Um fragmento de coral saudável pode ajudar outro, afetado pelo branqueamento, a recuperar sua coloração e suas condições de sobrevivência. A constatação foi feita por pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, após dois fragmentos de corais se encontrarem acidentalmente em um tanque de laboratório. O pedaço que havia perdido as algas simbióticas responsáveis por sua coloração e nutrição começou a se recuperar em poucos dias. “Vimos sua cor se restaurar praticamente diante dos nossos olhos”, relatou o oceanógrafo Danny Collins. Em algumas semanas, o coral que estava morrendo tornou-se indistinguível do fragmento saudável. “Ficamos impressionados”, disse o pesquisador. “Parece que isso pode abrir caminho para uma possível restauração de recifes.”Publicado na revista Science Advances, o estudo mostra que o branqueamento não significa necessariamente a morte do coral e que sua recuperação pode ocorrer mais rapidamente do que se imaginava. O processo, porém, exige contato físico direto e compatibilidade genética entre os fragmentos. Nos experimentos, a separação de apenas alguns milímetros impediu a recuperação. Quando colocados em contato, corais de diferentes origens genéticas também não apresentaram integração, reagindo de maneira semelhante à rejeição de um órgão transplantado. Já os fragmentos idênticos fundiram seus tecidos. “Criaram uma espécie de ponte, que funciona como uma via expressa de nutrientes, permitindo que o coral saudável envie nutrientes e algas coloridas para o coral branqueado”, explicou Collins.Recifes de coral são ecossistemas frágeis, altamente sensíveis ao aumento da temperatura dos oceanos. Foto: Carlos dos Santos/Biofábricas de CoraisEssa capacidade de integração está relacionada à própria estrutura dos corais, animais coloniais constituídos por milhares ou milhões de pólipos individuais. Fragmentos com a mesma base genética conseguem se reconhecer e unir seus tecidos. Segundo Collins, o mecanismo também tem uma função na natureza: quando uma onda desprende um pedaço de uma colônia, ele pode se reconectar ao organismo original. A descoberta ganha relevância diante da situação desses ecossistemas. Cerca de 96% dos recifes de coral em águas rasas do mundo estão criticamente ameaçados e podem desaparecer até 2075, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Esses ambientes sustentam entre um quarto e um terço de todas as espécies marinhas, além de atividades pesqueiras e economias costeiras das quais centenas de milhões de pessoas dependem.A cientista de corais Julia Cole, que não participou da pesquisa, classificou os resultados como “um vislumbre de esperança”. Presidente do Departamento de Ciências da Terra e do Meio Ambiente da Universidade de Michigan, ela reconhece o potencial da descoberta, mas ressalta as dificuldades de aplicação em larga escala. “Se você pensar na escala dos recifes em quilômetros, ou, no caso dos maiores recifes, milhares de quilômetros… algo que exige contato entre corais seria um projeto muito meticuloso e, de certa forma, avassalador”, avaliou. Enquanto isso, a equipe de Collins investiga formas de aplicar o conhecimento em campo. O trabalho envolve extrair algas de recifes saudáveis, cultivá-las em laboratório e implantá-las em áreas ameaçadas antes de novos episódios de branqueamento. “Esperamos que, em um futuro próximo, possamos ter algumas intervenções implementáveis em campo e possivelmente ampliadas”, afirmou o oceanógrafo. Leia também: 1.Corais-de-fogo do Brasil podem estar sofrendo extinção silenciosa 2.Corais resistentes ao calor salvam recifes na Ilha Maurícia Apesar das perspectivas, a técnica não combate a causa fundamental da degradação dos recifes: o aquecimento dos oceanos. Para Cole, os esforços de restauração precisam ser acompanhados de medidas efetivas contra as mudanças climáticas. “Sabemos como resolver o problema do aquecimento climático que está causando esses problemas”, disse a pesquisadora. “Tudo se resume a levar a sério a redução das emissões de gases de efeito estufa, abandonar os combustíveis fósseis e fazer a transição para uma economia de energia limpa.”Estudo original: Science Advances – Recuperação rápida do branqueamento de corais através da transferência de simbiontes de corais saudáveis. The post Toque entre corais pode reverter branqueamento appeared first on CicloVivo.