Como foram as últimas 48 horas em que Daniel Vorcaro tentou evitar o fim do Banco Master

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Às 13h39 de domingo, 16 de novembro de 2025, Daniel Vorcaro recebeu no celular uma mensagem que, lida hoje, se parece com o boletim médico de um paciente terminal. Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, informava que havia conseguido avançar um pouco mais nos dias anteriores e que alguns contratos pendentes finalmente estavam assinados. Entre eles, mencionou um de “consolidação do DI para dar suporte ao processo no FGC”. Não era tudo. Costa enumerou três providências que ainda precisavam ser executadas: liquidar o montante disponível em Treasuries, concluir a renovação de uma carteira de revolvência e terminar a análise de uma nova carteira. A conversa não tinha a dramaticidade das mensagens que Vorcaro enviava naquela mesma época para Brasília, mas era talvez mais reveladora. Na tarde daquele domingo, o Banco Master ainda estava de pé e homens encarregados de sua sobrevivência trabalhavam como se houvesse uma saída. Faltavam pouco mais de trinta horas para o dono do banco ser preso e menos de dois dias para o Banco Central decretar a liquidação da instituição.As mensagens, chamadas telefônicas e vestígios digitais extraídos do iPhone de Vorcaro pela Polícia Federal permitem agora reconstruir aquelas horas com enorme precisão. Quando colocados ao lado de documentos do Banco Central, informações posteriormente divulgadas pelo Fundo Garantidor de Créditos e dos movimentos públicos que culminaram no anúncio da venda do Master, os registros revelam uma corrida disputada simultaneamente em dois tabuleiros. No primeiro estavam o caixa do banco, o BRB, o Fundo Garantidor de Crédito, investidores brasileiros e estrangeiros e uma tentativa desesperada de montar uma solução financeira antes que a liquidez desaparecesse. No segundo estavam Brasília e a Operação Compliance Zero, cuja chegada Vorcaro acreditava que poderia implodir o negócio que tentava fechar. Durante o fim de semana, ele alternou conversas com banqueiros, advogados e investidores com uma série de mensagens encaminhadas ao contato salvo em seu telefone como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Paulo Gonet, procurador-geral da República, Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, surgiam nos textos como personagens que Vorcaro queria alcançar, consultar ou sobre os quais buscava informações. Mais do que dinheiro, o banqueiro parecia ter descoberto que o ativo decisivo para salvar o Master era outro: tempo.A contagem regressiva ficara explícita na noite de sábado, 15 de novembro. Vorcaro ainda dizia estar mobilizando investidores e se mostrava convencido de que poderia resolver a crise. Em uma das mensagens, afirmava que havia colocado dinheiro próprio, arregimentado gente “pesada” e que pretendia assinar documentos com os investidores nos dias seguintes. Falava também dos estrangeiros e chegava a mencionar uma carta ligada à família real de Abu Dhabi. A operação só seria apresentada publicamente na segunda-feira, quando a Fictor Holding e um grupo descrito como formado por investidores dos Emirados Árabes Unidos anunciariam um acordo para adquirir o Master e realizar um aporte imediato de 3 bilhões de reais. No sábado à noite, porém, o negócio ainda era uma promessa em construção, e Vorcaro começou a demonstrar receio de que a polícia pudesse chegar antes das assinaturas.É nesse momento que o telefone deixa de contar apenas a história de um banqueiro procurando capital e passa a registrar uma operação paralela em Brasília. Vorcaro pergunta se Galípolo sabia do que estava acontecendo e quer saber se precisaria estar “fora” já na segunda-feira. Em outro texto, menciona a possibilidade de tentar “reverter” a situação com “Paulo ou Andrei”, referências tratadas pela investigação como relacionadas a Paulo Gonet e Andrei Rodrigues. O método de comunicação era peculiar e acabou permitindo à PF reconstruir seu destinatário: Vorcaro escrevia textos no aplicativo Notas do iPhone, fazia uma captura de tela e abria em seguida o WhatsApp. Cruzando os segundos exatos em que o arquivo era produzido, o aplicativo era aberto e a mensagem saía, os investigadores concluíram que aquelas imagens eram encaminhadas ao número salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Em determinado momento, Vorcaro resumiu o risco que enxergava com uma expressão especialmente eloquente: não se podia deixar que uma “bomba atômica” explodisse justamente quando a solução estivesse pronta.O domingo mostra por que ele considerava tão valiosas mais algumas horas. Enquanto Vorcaro procurava informações em Brasília, Paulo Henrique Costa tratava de uma engenharia financeira muito mais concreta. O “DI” mencionado pelo então presidente do BRB remete, no vocabulário bancário, aos depósitos interfinanceiros, operações pelas quais instituições financeiras emprestam recursos umas às outras e que funcionam como uma das ferramentas de gestão de liquidez do sistema. Ainda não é possível afirmar, a partir do relatório da PF, qual era a contraparte desse contrato, seu valor ou exatamente o que Costa queria dizer com “consolidação”. A frase seguinte, no entanto, permite compreender o objetivo: o instrumento deveria “dar suporte ao processo no FGC”. E esse processo não surgira naquele fim de semana. Meses antes, o Fundo Garantidor de Créditos já havia iniciado uma operação de assistência ao conglomerado Master destinada a permitir o pagamento de passivos elegíveis à garantia enquanto se procurava uma solução definitiva para o banco.O mecanismo é fundamental para entender a dimensão da crise. O Master havia crescido recorrendo intensamente a CDBs, os Certificados de Depósito Bancário, e outros produtos distribuídos ao público com a proteção do FGC, muitas vezes oferecendo remunerações bem superiores às dos grandes bancos. Quando a instituição passou a enfrentar dificuldades de liquidez e sua capacidade de captar novos recursos diminuiu, os papéis antigos não deixaram de vencer. O banco continuava precisando de dinheiro para honrá-los. Foi nesse ambiente que o FGC passou a fornecer recursos mediante uma estrutura de assistência financeira, que ao final de 2025 somaria 5,7 bilhões de reais. O fundo impôs condições, entre elas restrições às novas captações remuneradas acima de determinados limites. Em outras palavras, enquanto se procurava um comprador ou uma reorganização capaz de estabilizar o Master, o FGC ajudava a evitar que os vencimentos produzissem um colapso imediato.É por isso que a mensagem enviada por Paulo Henrique Costa no domingo merece atenção especial. Ela indica que, na véspera da intervenção, o presidente de um banco público ainda tratava diretamente com Vorcaro de um contrato ligado a liquidez interbancária e a um processo no FGC. Não há elementos suficientes, até agora, para afirmar que o contrato de DI integrava formalmente a mesma assistência financeira iniciada meses antes, nem para dizer quem colocaria o dinheiro ou em que condições. Mas há um fato documental: Costa vinculou as duas coisas na mesma frase. E sua lista de tarefas mostra que o plano não se limitava ao DI. Havia Treasuries para transformar em dinheiro, uma carteira de revolvência — o conjunto de operações de crédito em que o limite é automaticamente renovado à medida que o cliente efetua os pagamentos, como no cartão de crédito e no cheque especial — a renovar e uma nova carteira cuja análise ainda precisava ser concluída. Cada um desses itens representava uma possível fonte de liquidez ou uma peça da estrutura destinada a atravessar a crise.A referência às carteiras é particularmente sensível porque toca justamente o coração da investigação que depois destruiria o Master. A Operação Compliance Zero apura suspeitas de fraude em cessões de aproximadamente 12 bilhões de reais em carteiras de crédito do banco para o BRB. Segundo a PF, Vorcaro teria liderado o esquema investigado. Isso torna indispensável esclarecer os motivos da preocupação de Paulo Henrique Costa com a “carteira de revolvência” e de “nova carteira” ainda em análise. O relatório divulgado agora não fornece essas respostas e seria imprudente concluir que elas tinham qualquer relação com as carteiras investigadas. Mas a sobreposição temporal é suficiente para tornar o tema relevante: menos de dois dias antes da liquidação e da deflagração da operação policial, BRB e Master ainda discutiam carteiras e outras medidas financeiras destinadas a produzir liquidez.A própria sequência registrada pela PF oferece uma fotografia singular das duas operações ocorrendo simultaneamente. No caso da mensagem produzida às 13h39 daquele domingo, os peritos encontraram uma exceção esclarecedora ao padrão usual das comunicações. Depois de fazer a captura de tela, Vorcaro abriu o WhatsApp e sua primeira interação foi com o contato “PAULO HENRIQUE PH BRB”, ao qual escreveu “tudo bem?”. O relatório ressalta que o print não foi enviado ao presidente do BRB. A interação seguinte ocorreu com “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Em poucos segundos, o aparelho de Vorcaro havia transitado entre os dois mundos que dominavam suas últimas horas à frente do banco: de um lado, o presidente da instituição pública envolvida nas tentativas de solução financeira; de outro, o ministro do Supremo a quem o banqueiro vinha encaminhando seus temores e pedidos relacionados ao que acontecia em Brasília.Isso não significa que Moraes, Gonet, Andrei ou Galípolo tenham atendido aos desejos de Vorcaro. A diferença é crucial. O material apreendido revela o que o banqueiro dizia, temia e tentava obter, mas não demonstra automaticamente que as autoridades mencionadas tenham tomado providências em seu favor. O próprio relatório da PF registra que a análise não é exaustiva e que seu objetivo é expor os elementos encontrados no aparelho, não atribuir crimes a magistrados ou integrantes do Ministério Público. O que se pode afirmar é que Vorcaro acreditava que havia duas maneiras de salvar o Master e procurava trabalhar nas duas ao mesmo tempo: encontrar dinheiro suficiente para sustentar o banco e ganhar prazo suficiente para que esse dinheiro chegasse.Essa lógica aparece de forma particularmente crua nas mensagens do fim de semana. Vorcaro calculava que, se a medida que temia pudesse ser adiada, teria os dias necessários para concluir as assinaturas e apresentar a solução ao mercado. Em determinado momento, sintetizou sua expectativa dizendo que, com esse prazo, “o banco não quebra”. Era uma avaliação interessada, feita pelo próprio controlador e que os acontecimentos posteriores colocariam em xeque. A situação econômico-financeira do Master acabaria se revelando muito mais profunda, e a conta do FGC alcançaria dezenas de bilhões de reais depois da liquidação. Ainda assim, a frase é decisiva para compreender o comportamento de Vorcaro: ele não agia como alguém resignado à falência. Até as últimas horas, aparentava acreditar que o problema poderia ser resolvido se conseguisse empurrar o relógio alguns dias para a frente.Na segunda-feira, 17 de novembro, a estratégia financeira passou a ser executada em ritmo de emergência. Vorcaro escreveu que estava fazendo uma “correria” para antecipar investidores e tentaria assinar e anunciar ao menos uma parte da operação naquele mesmo dia. A solução, originalmente pensada para ser fechada com mais calma e com a participação simultânea dos investidores estrangeiros, precisava se transformar imediatamente em um fato público. Horas depois, a Fictor anunciou o acordo para assumir o Master ao lado de um grupo de investidores dos Emirados, com promessa de aporte de 3 bilhões de reais e saída de Vorcaro do controle da instituição após as aprovações regulatórias. Will Bank e Master de Investimentos ficariam fora da transação. Para quem observava de fora, o banco acabava de encontrar uma saída. Para quem acompanha hoje as mensagens no telefone de seu controlador, a impressão é bem diferente.Depois do anúncio, Vorcaro continuou perguntando se havia alguma novidade e se alguém conseguira obter informações ou bloquear o movimento que ele temia. Em outra mensagem, reconheceu que o ideal teria sido fazer o anúncio na sexta-feira seguinte, junto com os investidores estrangeiros, mas disse que aquela fora a solução possível diante das circunstâncias. A frase seguinte revela a outra finalidade que ele atribuía à divulgação precipitada da venda: acreditava que o anúncio “pode inibir”. A operação, portanto, não era vista por seu controlador exclusivamente como um negócio capaz de recapitalizar o banco. Na lógica registrada em seu próprio celular, tornar pública a entrada dos novos investidores poderia também dificultar ou desestimular uma medida que destruísse o Master antes da conclusão do negócio.O celular mostra ainda que Vorcaro não passou aquelas horas numa linha exclusiva com Moraes. Advogados, executivos e auxiliares aparecem nos registros em torno dos mesmos momentos, compondo uma espécie de gabinete de crise distribuído por várias conversas. Paulo Henrique Costa cuidava das pendências financeiras ligadas ao BRB; integrantes do círculo jurídico de Vorcaro aparecem em comunicações relacionadas ao avanço da investigação; assessores e empresários participavam das tratativas para a solução societária; e os contatos em Brasília eram acionados na tentativa de descobrir o que ocorreria nas horas seguintes. A reconstrução completa dessa rede ainda depende da identificação de todos os números que aparecem nos logs, mas o material já permite afastar a imagem simplificada de uma conversa bilateral entre o banqueiro e um ministro. Vorcaro comandava várias frentes ao mesmo tempo e utilizava interlocutores diferentes para problemas diferentes.A vida pessoal, curiosamente, quase desaparece justamente quando a crise chega ao ponto máximo. Martha Graeff havia sido uma interlocutora frequente de Vorcaro ao longo de 2025. O relatório registra ocasiões em que ele lhe contou que estava com Alexandre de Moraes, relatou encontros em casa e mencionou reuniões com Ciro Soares e outros personagens de Brasília. Em março, abril, maio e agosto, Martha aparece acompanhando o cotidiano do companheiro e perguntando onde ele estava ou com quem se encontrava. Nas conversas especificamente reproduzidas pela PF para os dias imediatamente anteriores à prisão, porém, ela não aparece. Isso não significa que os dois não tenham conversado — o próprio documento ressalta que sua análise não pretende ser exaustiva —, mas produz um contraste revelador entre o cotidiano registrado meses antes e o telefone tomado, nas horas finais, por banqueiros, advogados, investidores e autoridades.Na noite de segunda-feira, as duas corridas finalmente desembocaram no mesmo lugar. A venda do Master estava anunciada, mas ainda dependia de assinaturas, dinheiro e autorizações. Vorcaro seguia falando em concluir a participação dos investidores estrangeiros e foi para o Aeroporto Internacional de Guarulhos. A defesa sustentaria depois que a viagem havia sido comunicada previamente ao Banco Central e tinha como objetivo continuar as negociações no exterior. A Polícia Federal o prendeu antes do embarque. Naquela altura, haviam transcorrido pouco mais de trinta horas desde a mensagem em que Paulo Henrique Costa ainda falava de contratos assinados, DI, FGC, Treasuries e carteiras como tarefas de uma instituição que tentava sobreviver.Na manhã de 18 de novembro, o Banco Central encerrou a disputa. A autoridade monetária decretou a liquidação extrajudicial do Master alegando grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas do sistema financeiro. A venda anunciada na véspera perdeu o sentido, o mecanismo preventivo do FGC deu lugar à obrigação de ressarcir investidores e as operações que apareciam como tarefas urgentes no WhatsApp de domingo passaram a pertencer à autópsia financeira da instituição. Ficaram no celular de Vorcaro as marcas de uma tentativa de salvamento conduzida simultaneamente no mercado e em Brasília — um banco público ainda discutindo formas de produzir liquidez, investidores convocados às pressas, advogados acompanhando a ameaça policial e o controlador tentando descobrir quanto tempo lhe restava.O dado mais impressionante dessas 48 horas talvez seja justamente a distância entre a percepção de Vorcaro e o desfecho. No domingo, ele acreditava que alguns contratos, a liquidação de ativos, novas carteiras e mais alguns dias seriam capazes de impedir a quebra. Na segunda-feira, conseguiu anunciar 3 bilhões de reais em novo capital e ainda dizia estar a caminho de fechar a participação dos investidores estrangeiros. Na terça, não havia mais banco para salvar. O dinheiro que deveria comprar tempo não chegou antes do relógio, e o tempo que Vorcaro tentava comprar em Brasília acabou na porta de embarque de Guarulhos.Com VejaO post Como foram as últimas 48 horas em que Daniel Vorcaro tentou evitar o fim do Banco Master apareceu primeiro em Vitrine do Cariri.