Foto: Criada via Chat GPTÚltima semana de férias, último final de semana de julho. Agosto, através de um vento gelado, diz que está chegando. A manhã deste sábado ainda está muito fria. As nuvens não permitem que o sol apareça.O garoto Demá, sentado no meio-fio, encostado no poste de luz, come um pedaço de pão amanhecido e, cabisbaixo, num mundo só seu, aguarda a chegada do amigo Silvio. Vão varrer o Cine São Jorge.Logo Silvio surge na esquina. Caminhando rápido, dirige-se ao ponto de encontro. “Oi”, diz Silvio. Demá, levantando-se, responde ao cumprimento: “Oi, quer um pedaço?”. “Não, obrigado”.O diálogo termina ali. Encaminham-se até a casa do outro amigo, Cido, e, numa só voz, gritam: “Cidoooooo”. Uma voz de homem, nada amigável, responde: “O Cido vai ajudar na farmácia”.Os dois se entreolham, não dizem nada e continuam a caminhada. Cruzam com pessoas que se dirigem para seus trabalhos, são cumprimentados e respondem educadamente. Respeitam muito os mais velhos, orientação de casa, mas não deixam de mexer com as moças.“Seus moleques sem-vergonha, desaforados! Vou contar para os seus pais”.Eles riem, mas a citação dos pais os deixa meio preocupados. Filhos de pais nordestinos, morrem de medo dos pais e também do seu Ramiro, oficial de justiça, que, dizem, leva os meninos para o juiz, no Fórum.Mexem também com os garotos pequenos. Não batem, não judiam, mas assustam-nos. “Vou te capar, moleque!”, dizem, partindo para cima do garoto. O menino sai correndo e gritando: “Mãeee!”. Às vezes tropeça e cai. Eles riem e correm.Passam meio ressabiados e olhando de rabo de olho para os meninos maiores. Se algum deles os estranham, não se intimidam. Já vão xingando: “Vai tomar caju, filho da puta, xibungo!”, e saem na carreira. Apertar campainha e colar com goma de mascar já não tem mais graça.Silvio grita: “Corre, corre, corre”. A japonesa, na varanda da casa, brava, grita e fala em japonês. Demá não entende nada. Nem o que está acontecendo, nem o que ela fala, mas não pensa muito e sai correndo.Lá na frente, meio esbaforido, pergunta: “O que aconteceu?”. E Silvio responde, rindo: “Atirei um torpedo na perna da velha”. Torpedo era um pedaço de papel enrolado e dobrado que atirávamos através de um elástico, com uma ponta presa ao dedo indicador e a outra ao polegar, como um estilingue. Era muito dolorido. No cinema, durante as sessões, sentávamos nas últimas cadeiras e, no escuro, atirávamos o torpedo aleatoriamente no pessoal da frente. Às vezes alguém berrava porque tinham acertado sua orelha.Se Jorge Amado os tivesse conhecido, com certeza fariam parte do romance Capitães da Areia. Seriam os Capitães da Rua São João.Chegando ao cinema, já pegam suas vassouras e começam a varrer. Não conversam. Quando falam, é para dizer que acharam alguma coisa: carteira, farolete, guarda-chuva, bombom.Estão atrasados. São quase dez e meia e ainda têm de lavar os banheiros e espanar as 930 cadeiras. Quando o seu Jorge arrendou ou vendeu o cinema para o seu Ferratone, Demá continuou, mas o novo gerente era muito rigoroso.O gerente Pedro passava olhando se as cadeiras tinham sido espanadas. Demá percebeu que ele só conferia as cadeiras próximas ao corredor. Passou, então, a espanar apenas aquelas fileiras.Terminado o serviço, saíram para a rua. Passando em frente às Casas Pernambucanas, foram chamados pelo gerente. Ele explicou que o sábado estava muito movimentado, havia muita gente na cidade e queria que eles distribuíssem folhetos de propaganda pelas ruas. Disse ainda que pagaria adiantado.Os garotos toparam, pegaram os folhetos, que eram muitos, por sinal, e saíram distribuindo às pessoas.Subiram a rua até a Rafael Pereira e, vendo que os folhetos nunca acabavam, passaram a entregar vários para cada pessoa e a jogá-los nos estabelecimentos comerciais.O frio tinha diminuído e o sol havia saído, mas o vento aumentava cada vez mais. Quando chegaram ao final da rua, na passagem de nível, parecia que ainda estavam com a mesma quantidade de folhetos.Um olhou para o outro e, adivinhando o pensamento do amigo, jogaram todos os folhetos para o alto. A ventania encarregou-se de espalhá-los por toda a rua.Eles riam e gritavam: “Aleluia, aleluia!”Só não contavam que o gerente estava seguindo os dois. Quando olharam para trás e o viram, saíram numa corrida louca.Ficaram algum tempo sem passar em frente às Casas Pernambucanas.O post Aleluia, Aleluia apareceu primeiro em AGORA NA REGIÃO.