Os democratas conquistaram na terça-feira o controlo das duas câmaras do Congresso dos Estados Unidos, a primeira vez em vinte anos que um Presidente republicano perde simultaneamente o Senado e a Câmara dos Representantes. No Senado, o partido soma 54 lugares e lidera num outro, segundo a contagem reportada pela Associated Press; na Câmara, os democratas ultrapassaram a fasquia dos 218 lugares necessários para garantir a maioria, embora o apuramento final ainda decorra. Donald Trump, que pedira aos eleitores que imaginassem o seu nome no boletim de voto, disse aceitar os resultados eleitorais e manifestou abertura à cooperação com os democratas, recusando, ao mesmo tempo, encarar o desfecho como uma derrota pessoal.Uma maré que não pediu licençaQuando a poeira assentar, a bancada democrata poderá exceder os 260 deputados, o que lhe daria a maior força na Câmara desde 1990, ano em que o partido elegeu 267, e já por agora foram virados 25 lugares aos republicanos, mais do que os 21 de 2008. No Senado, a maioria assim tão folgada não se via desde esse mesmo 2008. Não houve, na origem desta vaga, nenhum enigma por decifrar: segundo a CBS, a aprovação de Trump caíra para 38% e 89% dos eleitores consideraram o custo de vida um fator importante ou decisivo, e a AFP junta à lista a cólera com as tarifas e com a guerra no Irão, que fez disparar o preço dos combustíveis.Os territórios tidos por inexpugnáveisFoi nos feudos que a maré se fez tsunami. No Texas, onde a Líder dava, há duas semanas, um empate técnico nas sondagens, James Talarico derrotou Ken Paxton com mais de onze pontos de vantagem quando a maior parte dos votos estava contada, e tornou-se o primeiro democrata a vencer uma eleição estadual no Texas em 32 anos. Na vitória, disse que o povo texano fora a sua fisga e que a noite pertencera à derrota de Golias. No Kansas, o pastor metodista Adam Hamilton venceu o senador Roger Marshall e fechou um jejum que durava desde 1932, quase um século sem um senador democrata.A lista alonga-se por terras que Trump ganhou à vontade em 2024. Na Carolina do Sul, Annie Andrews levou o lugar que, segundo a Al Jazeera, pertencera a Lindsey Graham até à sua morte, no início do ano, e que a irmã dele ocupava por nomeação; na Carolina do Norte, o antigo governador Roy Cooper bateu Michael Whatley por quase vinte pontos; no Maine, Troy Jackson destronou Susan Collins, que reconheceu a derrota; no Ohio, Sherrod Brown regressou ao Senado, e no Iowa Josh Turek venceu por quatro pontos. Em todos estes estados, e ainda no Texas, no Michigan e no Kansas, o candidato apoiado por Trump saiu derrotado, conforme enumera a Al Jazeera.O médico que o Presidente chamou jihadistaNo Michigan, Abdul El-Sayed venceu o republicano Mike Rogers e será o primeiro muçulmano de sempre eleito para o Senado americano, desfecho que a campanha de insinuações do Presidente não logrou travar: Trump apelidou-o de jihadista num comício e afirmou que seria o único senador obrigado a passar por um detetor de metais antes de entrar na câmara. O antigo responsável de saúde pública de Detroit, que em agosto desbaratara a máquina partidária nas primárias, respondeu no discurso da vitória sem alusões à fé: a América não precisa de voltar a ser grande, precisa de abraçar o que sempre a fez grande, a vontade de se aperfeiçoar, e isso começa por enfrentar as corporações e os interesses dos bilionários.Rostos que a história guardava na gavetaA noite foi pródiga em primeiras vezes, e quase todas pelas mãos de mulheres. Juliana Stratton, vencedora no Illinois, junta-se às senadoras Lisa Blunt Rochester e Angela Alsobrooks e dá ao país, pela primeira vez, três mulheres negras em simultâneo no Senado. Na Geórgia, Keisha Lance Bottoms, antiga presidente da câmara de Atlanta, tornou-se a primeira mulher negra eleita governadora nos Estados Unidos, ao derrotar o milionário Rick Jackson, que gastou mais de 200 milhões de dólares da fortuna pessoal na tentativa. No Novo México, Deb Haaland, da etnia Laguna Pueblo e antiga secretária do Interior, é a primeira mulher indígena eleita governadora de um estado.Registem-se ainda Xavier Becerra, o primeiro latino governador da Califórnia, e Chris Pappas, que no New Hampshire se torna o primeiro senador abertamente gay. A honestidade do retrato pede uma nota de contraponto, porque a história não se deixou monopolizar: na Florida, Byron Donalds, republicano, será o primeiro governador negro do seu partido.A insurgência que cresce dentro de casaO que a noite tem de mais disruptivo, porém, não se mede só contra Trump. Em junho, três candidatos apoiados por Zohran Mamdani venceram primárias democratas em Nova Iorque, a despeito de Hakeem Jeffries ter feito campanha contra a sua lista. No Colorado, Melat Kiros, candidata apoiada pelos Socialistas Democratas da América, destronou nas primárias a deputada Diana DeGette, com três décadas de casa, e venceu agora a eleição geral com facilidade, levando uma plataforma que a Fox Business resume em Medicare para todos e na abolição do ICE. Jeffries, que poderá tornar-se o primeiro presidente negro da Câmara, vai herdar uma bancada onde a ala que ele combateu já tem assento, e a convivência entre ambos será um dos enredos de 2027.Trump: a cortesia e o ressaiboA reação do Presidente foi um prodígio de ambivalência. Ao Fox News disse achar que os democratas fizeram um bom trabalho e que lutaram com afinco, ao New York Times garantiu estar absolutamente disposto a aceitar os resultados, e à CBS deixou uma mensagem de felicitações e vontade de trabalhar em conjunto. Mas, no mesmo fôlego, escreveu na Truth Social que, se estivesse no boletim, os republicanos teriam ganhado por esmagadora maioria, atribuiu a derrota ao facto de os eleitores não terem gostado dos candidatos e declarou, segundo a PBS, que não via nos resultados um golpe contra si. Na segunda-feira, num podcast, prometera vetar tudo.O gesto conciliatório vem acompanhado de um aceno concreto: Trump admitiu poder entender-se com os democratas em matéria de imigração, e acrescentou que provavelmente chegariam a um acordo. Quanto valerá a promessa, é coisa que só o calendário dirá.A direita em recuo, o capital em sobressaltoNas fileiras republicanas, o clima foi de quem sofreu um golpe. O presidente da Câmara, Mike Johnson, manifestou desalento e enveredou por uma longa digressão sobre os milhões de mortos do comunismo; do lado democrata, o deputado Robert Garcia limitou-se a avisar, em duas palavras, que se contratassem advogados, e Jeffries declarou o movimento MAGA em fuga de costa a costa. Elon Musk, que a Al Jazeera aponta como doador de peso na corrida texana, reagiu na rede X com a ironia de que a ideia dos centros de dados no espaço começava a parecer-lhe apetecível, e a CNBC regista que as ações da Tesla e da SpaceX recuaram cerca de 4% antes da abertura, enquanto os futuros do Dow subiam.O que esperar: dois meses de perigo e depois o poder das chavesA maioria democrata só toma posse a 3 de janeiro, e esse interregno é, para analistas como Trita Parsi, do Quincy Institute, o período mais delicado: Parsi receia que Trump escale a guerra no Irão antes de ter o Congresso contra si, lembrando que o Presidente costuma tornar-se mais temerário perante a humilhação. Depois, o quadro muda: o Senado controla as nomeações para embaixadores, ministros e juízes, incluindo o Supremo, e as comissões ganham poder de intimação. O senador Richard Blumenthal, tido como próximo presidente da subcomissão de investigações, prometeu em setembro usá-lo sem hesitar, e o rol de temas inclui os donativos para o salão de baile da Casa Branca e a expansão dos negócios da família Trump, cujo património pessoal terá crescido cerca de 2,2 mil milhões de dólares, segundo declarações financeiras citadas pela Al Jazeera.Os limites, contudo, são manifestos. Um veto presidencial só se derruba com dois terços das duas câmaras, o que exigiria votos republicanos; a destituição, que Trump já enfrentou duas vezes e de que saiu absolvido, nunca resultou na saída de nenhum Presidente; e as próprias lideranças democratas hesitam entre a fiscalização e a vida concreta dos eleitores, ou, nas palavras do senador Sheldon Whitehouse, entre investigar e resolver os problemas de custo que as famílias sentem. Restaurar os subsídios da saúde, travar as tarifas e baixar os combustíveis dependerá, em boa medida, de acabar com a guerra, e economistas ouvidos pela Al Jazeera avisam que os preços descem como penas depois de subirem como foguetes. E quanto ao conflito no Irão, advertiu Parsi, se os democratas nada fizerem para o conter, deixará de ser apenas a guerra de Trump.O recado que faltava saberQuando a Líder escreveu, a 22 de outubro, que faltava saber se o Michigan e o Texas, feitos de outras geografias e de outras impaciências, deixariam passar o mesmo recado que Nova Iorque dera, a pergunta ainda tinha lícito suspense. Já não tem. O recado passou, passou em dobro e passou por estados onde ninguém o esperava, e o que resta é o ofício, mais árduo do que a vitória, de o transformar em governo. Os republicanos, refere a MS NOW, já olham para 2028; os democratas têm dois anos para provar que a vaga foi mais do que um agravo, e Trump, aos 80, tem o mesmo prazo para demonstrar que o seu partido sobrevive sem ele no boletim. O conteúdo A América que Trump não desejava: mulheres, indígenas e um senador muçulmano fazem história aparece primeiro em Revista Líder.