Helena Canhão, secretária de Estado da Ciência e Inovação, continua a exercer medicina: «Gosto muito de ver doentes»

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Reumatologista, professora catedrática e antiga diretora da NOVA Medical School, Helena Canhão é desde 2025 secretária de Estado da Ciência e Inovação e garante que a mudança para o Governo não a afastou da vocação: «Gosto muito de ver doentes, portanto continuo a ser médica.» Em entrevista à Líder, diz que não tinha ambições políticas e que aceitou o convite por considerar que a educação, a ciência e a inovação são «a área onde temos de apostar para mudar o país».Da conversa sai um diagnóstico da Europa, forte em valores e universidades mas ainda com dependências em dados, infraestruturas, cadeias de abastecimento e defesa, e com dificuldade em colaborar por dentro. «A União Europeia também só existe se nós confiarmos uns nos outros», afirma, notando que os países andam «muito preocupados com o seu país, os seus eleitores».Sobre a nova Agência para a Investigação e Inovação (AI²), cujo contrato de programa será implementado a partir de janeiro de 2027, explica a divisão em três pilares, da investigação fundamental à inovação, e defende que a agência terá de «ser completamente transparente e prestar contas», com indicadores que vão do tempo de resposta aos investigadores ao impacto na vida das pessoas.Passou muitos anos a tentar encontrar respostas para problemas complexos na medicina e na investigaçã Agora está no Governo, onde por vezes parece que o problema é encontrar a pergunta certa. Qual dos dois mundos lhe exige mais paciência?É uma ótima pergunta, porque, por um lado, nós, enquanto investigadores, andamos à procura das respostas, só que é essencial fazer a pergunta certa. Por isso acho que tem muita razão: se não fazemos a pergunta certa, podemos esforçar-nos muito, mas o resultado que sai das nossas respostas acaba por não ter tanto significado, porque a pergunta não foi a correta.Esta posição no Governo é interessante porque permite gerar novas políticas e preparar o ecossistema de uma forma que facilite o trabalho e a vida das pessoas. É isso que tem de desafiante, porque podemos ir construindo, às vezes com passos maiores, outras com passos mais pequenos, uma ideia de futuro, o futuro que queremos para o nosso país e para a Europa. A Europa tem universidades de excelência, investigadores talentosos, empresas fortes, mas continua a ter dificuldade em competir com os Estados Unidos e com a China em áreas tecnológicas decisivas. O que é que temos de mudar primeiro?Temos uma União Europeia que tem feito muito e que tem evoluído imenso, mas não somos um país único. Quando nos comparamos com os Estados Unidos ou com a China, falamos de países continentais. Nós, apesar de termos princípios comuns, temos imensa sorte em viver na Europa, um continente ótimo para se viver, porque temos alguns valores que são fundamentais.Um deles é a democracia. E a democracia às vezes não torna tão fácil implementar políticas como acontece, por exemplo, na China, que é um país autocrático, ou mesmo nos Estados Unidos, que agora estão, como sabemos, com algumas dificuldades a nível político. Mas temos uma Europa que partilha os valores que todos queremos: preservar os direitos humanos, investir na educação, trabalhar para o bem-estar da população, ser inclusiva, democrática. E isso é partilhado por todos os países da União Europeia.Por isso é que fazemos todos parte dela. Mas depois, em termos de mercado, não é um mercado único. Temos culturas diferentes, países mais avançados e outros menos. Do ponto de vista económico também há muitas assimetrias, e as próprias regras e regulações, ainda que tenhamos as diretivas europeias, não criam os mesmos obstáculos no caminho de cada país.Além disso, ainda temos muita burocracia, ainda temos de passar por muitas aprovações e por muitos níveis, e tudo isto dificulta o crescimento e a aplicação. Quando comparamos com os Estados Unidos da América, temos nitidamente um problema competitivo, ainda que tenhamos muitas outras vantagens.Precisamente por aí: da inteligência artificial aos semicondutores, a Europa depende de outras potências, até em termos de recursos e materiais. Em que tecnologias devemos apostar para depender menos? E qual o papel de Portugal?Isso é outro ponto muito importante, porque um dos grandes problemas é conseguirmos manter a nossa soberania em termos de dados, de infraestruturas, até de alimentação, por exemplo. Todas as cadeias. Temos apostado cada vez mais no mundo global, e ainda bem, só que depois, para alguns produtos, para a cadeia de abastecimento, estamos dependentes de muitos países, da Ásia e de outros. E mesmo em termos de recursos naturais: a Europa não é propriamente rica nesse capítulo, quando comparada com outros países.Portanto, abrimo-nos para o mundo, e bem, ao mesmo tempo colaboramos, e também bem, mas depois estamos muito dependentes, até na defesa e noutros aspetos, e muito frágeis face ao exterior, porque confiamos. Por outro lado, a União Europeia também só existe se nós confiarmos uns nos outros.Ao mesmo tempo que desenvolvemos esta confiança interna entre os Estados-membros, também a desenvolvemos para o exterior. E agora temos algumas dificuldades com a geopolítica deste momento.Mas, enquanto tentamos proteger-nos e ser mais autónomos enquanto União Europeia, nota-se também, e isso é um problema sem dúvida, que mesmo dentro da União estamos a ver os países muito preocupados com o seu país, os seus eleitores, as tensões sociais que existem em cada país. Isso dificulta a colaboração e atrasa ainda mais a União Europeia.Com a criação da AI², o Governo definiu três pilares: investigação fundamental, domínios estratégicos e inovação. A ciência deve servir a economia ou ter liberdade para explorar? E como garantimos que a investigação fundamental, cujo valor nem sempre é imediato, não fica para trás?Sem dúvida que temos de investir na investigação fundamental. Isso não pode ser posto em causa. O tempo que se exige para verificar resultados na investigação fundamental é completamente diferente, é muito mais lento e a longo prazo, e nem sequer deve ser essa a nossa preocupação, quando comparada com a investigação mais aplicada ou translacional, de aplicação e de resolução de desafios e domínios.É por isso que dividimos a AI², a Agência para a Investigação e Inovação, em três pilares diferentes. Um continua a proteger a investigação fundamental, a investigação que depende da curiosidade dos investigadores, da sua liberdade para investigar, e isso continua a existir.Mas achamos importante distinguir quais são as prioridades que temos e abrir financiamento para missões, para resolver problemas e desafios societais. Isso está no segundo pilar: uma investigação e desenvolvimento muito mais aplicados, para resolver problemas. E o terceiro pilar visa expressamente apoiar a inovação, sobretudo naquelas dificuldades a que se chama o vale da morte, ou seja, ter resultados e depois translacioná-los para a sociedade e para o mercado. Aí também precisamos de incentivos específicos.E, para não haver dúvidas de que queremos apoiar os três e de que são diferentes, temos estes três pilares. Agora, a discussão, e depois o que vamos aprovar em Conselho de Ministros e implementar com o contrato de programa com a AI² a partir de janeiro de 2027, é também a alocação do orçamento para cada uma destas áreas, para ficar bem claro que continuamos a apostar na investigação fundamental.Portugal quer chegar aos 3% do PIB em investigação e desenvolvimento até 2030. Como é que asseguramos que esse investimento se traduz em melhores empregos e salários mais altos? E posso juntar esta questão: o que é que tem de mudar para que os investigadores altamente qualificados que Portugal tem consigam construir uma carreira científica no país?Esse objetivo de chegar aos 3% do PIB tem sido um desígnio do nosso país e precisamos que aconteça, mas também precisamos de cada vez mais investimento privado na ciência e inovação. Porque em termos de investimento público é impossível chegar a esse valor isoladamente.Por isso, um dos aspetos importantes que achamos que a AI² pode trazer é a captação de colaborações público-privadas e levar a indústria, o investimento privado, a perceber que, se não investe em ciência e inovação, também não vai continuar a crescer e não vai ter o ecossistema que é preciso que exista no país. E que seja um ecossistema que permita contratar pessoas qualificadas, ou seja, que tenhamos empregos para pessoas mais qualificadas, com melhores salários, e que responda às necessidades sobretudo da nossa população mais jovem.Precisamos de reter talento e precisamos sobretudo que as pessoas sintam que Portugal é um país onde se quer viver.A AI² é a questão de tornar o sistema mais eficiente. Daqui a cinco anos, resultados concretos terão de existir para podermos dizer que esta reforma fez sentido e que valeu a pena.Também agora, no contrato de programa, estamos a desenvolver os indicadores, porque um dos aspetos fundamentais da agência é ser completamente transparente e prestar contas.Temos um contrato de programa, depois há autonomia para desenvolver os objetivos que se pretendem, e vão ter de prestar contas, porque isso é muito importante, e aumentar a transparência.Mas vai haver indicadores de níveis diferentes.Uns têm a ver com o serviço, diria, à comunidade: as pessoas, os investigadores e as instituições sentirem e valorizarem a forma como são servidos pela agência. Isso é algo que achamos que pode ser instituído rapidamente, dos tempos de resposta ao tempo que demora a avaliação, passando pela interoperacionalidade, a articulação entre os sistemas informáticos. Portanto, o serviço ao cliente, diria eu. É algo que a agência tem de implementar, e é um problema que temos nas nossas organizações, nomeadamente na Fundação para a Ciência e a Tecnologia e na ANI, onde as pessoas sentiam que nem sempre o serviço prestado à comunidade era uma prioridade. Queremos que isso aconteça com a AI², portanto vamos medir rapidamente essas mudanças.Depois, há um aumento da qualidade e da excelência da própria entrega, com mais publicações, mais patentes, mais desenvolvimento de startups, de produtos no mercado, de excelência na participação, por exemplo, em projetos europeus. É outro nível de indicadores, de prazo um pouco mais intermédio.E depois há o outro, que é onde queremos chegar: melhor qualidade de vida para as pessoas, mais impacto social, mais emprego, melhor economia, aumento do PIB, etc. Demora ainda mais a chegar, mas é o que pretendemos, ter resultados que se traduzam na vida prática das pessoas. A senhora secretária passa a vida entre a ciência, a investigação e a inovação. Mas, quando alguém lhe pergunta o que faz, consegue explicar em duas frases ou acaba sempre a dar uma aula?Uma coisa é fazer algo de que gostamos e que nos motiva todos os dias. Acho que isso é o mais importante. E para fazermos isso não temos de fazer sempre a mesma coisa. À medida que vamos ganhando experiência de vida e conhecendo pessoas, vamos tendo mais conhecimento e sendo mais experientes, e percebemos que podemos ser mais úteis numa altura em determinadas funções e noutras alturas noutras. Tem sido isso ao longo da vida.Gosto muito de ver doentes, portanto continuo a ser médica. E a clínica é importante. Tinha ambições políticas?Não, não. É mesmo porque, neste momento, estou num ministério e com um ministro que respeito muito, e o convite veio nesse sentido, e por isso aceitei. Não tem a ver com ambições políticas, mas é uma área que penso ser fundamental. A área da saúde também, obviamente, mas a área da educação, da ciência e inovação é a área onde temos de apostar para mudar o país. Não tenho dúvida nenhuma.Poder contribuir para isso nesta altura da vida é uma honra, e por isso aqui estou. Créditos fotográficos: Gonçalo F. Santos O conteúdo Helena Canhão, secretária de Estado da Ciência e Inovação, continua a exercer medicina: «Gosto muito de ver doentes» aparece primeiro em Revista Líder.