Ultrapassar 1,5°C será inevitável, aponta novo relatório da ONU

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O aumento da temperatura global deverá ultrapassar 1,5°C, provavelmente nos próximos anos, elevando os riscos e impactos climáticos a níveis cada vez mais perigosos, mas ainda é possível reduzir as temperaturas e atingir as metas globais do Acordo de Paris, de acordo com um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).O documento, intitulado “Limitando a ultrapassagem” , identifica uma trajetória de “ultrapassagem, pico e declínio” como a melhor opção restante para minimizar a magnitude e a duração dessa ultrapassagem e tentar retornar a níveis abaixo de 1,5°C o mais rápido possível.Essa estratégia minimizaria o aumento máximo da temperatura por meio de cortes imediatos e sustentados nas emissões de gases de efeito estufa, incluindo o metano, rumo à neutralidade de carbono, e reduziria as temperaturas por meio de emissões líquidas negativas a longo prazo, com a remoção de dióxido de carbono (CDR, na sigla em inglês) cuidadosamente controlada – o processo de remoção de carbono da atmosfera e seu armazenamento por meio de reflorestamento ou outros meios – como parte essencial dessa estratégia.Ao mesmo tempo, seguir esse caminho envolveria ações de adaptação que reduzissem a vulnerabilidade aos impactos atuais, esperados e imprevistos das mudanças climáticas sobre as sociedades, comunidades e economias – embora provavelmente haja limites para a adaptação e impactos irreversíveis, especialmente se as temperaturas máximas não forem minimizadas. O relatório destaca que tal caminho reduziria os riscos e impactos, tornaria a adaptação menos difícil e dispendiosa e aumentaria as chances de redução das temperaturas.Conscientização sobre os riscos e as ações para reduzi-los aumentaram globalmente, mas medidas de adaptação têm sido insuficientes diante da magnitude do problema. Cena do desastre causado pelo excesso de chuvas em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Foto: Tânia Rego | Agência Brasil“Não há bons resultados se permanecermos acima de 1,5°C. Em todo o mundo, ondas de calor extremas já estão comprovando que os impactos climáticos serão mais rápidos, mais severos e mais duradouros, custando mais vidas e causando transtornos ainda maiores”, diz Inger Andersen, Diretora Executiva do PNUMA. “Agora é o momento de redobrarmos nossos esforços em prol da ação climática. Podemos – e devemos – trilhar o caminho certo. Reduzindo as emissões de gases de efeito estufa, fortalecendo a resiliência e a adaptação e garantindo que o aumento da temperatura acima de 1,5°C seja o menor e mais breve possível.”O Instituto Clima e Sociedade (iCS) reforça o chamado para ações imediatas. “Ultrapassar temporariamente o limite de 1,5°C é cada vez mais provável. Mas o overshoot nunca pode se tornar uma desculpa para desistirmos da meta de 1,5°C. Cada fração de grau importa. Cada ano que conseguimos reduzir o período dessa ultrapassagem importa. E cada investimento que fazemos hoje em mitigação, adaptação e resiliência importa. Quanto maior for o pico de temperatura, mais difícil, incerto e caro será fazer com que o aquecimento volte a cair”, afirma a diretora executiva do iCS, Maria Netto. “Acima de tudo, estamos falando de pessoas. As comunidades mais pobres e vulneráveis enfrentarão as consequências mais graves, o que significa que equidade, financiamento e cooperação internacional precisam estar no centro da nossa resposta”, completa. Leia também: 1.O clima é global, mas o risco tem endereço 2.Quase metade das crianças está exposta a riscos climáticos Impactos devastadoresO cenário mais otimista prevê um pico de aumento da temperatura de 1,8°C acima dos níveis pré-industriais, ultrapassando a meta de limitar o aquecimento a 1,5°C estabelecida pelo Acordo de Paris. A maioria dos outros cenários prevê picos mais elevados.Acima de 1,5°C, os riscos e impactos se intensificarão a cada fração de grau adicional e a cada ano. Os impactos previstos incluem eventos climáticos extremos mais intensos, perda de ecossistemas e submersão de Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento e cidades costeiras de baixa altitude. Espera-se danos severos à saúde humana, segurança alimentar, abastecimento de água, natureza, cidades, infraestrutura e economias.Colapso de uma geleira pode ter desencadeado a avalanche mortal no Nepal, em 26 de agosto de 2026. Foto: RS/Fotos PúblicasO relatório alerta que a probabilidade de ultrapassarmos pontos de inflexão irreversíveis aumenta com a magnitude e a duração das altas temperaturas. Estes incluem a desestabilização das principais calotas polares, a degradação da floresta amazônica e a perturbação da Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (o sistema de correntes que transporta água quente da superfície para o norte e água fria das profundezas para o sul, desempenhando um papel fundamental na regulação do clima). Alguns impactos podem surgir abruptamente, enquanto outros se acumularão ao longo do tempo.Considerando a magnitude dos riscos e os benefícios colaterais das intervenções climáticas, como uma transição rápida dos combustíveis fósseis para as energias renováveis ​​– melhorando a qualidade do ar e a saúde pública, reduzindo os custos de energia e aumentando o acesso à eletricidade – o relatório insta a uma ação acelerada, coletiva e global para entrar em uma trajetória de sobrecarga, pico e declínio. A rapidez e a intensidade com que essa ação ocorrer definirão o formato e a trajetória. Leia também: 1.Café 300% mais caro: estamos prontos para a conta do clima? 2.Vermont aprova lei para cobrar petroleiras por danos climáticos Condições para o sucessoForte vontade política e multilateralismo, políticas eficazes, governança inclusiva e financiamento são condições essenciais para a ação – e a equidade e a justiça devem fundamentar todas as respostas. Os países com maior responsabilidade pelas mudanças climáticas devem agir com maior rapidez e ambição.O relatório também conclui que a mitigação e a adaptação, que se reforçam mutuamente, devem avançar em conjunto, sendo ao mesmo tempo sensíveis aos riscos emergentes. Intervenções que alcancem tanto os objetivos de mitigação quanto os de adaptação devem ser priorizadas.O relatório enfatiza que a neutralidade de carbono é um marco rumo ao carbono negativo, sendo a remoção de dióxido de carbono (CDR) necessária em adição, e não em substituição, à redução sustentada das emissões de gases de efeito estufa. No entanto, a CDR só poderá contribuir de forma significativa para um retorno a um aquecimento global abaixo de 1,5 °C se o pico de aquecimento permanecer bem abaixo de 2 °C e todas as emissões residuais forem reduzidas. Estruturas de governança robustas para a CDR serão cruciais para permitir a implantação responsável e gerenciar as implicações para a integridade ambiental, a equidade e a escala.Soluções baseadas na natureza garantem cidades mais resilientes e pode salvar vidas. Foto: Srirath SomsawatO Observatório do Clima ressalta a urgência de abandonarmos os combustíveis fósseis. “Entramos numa era de consequências, como a tragédia da última semana no Nepal deixou claro, e nenhum governo do planeta está preparado para o que enfrentaremos nas próximas décadas. É hora de começar a falar sério sobre adaptação e de cobrar recursos de perdas e danos dos países ricos para as nações mais pobres. É hora de reduzir emissões de superpoluentes de vida curta, como o metano, para refrear rapidamente aumentos maiores de temperatura. Mas, sobretudo, é hora de eliminar os combustíveis fósseis, principais causadores desta crise”, afirma Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima. “Abandonar o objetivo de devolver os termômetros a 1,5oC não é uma opção; seria assinar um pacto coletivo de suicídio. Mas o pico e o declínio não ocorrerão enquanto países produtores de combustíveis fósseis olharem para essas indústrias como uma benesse em vez de uma maldição. É preciso parar já a expansão fóssil no mundo, e a COP31, daqui a dois meses, é uma oportunidade de tomar essa decisão”, conclui.Os cientistas estão deixando claro a realidade climática, resta saber se a resposta será a ação ou inação.The post Ultrapassar 1,5°C será inevitável, aponta novo relatório da ONU appeared first on CicloVivo.