A inteligência artificial está tornando os hackers cada vez mais sofisticados e poderá aumentar significativamente os riscos para bancos, corretoras de criptomoedas e outras instituições financeiras. O alerta foi feito nesta quinta-feira (5) por Michael Saylor, fundador e presidente executivo da Strategy, durante sua participação virtual no OranjeBTC Summit 2026, realizado em São Paulo. Apesar das preocupações, o empresário defendeu que a estrutura do Bitcoin continua resistente a essas ameaças, principalmente por sua simplicidade tecnológica.As declarações acontecem uma semana depois do ataque hacker de US$ 6,3 bilhões sofrido pela Binance, considerado o maior roubo da história das criptomoedas. Durante o painel, Saylor foi questionado sobre o impacto da inteligência artificial na segurança das plataformas que movimentam ativos digitais e se os avanços dessa tecnologia poderiam colocar em risco o próprio Bitcoin.Para o executivo, o desenvolvimento dos modelos mais avançados de IA representa uma mudança importante na capacidade dos criminosos de encontrar vulnerabilidades e explorar falhas em sistemas financeiros.“O segredo sujo da inteligência artificial é que ela é realmente muito inteligente”, afirmou Saylor, lembrando que, durante muito tempo, essas ferramentas foram subestimadas por causa de erros e respostas imprecisas.Segundo ele, hackers que utilizam modelos avançados de IA passam a contar com recursos capazes de ampliar significativamente sua capacidade de identificar e explorar falhas de segurança.Na avaliação do empresário, os sistemas mais expostos são justamente aqueles responsáveis por movimentar dinheiro, especialmente quando dependem de softwares complexos e mal desenvolvidos.“O que existe de mais vulnerável no mundo são softwares complicados e mal construídos que movimentam dinheiro”, afirmou.O alerta ganha relevância após a divulgação de novos detalhes sobre o ataque à Binance. Segundo um relatório apresentado pela corretora na terça-feira (3), criminosos associados à Coreia do Norte passaram meses tentando comprometer computadores de funcionários por meio de falsas entrevistas de emprego e programas infectados.Durante a operação, os invasores também utilizaram uma ferramenta interna de inteligência artificial da Binance para ampliar seu acesso aos sistemas responsáveis pelas carteiras digitais. A investigação, entretanto, não estabelece que modelos de IA tenham sido utilizados para identificar todas as vulnerabilidades exploradas no ataque.Saylor defende uso de IA para combater hackersApesar de considerar a inteligência artificial uma ameaça crescente à segurança digital, Saylor argumentou que a própria tecnologia pode ser uma das principais ferramentas para impedir novos ataques.O empresário recomendou que bancos, corretoras e empresas responsáveis por carteiras digitais utilizem continuamente os modelos de inteligência artificial mais avançados disponíveis para testar seus sistemas de segurança.Segundo ele, essas ferramentas podem acelerar procedimentos que tradicionalmente dependem de especialistas humanos, como testes de invasão, identificação de vulnerabilidades e análises de códigos de programação.Saylor lembrou que trabalha no setor de software empresarial desde 1989 e que os testes de penetração, conhecidos como pentests, sempre fizeram parte das melhores práticas de segurança. A diferença, em sua visão, é que a inteligência artificial permite realizar essas atividades em uma escala muito maior.Para o fundador da Strategy, os clientes deveriam exigir das instituições financeiras informações sobre como a inteligência artificial está sendo utilizada para proteger seus recursos.Ele argumentou que a principal pergunta a ser feita a um banco, custodiante ou prestador de serviços financeiros atualmente é se a empresa utiliza modelos avançados de IA para testar continuamente seus sistemas, encontrar vulnerabilidades e corrigir falhas.Além disso, Saylor recomendou a utilização de mecanismos de autenticação multifator baseados em dispositivos físicos, capazes de reduzir os riscos associados ao roubo de senhas e credenciais.Na avaliação do executivo, sistemas que dependem apenas de perguntas pessoais ou informações que podem ser descobertas por terceiros já não oferecem proteção adequada diante das novas capacidades dos criminosos.Embora a inteligência artificial possa acelerar a identificação de falhas, seu uso não elimina a necessidade de controles tradicionais de segurança, como a limitação de acessos, a segregação de funções e a verificação independente de operações críticas.Bitcoin deve evitar atualizações apressadas, inclusive contra computadores quânticosAo abordar a segurança do próprio Bitcoin, Saylor defendeu que uma das principais vantagens da criptomoeda está nas decisões técnicas tomadas desde sua criação.Segundo ele, o protocolo foi desenvolvido para priorizar a segurança e a estabilidade de uma rede monetária, em vez de incorporar continuamente novas funcionalidades.O empresário citou como exemplo a decisão de não transformar o Bitcoin em uma plataforma de programação tão abrangente quanto outras blockchains, como Ethereum e Solana, que oferecem estruturas mais amplas para a execução de contratos inteligentes.Na visão de Saylor, essa limitação é uma característica positiva, porque reduz a complexidade do protocolo e, consequentemente, as possibilidades de exploração de vulnerabilidades.O executivo também destacou o mecanismo de mineração do Bitcoin, que utiliza o algoritmo criptográfico SHA-256 e exige grande capacidade computacional para validar blocos e proteger a rede.Para ele, a combinação entre criptografia, poder computacional e regras relativamente simples torna o Bitcoin mais resistente aos riscos associados à inteligência artificial do que aplicações financeiras complexas desenvolvidas sobre redes blockchain.Essa avaliação, no entanto, não significa que a rede ou seus usuários sejam imunes a ataques. Softwares de carteiras, serviços de custódia e outras aplicações utilizadas para movimentar Bitcoin continuam sujeitos a falhas de segurança.Saylor também demonstrou preocupação com propostas para acelerar a implementação de novas funcionalidades no protocolo, incluindo soluções de proteção contra computadores quânticos.O executivo reconheceu que existem iniciativas para desenvolver criptografia resistente a ataques quânticos, mas argumentou que modificações precipitadas poderiam introduzir vulnerabilidades que atualmente não existem.Segundo ele, ainda não há um computador quântico capaz de representar a ameaça prática que justificaria uma mudança emergencial em todos os sistemas envolvidos no processamento de transações de Bitcoin.Na avaliação de Saylor, substituir rapidamente os mecanismos criptográficos utilizados pela rede, sem um período suficientemente longo de testes, poderia ampliar a superfície de ataque e criar oportunidades para criminosos que utilizam inteligência artificial.O executivo defendeu, portanto, uma abordagem conservadora, na qual eventuais atualizações sejam cuidadosamente avaliadas antes de sua implementação.A posição contrasta com a de pesquisadores que defendem antecipar o desenvolvimento de soluções pós-quânticas, justamente porque a adaptação de uma rede descentralizada como o Bitcoin pode exigir anos de preparação.O argumento central de Saylor é que a ameaça mais imediata não estaria no protocolo monetário em si, mas nos sistemas financeiros complexos que dependem dele e que podem ser colocados em funcionamento antes de passar por testes suficientes de segurança.IA vai transformar empregos e pode tornar Bitcoin ainda mais valiosoAlém dos riscos relacionados à segurança digital, Michael Saylor apresentou uma visão sobre os impactos econômicos da inteligência artificial nas próximas duas décadas.O fundador da Strategy acredita que a tecnologia provocará uma transformação profunda no mercado de trabalho, começando pelas atividades intelectuais e avançando posteriormente para profissões que dependem de tarefas físicas.Segundo ele, nos próximos dez anos, agentes de inteligência artificial deverão automatizar uma parcela crescente dos serviços realizados por profissionais de escritório, afetando modelos de negócios e carreiras que atualmente dependem do trabalho humano.Na década seguinte, a expansão da robótica deverá levar essa transformação para outras atividades, como transporte, serviços domésticos e tarefas industriais.Saylor acredita que esse processo reduzirá drasticamente o custo de muitos produtos e serviços, permitindo que as pessoas tenham acesso a recursos que hoje exigem grandes investimentos financeiros.Ele citou como exemplos a possibilidade de contar com serviços automatizados de contabilidade, assistência jurídica, medicina e entretenimento, além de robôs capazes de realizar atividades domésticas.Para o executivo, entretanto, a abundância gerada pela inteligência artificial não se estenderá a todos os ativos da economia.Seu argumento é que determinadas propriedades e recursos continuarão escassos, independentemente da capacidade dos sistemas automatizados de produzir bens e serviços.Entre os exemplos mencionados estão terrenos em localizações privilegiadas, obras de arte raras e o Bitcoin, cuja oferta máxima é limitada a 21 milhões de unidades.“Os robôs não vão criar mais terrenos à beira-mar em Palm Beach. Os robôs não vão criar mais Bitcoin”, afirmou.Na visão de Saylor, enquanto a inteligência artificial aumenta a oferta de produtos e serviços, a demanda por ativos verdadeiramente escassos poderá crescer, impulsionando seu valor ao longo do tempo.Essa avaliação é uma projeção do executivo e depende de fatores como demanda, adoção e condições econômicas. A oferta limitada do Bitcoin, por si só, não garante sua valorização futura.O empresário também relacionou essa tese à instabilidade política e econômica global, especialmente após as recentes eleições legislativas dos Estados Unidos.Para ele, mudanças de governo e alterações regulatórias aumentam a importância de ativos que podem ser transferidos entre diferentes países, sem depender de uma localização física específica.Saylor argumentou que imóveis, instalações industriais e outros bens físicos estão expostos às decisões políticas e tributárias das jurisdições em que se encontram. O Bitcoin, por outro lado, oferece a possibilidade de transferir a custódia do patrimônio entre diferentes países, embora continue sujeito às leis aplicáveis aos seus proprietários.Na avaliação do executivo, essa mobilidade, combinada à escassez e à segurança do protocolo, deverá reforçar a importância do Bitcoin em uma economia cada vez mais automatizada e sujeita a transformações políticas.Ao final de sua participação, Saylor também destacou o avanço da adoção de criptomoedas no Brasil. O empresário afirmou que o país tem desempenhado um papel de liderança no desenvolvimento do mercado de ativos digitais na América Latina e agradeceu o apoio da comunidade brasileira ao longo dos últimos anos.Para o fundador da Strategy, o avanço da inteligência artificial e as transformações econômicas das próximas décadas reforçam sua convicção de que o Bitcoin poderá funcionar como uma forma de capital durável em um ambiente de mudanças cada vez mais rápidas.O post Após hack da Binance, Michael Saylor alerta que IA está tornando hackers mais perigosos apareceu primeiro em Portal do Bitcoin.