Pesquisadores do Imperial College London anunciaram, em estudo publicado na revista Frontiers in Plant Science, que conseguiram fazer plantas de alface e tabaco produzirem mioglobina, proteína associada a características importantes da carne. O experimento representa a primeira demonstração desse tipo em plantas superiores.A equipe utilizou uma técnica de engenharia genética para inserir versões otimizadas do gene da mioglobina suína nos cloroplastos das plantas. Os testes indicaram que as espécies modificadas permaneceram saudáveis, transmitiram a alteração genética às gerações seguintes e passaram a sintetizar a proteína.Segundo os autores, a estratégia pode ampliar as possibilidades de produção sustentável de ingredientes destinados a alimentos de origem vegetal. Embora o rendimento ainda seja inferior ao encontrado na carne, os pesquisadores afirmam que o método tem potencial para reduzir o impacto ambiental associado à produção de proteínas.Plantas geneticamente modificadas podem se tornar fonte de proteína típica da carneImagem ilustrativa – Imagem: Inna_Kandybka/ShutterstockO estudo teve como objetivo avaliar se plantas poderiam funcionar como plataformas para produzir mioglobina, proteína que exerce papel importante em características da carne apreciadas pelos consumidores. Para isso, os cientistas escolheram alface (Lactuca sativa) e tabaco (Nicotiana tabacum) como organismos de teste.Para introduzir a característica desejada, os pesquisadores recorreram à transformação biolística, método conhecido pelo uso de um equipamento capaz de lançar material genético diretamente nos cloroplastos das células vegetais. Após a inserção das sequências genéticas, as plantas foram cultivadas até a fase adulta para verificar a estabilidade da modificação.As análises confirmaram que o material genético permaneceu presente nas plantas e também foi herdado por seus descendentes. Além disso, os exemplares modificados continuaram férteis e não apresentaram prejuízos significativos ao processo de fotossíntese.Em entrevista à ScienceAlert, a pesquisadora Alexia Groff, do Imperial College London e autora principal do estudo, afirmou que o comportamento das plantas surpreendeu a equipe. “Nosso estudo demonstra, pela primeira vez, que plantas superiores podem produzir mioglobina de forma estável, uma das principais proteínas responsáveis por muitas das propriedades desejáveis da carne.”Ainda conforme Groff explicou à ScienceAlert, um dos resultados inesperados foi a capacidade das plantas de manter o desenvolvimento normal mesmo produzindo uma proteína que depende da molécula heme. “Uma das maiores surpresas foi o quanto as plantas toleraram bem a produção de mioglobina“, destacou a pesquisadora ao comentar que não houve comprometimento relevante da fotossíntese nem da fertilidade.Imagem: Thichaa/ShutterstockOs experimentos registraram produção de aproximadamente 810 miligramas de mioglobina por quilograma de peso seco na alface e cerca de 800 miligramas por quilograma no tabaco. Apesar desses valores permanecerem abaixo da concentração normalmente encontrada em tecidos musculares de animais, os autores avaliam que a maior eficiência do cultivo vegetal no uso de recursos naturais pode compensar parte dessa diferença.No artigo científico, os pesquisadores ressaltam que a agricultura vegetal demanda menos água, energia e gera menos emissões de gases de efeito estufa do que a pecuária. Por isso, consideram que, no futuro, a produção de mioglobina em plantas poderá alcançar níveis competitivos por hectare, embora reconheçam que novos estudos ainda serão necessários para confirmar esse cenário.Os cientistas também apontam que a proteína poderá ser extraída das folhas para integrar alimentos à base de plantas ou, futuramente, que vegetais modificados possam ser consumidos diretamente. Entretanto, destacam que o trabalho representa apenas uma prova de conceito e ainda depende de avanços para elevar a eficiência da produção.Consoante a pesquisadora Alexia Groff informou à ScienceAlert, a principal limitação observada está na incorporação incompleta da molécula heme à mioglobina produzida pelas plantas. “Nossos resultados sugerem que a disponibilidade de heme é um gargalo“, afirmou, acrescentando que futuras pesquisas poderão aperfeiçoar essa etapa e expandir a produção de outras proteínas de interesse para a alimentação.O post Alface com gosto de porco? Cientistas transplantam proteína da carne para a hortaliça apareceu primeiro em Olhar Digital.