A agricultura moderna está passando por grandes transformações tecnológicas e climáticas. Diante da previsão de forte intensidade do fenômeno El Niño, a Companhia Brasileira de Propriedades Agrícolas (BrasilAgro) redesenhou sua estratégia de plantio para a safra de 2026 e 2027. O objetivo central é utilizar a tecnologia, o monitoramento de dados e a gestão de riscos para proteger a produção contra a instabilidade atmosférica.Para o engenheiro agrônomo Bruno Dupin Gaspar, referência internacional em tecnologia e inovação no agronegócio, o impacto real desse fenômeno vai muito além da meteorologia e mexe diretamente com o bolso do consumidor. El Niño é um fenômeno climático que tem consequências que vão muito além do clima – Crédito: Imagem gerada por IA/GeminiEm entrevista ao Olhar Digital, o especialista aponta que o El Niño atua como um “verdadeiro amplificador do clima”, castigando a produção nacional de formas distintas. Enquanto o Norte e o Nordeste enfrentam secas severas e estiagens históricas que prejudicam a pecuária e as lavouras, o Sul e o Sudeste sofrem com excesso de umidade e ondas de calor intenso que estragam hortaliças e fazem o café abortar suas flores.Essa turbulência climática afeta diretamente a economia doméstica por meio da lei da oferta e da procura. Conforme explica Gaspar, quando o volume de alimentos que chega aos centros de distribuição despenca devido aos danos no campo, os preços nas prateleiras disparam, gerando inflação e pesando no orçamento das famílias. Por esse motivo, a gestão de risco na agricultura amadureceu bastante nos últimos anos, exigindo que o setor trate o clima como um fator de negócio previsível por meio de defesas financeiras robustas, como o seguro agrícola e a criação de reservatórios comunitários.Bruno Dupin, engenheiro agrônomo referência internacional em tecnologia e inovação. – Crédito: Olhar DigitalLeia mais:El Niño está de volta — e os sinais já aparecem do espaçoCalor, ar seco e umidade: como o El Niño afeta alergias respiratóriasEl Niño: o fenômeno que muda o clima do planeta inteiro Tecnologia e precisão no campo: o novo rumo do algodão e dos grãos Uma das maiores mudanças práticas da BrasilAgro diante desse cenário ocorreu no cultivo do algodão, onde a companhia cortou em 70% a área de plantio tradicional. Com o apoio de sistemas digitais e monitoramento via satélite, a empresa priorizou apenas as zonas que possuem irrigação artificial controlada. Essa decisão estratégica evitou perdas em áreas de sequeiro, onde a volatilidade climática e o alto custo de capital por hectare tornavam a operação inviável em um ambiente de juros elevados.Os resultados financeiros comprovaram o acerto da cautela, já que o algodão pluma registrou margem negativa no ciclo anterior. Por outro lado, o uso de maquinário inteligente e sementes de alta tecnologia impulsionou frentes mais rentáveis, como a soja e o milho, cujas margens avançaram consideravelmente. A gestão de risco da companhia também eliminou do calendário as áreas agrícolas recém-abertas, que são altamente vulneráveis a secas prolongadas por ainda não terem a fertilidade do solo totalmente consolidada.Além do mapeamento avançado de solo, a frota de tratores e plantadeiras recebeu atualizações com piloto automático e GPS de alta precisão. Ressaltando o papel da inovação, Gaspar destaca que a tecnologia se tornou uma grande aliada ao cruzar dados de satélite e empregar drones para identificar pragas e estresse hídrico antes mesmo que o olho humano perceba o problema. Isso permite agir rapidamente, economizar recursos e garantir que a semeadura aconteça rigorosamente dentro da janela climática ideal.Colheita de algodão em Mato Grosso expõe desafios enfrentados pela BrasilAgro no exercício encerrado em junho de 2026, antes das mudanças para a próxima safra. – Crédito: PARALAXIS – ShutterstockSustentabilidade, portfólio redesenhado e resiliência diante do El Niño Com uma área total mantida em 165,2 mil hectares, a empresa redesenhou todo o seu portfólio de culturas, encerrando o feijão safrinha e ampliando as pastagens destinadas à pecuária. Modelos de manejo inteligente, como a rotação de culturas e a cobertura de solo com palha para reter a umidade, inspiram-se em polos agrícolas de alta eficiência no país, a exemplo da irrigação sustentável no oeste baiano e das pesquisas da Embrapa no Centro-Oeste.Para o especialista, contra a força da natureza, a melhor resposta do setor produtivo é a união de três pilares fundamentais. A tecnologia de ponta, o planejamento financeiro estruturado e a sustentabilidade formam o ecossistema necessário para blindar os negócios agrícolas contra crises severas e assegurar a previsibilidade da safra.O balanço anual da companhia fechou com prejuízo líquido de 90 milhões de reais, influenciado pela queda nas vendas de terras e perdas pontuais na cana-de-açúcar. Contudo, o forte avanço no EBITDA operacional e os ajustes tecnológicos demonstram que o agronegócio está cada vez mais digital, resiliente e preparado para superar os desafios impostos pelas oscilações do clima global.Com informações da revista Exame.O post Como o El Niño pode afetar o seu bolso apareceu primeiro em Olhar Digital.