O banco francês Crédit Mutuel Arkéa confirmou nesta quarta-feira (4) ter sofrido um ataque cibernético que permitiu a realização de transações fraudulentas, após o investigador de blockchain ZachXBT identificar a instituição como possível vítima de um roubo de mais de US$ 133 milhões em criptomoedas. O banco, que administra mais de US$ 250 bilhões em ativos, afirmou que a situação está sob controle, mas não revelou o valor dos prejuízos.Em comunicado enviado ao CoinDesk, um porta-voz da instituição afirmou que o incidente não terá consequências financeiras para os clientes e que seus interesses estão totalmente protegidos. O banco também informou que suspendeu temporariamente algumas transações para evitar novas perdas e notificou as autoridades responsáveis. A dimensão total do ataque ainda está sendo avaliada.A identificação da instituição foi divulgada por ZachXBT, conhecido por investigar crimes envolvendo criptomoedas por meio do rastreamento de transações em blockchain. Na segunda-feira (2), ele havia alertado que uma entidade financeira ainda não identificada da União Europeia tinha perdido mais de US$ 106 milhões após criminosos conseguirem retirar recursos de contas mantidas em diferentes corretoras de criptomoedas.No dia seguinte, o investigador identificou outras retiradas suspeitas, que somavam aproximadamente US$ 27 milhões, elevando a estimativa do roubo para mais de US$ 133 milhões. Parte dessas movimentações ocorreu depois da divulgação inicial do caso.Na noite de terça-feira (3), ZachXBT revelou que a instituição supostamente afetada era o Crédit Mutuel Arkéa, grupo bancário francês com mais de 5,6 milhões de clientes e aproximadamente 211,5 bilhões de euros em ativos.O investigador afirmou ainda suspeitar que o prejuízo real seja superior aos US$ 133 milhões identificados até agora, já que sua análise não inclui possíveis movimentações realizadas por meio de operações de balcão, conhecidas como OTC (over-the-counter), que permitem negociar grandes quantidades de ativos diretamente entre as partes.Criminosos movimentaram milhões por diferentes corretorasUma investigação independente da empresa de análise de blockchain Bitquery identificou aproximadamente US$ 108,8 milhões em USDC retirados de contas nas corretoras Kraken, Crypto.com e OKX durante um intervalo de 21 horas entre os dias 1º e 2 de novembro.Os recursos passaram por centenas de carteiras digitais, em uma sequência de movimentações que buscava dificultar o rastreamento e a recuperação dos valores. Uma parte significativa das stablecoins foi convertida em Ethereum (ETH), criptomoeda que, diferentemente de tokens como USDC e USDT, não possui uma entidade central capaz de congelar unilateralmente os ativos.Segundo a Bitquery, cerca de US$ 63 milhões em stablecoins foram convertidos em Ethereum em apenas quatro horas. A empresa também identificou uma transferência de 396 ETH para um endereço de depósito vinculado à Kraken, mas não conseguiu determinar quem controlava a conta de destino ou se os valores foram congelados.ZachXBT relatou que os criminosos utilizaram diferentes estratégias para movimentar os recursos roubados. Além da conversão de USDC em Ethereum, parte do dinheiro foi enviada a serviços de troca instantânea de criptomoedas, incluindo WellWallet e Kyrrex, enquanto outras quantias foram convertidas em Monero (XMR) por meio da plataforma Wagyu.O Monero é conhecido por seus recursos de privacidade, que dificultam a identificação dos remetentes, destinatários e valores envolvidos nas transações. Por isso, a criptomoeda aparece com frequência em investigações sobre lavagem de dinheiro envolvendo ativos digitais.O investigador também criticou a demora na divulgação pública do incidente, afirmando que a ausência de uma comunicação mais rápida teria permitido que os criminosos movimentassem mais de US$ 30 milhões que poderiam ter sido congelados com a atuação das autoridades e das empresas responsáveis pelas stablecoins.Apesar da complexidade das movimentações, algumas corretoras conseguiram intervir. A Crypto.com confirmou que identificou recursos relacionados ao incidente e adotou medidas para impedir que eles continuassem circulando por sua plataforma.“Estamos cientes desse relatório e tomamos medidas para bloquear a movimentação de fundos relacionados ao incidente por meio da Crypto.com. Todos os recursos dos usuários permanecem seguros e acessíveis”, afirmou um porta-voz da empresa ao CoinDesk.A Kraken também informou, em declaração a outro veículo especializado, ter restringido contas relacionadas às transações suspeitas. As empresas ressaltaram que seus sistemas permanecem seguros, indicando que o episódio não representa necessariamente uma invasão direta à infraestrutura das corretoras.Banco buscava autorização para oferecer criptomoedas na EuropaO ataque acontece em um momento em que o Crédit Mutuel Arkéa se preparava para ampliar sua atuação no mercado de ativos digitais.Em maio deste ano, o jornal financeiro francês L’Agefi informou que a instituição havia solicitado autorização para prestar serviços com criptomoedas sob as regras do MiCA, marco regulatório da União Europeia para o setor.O objetivo era oferecer produtos e serviços relacionados a criptoativos tanto para clientes de varejo quanto para outras instituições financeiras, incluindo soluções disponibilizadas por meio da divisão Arkéa Banking Services.A confirmação do ataque ocorre em meio a uma sequência de incidentes de segurança envolvendo grandes empresas do setor de criptomoedas. Na semana passada, a Binance sofreu um ataque que resultou no desvio estimado de US$ 6,3 bilhões em ativos digitais, enquanto, no Brasil, o Mercado Bitcoin também foi alvo de uma invasão que provocou perdas milionárias.Apesar da proximidade entre os episódios, ZachXBT afirmou ter um elevado grau de confiança de que o ataque ao banco francês não foi realizado pelo Lazarus Group, organização de hackers associada ao governo da Coreia do Norte e responsabilizada por diversos roubos de criptomoedas.Segundo o investigador, a maneira como os recursos foram movimentados após o roubo apresenta diferenças importantes em relação aos padrões normalmente observados em operações atribuídas ao grupo norte-coreano.Ainda não há informações conclusivas sobre como os criminosos conseguiram acessar as contas vinculadas ao Crédit Mutuel Arkéa nas corretoras de criptomoedas. Também não foi esclarecido se os valores movimentados estavam originalmente depositados em moedas tradicionais ou ativos digitais, nem quanto do dinheiro poderá ser recuperado.A investigação continua em andamento, enquanto o banco francês trabalha para avaliar os prejuízos e determinar as circunstâncias que permitiram a realização das transações fraudulentas.O post Banco francês sofre ataque hacker e perde US$ 133 milhões em criptomoedas apareceu primeiro em Portal do Bitcoin.