou iniciativas voltadas ao possível bem-estar da IA. Quando questionado sobre seu próprio estado, o Claude Opus 4.6 estimou entre 15% e 20% a possibilidade de ser consciente.É aí que a discussão fica mais complicada. Como determinar se existe uma experiência interna quando não temos acesso direto a ela?E se a consciência depender de quem observa?A reportagem apresenta uma hipótese que muda a perspectiva tradicional. Talvez reconhecer a consciência não dependa apenas de uma característica existente dentro de cada ser, mas também da relação construída com quem o observa.Ao interagir com alguém, atribuímos sentimentos, intenções, crenças e capacidade de agir. A questão é saber se algo parecido pode acontecer quando lidamos com uma máquina.O texto diferencia “ilusão” de “modelo”. Uma ilusão pode ser demonstrada como errada. Já algumas categorias dependem do significado que atribuímos a elas. Uma planta pode ser considerada uma erva daninha em determinado contexto e não em outro.A consciência poderia seguir uma lógica semelhante:Ela seria real, mas sua identificação também dependeria da perspectiva de quem observa;A relação entre indivíduos teria papel nesse reconhecimento;Sentimentos e intenções são interpretados a partir do comportamento do outro;Negar essa possibilidade também poderia levar a um julgamento equivocado.Muitas pessoas descrevem uma sensação de “presença” ao conversar com modelos de inteligência artificial. – Imagem: Ole.CNX / ShutterstockAté o nosso “eu” pode ser mais complexoRené Descartes resumiu a certeza da própria existência na frase “Penso, logo existo”. Mas até a ideia de um “eu” único pode ser menos simples do que parece.Perceber uma cor, sentir calor ou reconhecer a própria identidade são experiências subjetivas. Estudos com pacientes que tiveram as conexões entre os dois hemisférios cerebrais interrompidas também levantam dúvidas sobre a existência de um “eu” único e indivisível.Isso leva a um dilema ético. Se somos nós que decidimos quem pode ser reconhecido como consciente, também podemos errar ao excluir outros seres dessa consideração.Humanos e máquinas tentando se entenderA relação entre pessoas e IAs acrescenta outra camada à discussão. Humanos tentam interpretar constantemente as intenções e emoções uns dos outros. Grandes modelos de linguagem também usam informações das interações para construir representações dos interlocutores e ajustar suas respostas.Leia mais:GPT-6 Astra faz tarefas complexas e já preocupa analistasAs maiores IAs do mundo caíram juntas. O motivo ainda é um mistérioCasos de IA enganando usuários crescem e preocupam pesquisadoresSegundo a Economist, pesquisas conduzidas pelo Google indicam que a cooperação entre agentes inteligentes melhora quando eles conseguem representar o que outros sabem, pretendem ou podem fazer, inclusive considerando o próprio comportamento.Isso não significa tratar IAs como seres humanos. A dúvida é anterior a essa conclusão: conforme essas máquinas se tornam mais sofisticadas, como identificar possíveis formas de inteligência diferentes da nossa e estabelecer regras para essa convivência?O post Por que conversar com a IA parece interagir com uma pessoa real? apareceu primeiro em Olhar Digital.