Encher o depósito tornou-se uma decisão cada vez mais ponderada para muitas famílias portuguesas. Com os preços dos combustíveis a pressionarem os orçamentos domésticos, a resposta começa a fazer-se sentir também na estrada: há menos deslocações dispensáveis, maior procura por postos de abastecimento mais económicos e uma atenção redobrada aos custos associados à utilização de um automóvel.Em Portugal, 37% dos condutores reduziram as deslocações não essenciais nos últimos seis meses para fazer face à despesa com combustíveis, enquanto 25% mudaram de posto de abastecimento na tentativa de encontrar preços mais baixos. Os números constam do mais recente estudo Observador Cetelem Automóvel, intitulado «Origem ou Preço? O que move os condutores», que analisou os comportamentos dos consumidores em 13 países.A pressão financeira não se limita, contudo, à frequência com que os portugueses conduzem. Está também a transformar os critérios utilizados na escolha de um automóvel. O preço continua a assumir um papel determinante, ultrapassando fatores como o prestígio ou a origem da marca. Num contexto em que a mobilidade pesa cada vez mais nas despesas familiares, a decisão de compra parece estar menos ligada à imagem do veículo e mais à capacidade de o suportar financeiramente. Preço pesa mais do que a origem na escolha de um automóvelA importância do preço ajuda a explicar algumas das particularidades do mercado português. Num país sem uma marca automóvel nacional, 60% dos inquiridos admitem já ter excluído uma marca da sua lista de opções apenas por causa da sua origem.A realidade é diferente nos mercados com fabricantes próprios. No Japão, 83% dos consumidores afirmam que dariam preferência a uma marca nacional, uma proporção que desce para 53% na Alemanha, 51% nos Estados Unidos e 48% em França. A identidade industrial continua, assim, a ter peso na decisão de compra, embora a sensibilidade ao preço atravesse diferentes geografias.A fidelidade às marcas também não é um dado adquirido. Entre os compradores de automóveis novos, 48% repetem a marca numa segunda aquisição. No mercado de usados, essa percentagem cai para 32%, revelando uma relação mais pragmática com o veículo e com o fabricante.Também a ligação emocional ao automóvel parece estar a perder terreno. Apenas 47% dos portugueses dizem sentir uma ligação forte ao veículo que utilizam atualmente, abaixo da média europeia, situada nos 53%, e bastante distante dos 86% registados na China. Híbridos e elétricos representam mais de metade das intenções de compraA transformação dos hábitos de mobilidade estende-se à escolha da motorização. Entre os portugueses que tencionam comprar um automóvel nos próximos 12 meses, 52% apontam para um modelo híbrido ou elétrico, uma proporção idêntica à média dos 13 países analisados e próxima da média europeia, que se fixa nos 55%.Ainda assim, Portugal fica atrás de outros mercados do Sul da Europa. Em Itália, 68% dos potenciais compradores manifestam preferência por um híbrido ou elétrico, seguindo-se Espanha, com 65%, e França, com 60%.Os dados sugerem que a transição energética continua a ganhar espaço nas intenções dos consumidores, embora a decisão esteja também condicionada pela capacidade financeira das famílias. A procura por alternativas aos motores tradicionais convive com uma preocupação muito concreta: quanto custa comprar, abastecer e manter um automóvel? Portugal cresce no mercado automóvel, apesar das dificuldades europeiasO contexto de maior contenção na despesa não tem impedido o crescimento do mercado automóvel português. Depois de 2025 ter terminado com 257 mil automóveis ligeiros de passageiros comercializados, mais 6,3% do que no ano anterior, as previsões apontam para um crescimento próximo dos 10% em 2026, até cerca de 280 mil veículos novos vendidos.Para 2027, a expectativa é de estabilização em torno desse volume. Desde a pandemia, Portugal acumulou um crescimento de 1% no mercado automóvel, acompanhando a Polónia, que avançou 8%. A evolução contrasta com a quebra média europeia de 17%, particularmente acentuada em mercados como França, onde a contração atingiu 26%, e Alemanha, com uma descida de 21%.Nas escolhas dos portugueses, os fabricantes europeus continuam a dominar. Peugeot, com 10% das vendas, Renault e Mercedes-Benz, ambas com 8%, ocupam os três primeiros lugares. No segmento dos elétricos, a liderança é partilhada pela Mercedes-Benz e pela Peugeot, cada uma com 11%, seguindo-se a BMW, com 9%.«O mercado automóvel português tem demonstrado resiliência, mas há uma conclusão que se destaca neste estudo: o preço continua a ser determinante na decisão de compra», afirma David Correia, diretor de Mobilidade do Cetelem.O responsável considera que, perante a pressão sobre os orçamentos familiares, os consumidores procuram soluções capazes de conciliar as necessidades de mobilidade com as suas possibilidades financeiras. Para o setor automóvel, acrescenta, o desafio passa por disponibilizar propostas ajustadas às expectativas e à capacidade económica dos compradores.Entre a redução das viagens, a procura pelo combustível mais barato e a intenção de comprar veículos híbridos ou elétricos, o retrato dos condutores portugueses revela uma mudança gradual na relação com o automóvel. Continua a ser um instrumento essencial de mobilidade, mas a liberdade de conduzir começa a ter um preço que cada vez mais famílias precisam de calcular.O conteúdo Encher o depósito está a mudar a vida dos portugueses: 37% já reduziram as viagens aparece primeiro em Revista Líder.