O Itaú BBA retomou a cobertura das ações da Brisanet (BRST3) com recomendação equivalente a neutra e preço-alvo de R$ 3,20 para o fim de 2027. A projeção representa potencial de valorização de 13% em relação à cotação utilizada no relatório.Embora reconheça o histórico de crescimento da companhia e o valor da infraestrutura construída no Nordeste, o banco avalia que a relação entre risco e retorno está mais equilibrada nos níveis atuais.“Poucas histórias no setor brasileiro de telecomunicações são tão particulares quanto a da Brisanet”, afirmam os analistas. Eles lembram que a companhia nasceu no interior do Nordeste, construiu organicamente uma operação de fibra óptica de grande escala e agora utiliza essa estrutura para avançar na telefonia móvel.Ainda assim, as condições mais desafiadoras do mercado nordestino, a necessidade de investimentos elevados na expansão do 5G e a falta de catalisadores de curto prazo justificam uma postura mais cautelosa.O BBA também destaca o dividend yield relativamente baixo, estimado em cerca de 2% para 2026 e 2,8% para 2027. Na avaliação dos analistas, esses níveis oferecem “proteção limitada contra quedas” em meio às incertezas macroeconômicas, especialmente por se tratar de uma empresa de menor capitalização e liquidez restrita.Apesar das ressalvas, a ação negocia a um múltiplo considerado atrativo, de 3,3 vezes o EV/Ebitda projetado para 2027. O banco, contudo, prefere aguardar maior visibilidade sobre a execução da estratégia nos próximos anos.Do interior do Nordeste à telefonia móvelFundada há mais de 30 anos, a Brisanet cresceu de maneira inteiramente orgânica até se tornar o maior provedor regional de internet do Nordeste.A companhia conta com mais de 7,2 milhões de domicílios cobertos pela rede, aproximadamente 1,6 milhão de residências conectadas e participação próxima de 18% no mercado regional. A empresa lidera o segmento de fibra óptica em sete dos nove estados nordestinos.Para o Itaú BBA, a trajetória representa “um histórico raro de execução puramente orgânica”. A Brisanet opera com uma estrutura verticalmente integrada, formada por rede, torres, cerca de 117 mil quilômetros de fibra óptica e aproximadamente 300 data centers próprios.Na banda larga, porém, a estratégia está mudando. Em vez de continuar ampliando a cobertura de maneira acelerada, a empresa passou a priorizar a monetização da infraestrutura existente e o aumento da taxa de ocupação da rede, atualmente próxima de 22%.A Brisanet também vem privilegiando uma receita média por usuário, ou ARPU, mais saudável em detrimento de uma expansão mais rápida da base. O indicador B2C avançou 6,6% na comparação anual no segundo trimestre de 2026, para R$ 92,60.Essa estratégia resultou em uma desaceleração nas adições líquidas. A companhia conquistou cerca de 26 mil novos clientes no primeiro semestre de 2026, ante aproximadamente 67 mil no mesmo período de 2025.Expansão do 5G traz oportunidade e riscosA telefonia móvel é vista pelo BBA como a principal avenida de crescimento da Brisanet. Desde o início da operação, no fim de 2023, a companhia utiliza seu próprio espectro de 5G no Nordeste para oferecer pacotes que combinam serviços móveis e internet por fibra óptica.A base móvel superou recentemente 1 milhão de acessos e já responde por cerca de 11% da receita bruta consolidada. A expectativa é que essa participação alcance aproximadamente 26% até 2030.“A execução da operação móvel é a principal variável da tese de investimento”, afirma o relatório. Embora a adesão inicial, impulsionada principalmente pela portabilidade numérica, tenha sido positiva, ainda há incerteza sobre a participação de mercado que a companhia poderá alcançar e a rentabilidade do negócio em maior escala.A Brisanet também começou a avançar para o Centro-Oeste, com as primeiras vendas comerciais realizadas em Goiás. A empresa pretende cobrir 115 cidades da região até o fim de 2026, apoiada por um investimento inicial próximo de R$ 100 milhões.Segundo o banco, “o sucesso da expansão no Centro-Oeste ainda precisa ser comprovado”. A iniciativa testará se o modelo adotado no Nordeste pode ser replicado em uma região na qual a companhia ainda não possui presença relevante em fibra óptica nem o mesmo reconhecimento de marca.Além disso, as obrigações de cobertura relacionadas ao espectro de 5G se estendem até 2029 e exigirão investimentos elevados. O BBA estima desembolsos próximos de R$ 700 milhões por ano em 2026 e 2027, mantendo o fluxo de caixa livre pressionado no curto prazo.Concorrência e alavancagem preocupamOutro ponto de atenção é o perfil econômico do Nordeste. A região reúne consumidores mais sensíveis a preços, tíquete médio relativamente menor e churn mensal de aproximadamente 2,1% na banda larga.“A economia da região permanece estruturalmente mais desafiadora”, avaliam os analistas. Essa combinação limita o poder de precificação da companhia e torna os reajustes mais graduais, especialmente em um ambiente de juros elevados.O mercado também continua fragmentado, com diversos provedores menores competindo principalmente por preço. Ao mesmo tempo, existe o risco de que Vivo, TIM e Claro aumentem o foco no Nordeste diante da concorrência mais intensa nas regiões Sul e Sudeste.Na telefonia móvel, um ambiente mais promocional e o avanço das operadoras móveis virtuais, ou MVNOs, também podem dificultar a expansão da Brisanet.A alavancagem financeira é outra preocupação. A dívida líquida corresponde a aproximadamente 2,2 vezes o Ebitda, tornando os resultados mais sensíveis ao cenário macroeconômico e à evolução da concorrência.Para o BBA, essa combinação pode provocar maior volatilidade durante o ciclo de investimentos e reduzir a flexibilidade da empresa para alocar capital nos próximos anos.Unifique (FIQE3) segue como preferida do BBAAlém de retomar a cobertura da Brisanet, o Itaú BBA atualizou as estimativas para a Unifique (FIQE3) e manteve a recomendação equivalente a compra.O novo preço-alvo é de R$ 6,40 para o fim de 2027, o que representa potencial de valorização de 33%. A companhia também negocia a 3,3 vezes o EV/Ebitda projetado para o próximo ano.“A Unifique continua sendo nossa escolha preferida entre os provedores regionais de internet”, afirma o relatório.O BBA destaca o churn de 1,48% na banda larga — abaixo dos cerca de 2,1% da Brisanet — e o ARPU próximo de R$ 130. Também pesam a favor da empresa a atuação em uma região com perfil econômico mais favorável, a alavancagem controlada em 0,9 vez a dívida líquida sobre o Ebitda e o dividend yield projetado em 6,6% para 2027.O banco ainda vê a Unifique como uma possível consolidadora do mercado de telecomunicações no Sul ou, alternativamente, como potencial alvo de aquisição em um eventual processo de consolidação do setor brasileiro de banda larga.