A reação do mercado à vitória de Luiz Inácio Lula da Silva deve levar o Banco Central a adiar uma nova redução da taxa Selic, na avaliação de Luis Otávio Leal, sócio e economista-chefe da G5 Partners. Para ele, a alta do dólar e o risco de piora das expectativas de inflação justificam a manutenção dos juros nesta reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).Em entrevista ao Money Times, Leal afirmou que, antes da eleição, o mercado caminhava para esperar cortes tanto na reunião desta semana quanto em dezembro. A mudança no cenário, porém, deve fazer a autoridade monetária aguardar.“Eu acho que, com a vitória do Lula e a reação do mercado, principalmente na questão ligada ao dólar, o Banco Central vai esperar a poeira abaixar”, afirmou.Seu cenário também contempla, inicialmente, estabilidade dos juros em dezembro, embora a decisão dependa da evolução do câmbio, das expectativas de inflação e, principalmente, das sinalizações fiscais do governo.“Para a reunião de agora, para mim é manutenção, não tem clima para cortar os juros”.Economia mais fraca abre espaço para cortesSegundo Leal, o Banco Central terá de avaliar quatro forças: duas favoráveis à redução da Selic e outras duas que dificultam esse movimento.Do lado que permite cortes, estão o próprio nível dos juros e os sinais de desaceleração da atividade econômica. O economista cita o endividamento das famílias, o comprometimento da renda, a alta da inadimplência e as dificuldades financeiras das empresas.“Quando você olha os dados, a sensação é que a economia está desacelerando mais do que estava esperado”, disse.Na avaliação de Leal, o Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre pode apresentar uma contração de 0,1% a 0,2%, diante dos indicadores recentes de atividade, especialmente do varejo.Ele considera, porém, que medidas de estímulo ao consumo anunciadas neste último mês possam ajudar a atividade a voltar ao terreno positivo no quarto trimestre.Ainda assim, sua expectativa é de que a economia comece 2027 em condições mais fracas do que as observadas no início de 2026, o que contribuiria para reduzir as pressões inflacionárias.Dólar e expectativas dificultam queda da SelicNa direção contrária, a desvalorização do real pode pressionar os preços e limitar o espaço para o afrouxamento monetário.Leal avalia que, mesmo com uma acomodação após a reação inicial do mercado, o dólar deve permanecer em um patamar mais elevado. O movimento ainda pode ser reforçado pelas saídas de recursos que costumam ocorrer no fim do ano.Outro obstáculo é uma possível piora das expectativas de inflação para 2028 e 2029. Segundo o economista, esse movimento eleva as projeções de inflação nos modelos do Banco Central e dificulta os cortes.Nesse equilíbrio, a política fiscal será decisiva. “Eu acho que o que vai definir é a postura do novo governo Lula na questão fiscal”, afirmou.Para Leal, as medidas adotadas entre setembro e outubro elevaram o grau de exigência dos investidores. Assim, um ajuste capaz de satisfazer o mercado precisaria ser mais rigoroso do que aquele que o presidente estaria disposto a executar.Mesmo assim, alguma sinalização de contenção fiscal poderia contribuir para uma avaliação mais favorável do Banco Central.Dominância fiscal é possível, mas não provávelApesar das preocupações com as contas públicas, Leal não considera a dominância fiscal seu cenário mais provável.Esse quadro ocorre quando uma alta dos juros aumenta de tal forma a preocupação com a capacidade de pagamento da dívida pública que acaba provocando fuga de capitais, desvalorização cambial e mais inflação.“Eu acho que a gente ainda não está perto de uma dominância fiscal”, disse.O economista pondera, contudo, que a transição para esse cenário pode acontecer de maneira abrupta, sem uma deterioração gradual e previsível.