A Coinbase afirmou na quarta-feira (4) que mantém mais de 99% dos ativos de seus clientes armazenados em carteiras desconectadas da internet, conhecidas como cold wallets, como forma de reduzir os riscos de ataques hackers. O comunicado foi divulgado após o roubo de US$ 6,3 bilhões em criptomoedas da Binance na semana passada, episódio que aumentou as preocupações com a segurança das maiores corretoras do mercado.Em publicação em seu blog oficial, a Coinbase afirmou que não foi afetada pela invasão à Binance e que seus sistemas e os recursos de seus clientes permanecem seguros. A empresa também detalhou os mecanismos utilizados para proteger sua infraestrutura de custódia, incluindo divisão de chaves privadas, limites de movimentação de recursos, monitoramento de operações suspeitas e sistemas capazes de interromper transferências imediatamente.O posicionamento acontece menos de uma semana depois do maior ataque hacker da história das criptomoedas. Em 29 de outubro, criminosos ligados à Coreia do Norte conseguiram acessar a infraestrutura de carteiras da Binance e desviar aproximadamente US$ 6,3 bilhões em ativos digitais.Segundo a investigação divulgada pela Binance, a invasão começou meses antes, quando hackers utilizaram falsas entrevistas de emprego e programas maliciosos para comprometer computadores de engenheiros da corretora. Os invasores também exploraram uma ferramenta interna de inteligência artificial e credenciais de funcionários para alcançar sistemas responsáveis pela movimentação de criptomoedas.A Binance informou que aproximadamente 98% dos ativos afetados já foram recompostos com recursos próprios e que está adquirindo os tokens restantes para concluir a recuperação. A empresa também ampliou de 10 para 44 o número de criptomoedas cobertas por seu sistema de prova de reservas, utilizado para demonstrar a existência dos ativos mantidos em custódia.Como a Coinbase protege as criptomoedas dos clientesSegundo a Coinbase, a principal medida de proteção é manter a maior parte das criptomoedas em carteiras frias, dispositivos ou sistemas de armazenamento cujas chaves privadas permanecem isoladas da internet.Diferentemente das carteiras quentes (hot wallets), utilizadas pelas corretoras para processar depósitos e saques rapidamente, as carteiras frias reduzem a exposição a invasões remotas. Isso acontece porque as chaves necessárias para autorizar transações não ficam diretamente acessíveis a sistemas conectados à internet.A Coinbase afirma que apenas uma pequena parcela dos ativos permanece em carteiras quentes para atender às necessidades de movimentação dos clientes. Conforme a demanda por saques aumenta ou diminui, a empresa transfere recursos entre os dois tipos de armazenamento, mantendo os saldos das carteiras conectadas sob monitoramento constante.No serviço de custódia voltado a investidores institucionais, a Coinbase afirma que 100% dos recursos são mantidos em armazenamento offline, com segregação dos ativos na blockchain.A companhia também utiliza um sistema de proteção que divide as chaves privadas das carteiras frias em diferentes partes. Dessa forma, nenhuma pessoa ou dispositivo possui isoladamente todas as informações necessárias para movimentar os recursos.Segundo a corretora, as chaves completas nunca são reconstruídas, nem mesmo durante a assinatura de transações. O mecanismo busca impedir que o comprometimento de um único computador, servidor ou funcionário permita o acesso aos ativos.Nas carteiras quentes, a Coinbase afirma que nenhum funcionário possui acesso permanente e individual ao serviço responsável por assinar transações. Qualquer alteração nesse sistema exige a participação de várias pessoas autorizadas.Outra camada de segurança envolve os limites de movimentação de recursos. A empresa estabelece restrições para a velocidade com que criptomoedas podem ser transferidas das carteiras frias para as quentes, impedindo a retirada de grandes quantidades em um intervalo curto sem verificações adicionais.Caso os sistemas identifiquem um aumento incomum nos saques ou uma movimentação suspeita envolvendo determinada conta, carteira ou blockchain, as transferências podem ser interrompidas até que a equipe de segurança analise o caso.A corretora também revelou que possui mecanismos conhecidos como kill switches, ou interruptores de emergência, capazes de suspender imediatamente parte ou todas as movimentações de recursos.Em determinadas situações, esses mecanismos retiram completamente do ambiente operacional as chaves utilizadas para autorizar transações. Assim, mesmo que um sistema seja comprometido, ele não poderá assinar novas transferências até que o acesso seja restabelecido após uma revisão de segurança.“Podemos interromper parte ou toda a movimentação de recursos assim que algo parecer errado”, afirmou a Coinbase em seu comunicado.Inteligência artificial aumenta preocupação com ataquesAlém dos mecanismos de proteção das carteiras, a Coinbase destacou que considera os próprios funcionários possíveis alvos de ataques de engenharia social, como ocorreu no caso da Binance.A empresa afirma que seus sistemas são desenvolvidos considerando a possibilidade de que criminosos consigam roubar senhas, comprometer computadores ou obter acesso indevido a contas de funcionários.Por isso, operações sensíveis exigem múltiplas aprovações, autenticação resistente a phishing e verificações independentes. A corretora também limita o tempo durante o qual funcionários podem acessar determinados sistemas e mantém monitoramento especial sobre profissionais com funções consideradas críticas.Essas medidas buscam evitar que uma única pessoa, mesmo com credenciais legítimas, consiga realizar operações capazes de comprometer grandes quantidades de criptomoedas.O alerta ganha importância diante da crescente utilização de inteligência artificial em ataques cibernéticos. No caso da Binance, os criminosos recorreram a uma ferramenta interna de IA durante a invasão e utilizaram estratégias de engenharia social para conquistar a confiança dos funcionários.Para a Coinbase, os avanços dessa tecnologia estão modificando rapidamente o cenário de segurança digital e exigem investimentos contínuos em novos mecanismos de proteção.A corretora, entretanto, também possui um histórico de incidentes de segurança. Em maio de 2025, a empresa revelou que criminosos haviam subornado funcionários terceirizados de atendimento ao cliente para obter informações pessoais de usuários. Na ocasião, os hackers exigiram um resgate de US$ 20 milhões, que a companhia se recusou a pagar.O vazamento afetou menos de 1% dos usuários que realizavam transações mensalmente na plataforma, segundo a empresa. Embora os criminosos não tenham conseguido acessar diretamente as criptomoedas, os dados roubados poderiam ser utilizados em golpes direcionados contra clientes.Mais recentemente, a Coinbase também informou que uma falha de segurança envolvendo a empresa de análise de dados Amplitude expôs informações de contato de uma pequena parcela de seus usuários, sem comprometer os recursos mantidos na plataforma.No novo comunicado, a Coinbase reforçou ainda que mantém os ativos dos clientes integralmente lastreados, na proporção de um para um. Segundo a empresa, as criptomoedas pertencem aos usuários e não são emprestadas ou utilizadas pela corretora sem autorização.A companhia também destacou sua situação financeira. Em 30 de setembro de 2026, a Coinbase possuía US$ 8,6 bilhões em caixa e equivalentes, além de US$ 2,2 bilhões em criptomoedas mantidas para investimento próprio. O valor total dos ativos de clientes e outros recursos administrados por sua plataforma alcançava US$ 377 bilhões.A empresa ressaltou que, por ter ações negociadas em bolsa nos Estados Unidos, suas demonstrações financeiras estão sujeitas a revisões periódicas e auditorias independentes. A Coinbase também afirmou possuir mais de 80 licenças regulatórias em diferentes jurisdições.Apesar das medidas anunciadas, o armazenamento offline não elimina completamente os riscos de ataques cibernéticos. A segurança das criptomoedas também depende dos procedimentos utilizados para autorizar movimentações, da proteção das credenciais de funcionários e da capacidade das empresas de identificar operações suspeitas antes que os recursos sejam transferidos.O episódio da Binance mostrou justamente que os criminosos não precisam necessariamente obter uma chave privada completa para provocar perdas bilionárias. Ao comprometer pessoas e sistemas responsáveis pelas operações, os invasores podem encontrar caminhos alternativos para movimentar ativos.Em meio à sequência de ataques recentes, que também atingiu instituições financeiras europeias, a Coinbase afirma que continuará investindo em segurança e no desenvolvimento de novas ferramentas para enfrentar ameaças cada vez mais sofisticadas.O post Após hack da Binance, Coinbase diz manter 99% das criptomoedas dos clientes fora do alcance de hackers apareceu primeiro em Portal do Bitcoin.