No final dos anos 70, um pequeno avião monomotor, sem instrumentos de navegação e com apenas um tripulante, se perdeu no meio do Oceano Pacífico depois de mais de 14 horas de voo. Essa história tinha tudo para se tornar uma tragédia da aviação. Só não foi graças ao comandante de um avião de passageiros que passava próximo e resolveu gastar todo o tempo e toda a ciência que tinha disponível, para encontrar e salvar a vida daquele piloto. Mas pera aí! Essa não era uma coluna de astronomia? É, eu sei que você provavelmente estava esperando mais um capítulo da nossa série de viagens espaciais, mas vou pedir licença para atrasar um pouco nossa próxima viagem por um bom motivo: Na semana passada, ficamos sabendo que o Lito Sousa, que todos conhecem do canal Aviões e Músicas, havia sido diagnosticado com uma enfermidade neurodegenerativa rara e atualmente sem cura. E enquanto ele busca uma oportunidade de participar de tratamentos experimentais, que possam mudar esse prognóstico ou, ao menos, lhe dar mais tempo e qualidade de vida, eu resolvi lhe fazer uma homenagem contando essa história, que ele mesmo classificou como “a melhor história de aviação de todos os tempos”. Lito Sousa, canal Aviões e Músicas – Reprodução: YoutubeA TravessiaEra dezembro de 1978, um pequeno Cessna 188 voava sobre o Oceano Pacífico, entre Pago Pago, na Samoa Americana, e Norfolk, uma pequena ilha australiana isolada a milhares de quilômetros de qualquer grande massa continental. A bordo estava apenas o piloto Jay Prochnow. Aquele era o terceiro trecho de uma viagem em que ele cruzaria o Oceano Pacífico, partindo de São Francisco, na Califórnia, para entregar dois Cessnas em Sydney, na Austrália. O problema é que o Cessna é um avião agrícola, normalmente com autonomia de voo de 2 horas e meia. Ele não era projetado para viagens tão longas e sequer possuía instrumentos de navegação. Cessna 188 semelhante ao utilizado pelo Jay Prochnow na travessia do Pacífico. – Crédito: Licença Creative Commons/WikimediaPara conseguir realizar a entrega, Jay chamou um amigo para ir com ele, levando o outro avião e voando em dupla para que um ajudasse caso o outro tivesse problema. Eles levaram um reservatório extra de combustível e planejaram paradas no Hawaii, Pago Pago e Norfolk. Mas no meio da viagem, ao decolar de Pago Pago, o amigo sofreu um acidente e não pôde continuar. Jay decidiu então que voaria, dali pra frente, sozinho até a Austrália. Só que deu ruim e ele acabou se perdendo. Na verdade, eles não sabiam exatamente onde estavam em grande parte da viagem. Eles até faziam uma ideia considerando a velocidade do avião, os ventos e a direção em que estavam seguindo. Mas pra encontrar uma pequena ilha isolada no meio de uma imensidão de água, eles improvisaram um instrumento chamado ADF no painel do avião. Sintonizavam ele na frequência de uma rádio da ilha e esperavam se aproximar o suficiente para captar o sinal. Aí o ADF apontava a direção que eles precisavam seguir para chegar ao destino. Trajeto entre São Francisco e Sidney, planejado por Jay Prochnow e seu amigo. – Crédito: Google EarthE naquele dia, 14 horas depois de decolar de Pago Pago, o ADF captou o sinal de Norfolk e apontava para frente, indicando que Jay estava no caminho certo, e como o alcance do ADF era de 200 km, ele estimou que em uns 30 minutos estaria pousando na ilha. Só que depois de quase uma hora voando na direção apontada, o ADF perdeu o sinal de Norfolk. Jay percebeu que o único instrumento de navegação que ele tinha havia falhado e tudo que ele podia ver pela janela do Cessna era a imensidão do oceano. O ResgateA centenas de quilômetros dali, um DC-10 da Air New Zealand recebeu o pedido de socorro de Jay. O comandante Gordon Vette, após consultar a tripulação, perguntou aos 88 passageiros a bordo se eles não se incomodariam em atrasar um pouco a viagem para tentar encontrar e salvar a vida daquele piloto. Ninguém se opôs. E mais ainda, entre os passageiros estava Malcolm Forsyth, um navegador experiente que se voluntariou para ajudar na cabine de comando. Isso transformaria aquele voo comercial em uma espetacular missão de salvamento.O contato com Jay foi feito através do rádio HF, usado para longas distâncias. Mas pelo VHF, que tem alcance de cerca de 370 km, nada… Isso significava que o Cessna estava a mais de 370 km do DC-10, mas como saber em que direção? Da mesma forma como os antigos nativos daquela região se localizavam em suas viagens pelo oceano: através da navegação astronômica. O único astro disponível naquele momento era o Sol, próximo do horizonte, o que oferecia uma referência comum aos dois aviões. Gordon pediu que Jay apontasse o Cessna diretamente para o Sol e olhasse na bússula que direção estava seguindo. No DC-10, Gordon fez a mesma coisa. O Cessna apontava para 274º, enquanto o DC-10 apontava para 270º. E como a Terra é redonda, isso só poderia indicar que o pequeno avião estava ao sul do DC-10.Gordon pediu então que Jay estimasse a altura do Sol acima do horizonte. Como ele não tinha um sextante a bordo, usaram um instrumento para medir distâncias angulares bem conhecido dos astrônomos amadores: as mãos. Com o braço esticado apontado na direção do Sol, ambos contaram quantos dedos haviam entre o horizonte e o Sol. No Cessna, cerca de quatro dedos, e no DC-10, aproximadamente dois dedos e meio acima do horizonte.Como a Terra gira de oeste para leste, o Sol parece atravessar o céu e se pôr primeiro para quem está mais a leste. Então, Gordon concluiu que o Cessna estava a sudoeste do DC-10. Ele mudou o curso do avião e partiu para tentar localizar o pequeno avião, que já ficava perigosamente com pouco combustível. Ainda assim, Gordon pediu para que Jay permanecesse voando em círculos, bem apertados, praticamente sem sair do lugar. A ideia era tentar determinar uma posição mais precisa para o Cessna. Para isso, o DC-10 já estava indo aproximadamente na direção do monomotor enquanto tentava contato pelo VHF, que tem alcance curto. Quando conseguiu contato, Gordon marcou a posição no mapa e seguiu em linha reta até perder o contato. Novamente marcou a posição no mapa, se afastou e se reaproximou, entrando e saindo mais uma vez do alcance do VHF e marcando as posições. Esses quatro pontos marcados no mapa tinham algo muito importante em comum: todos eles ficavam a uma mesma distância de onde o Cessna estava, cerca de 370 km. Com isso, eles conseguiram traçar as medianas entre esses pontos e calcular a sua posição aproximada e definir qual direção o Jay teria que seguir para chegar a Norfolk. Representação de como Gordon calculou a posição do Cessna, marcando no mapa os pontos onde o DC-10 cruzou o raio de alcance do DC-10, depois traçando as linhas medianas entre esses pontos e determinando o local a partir da intercecção dessas medianas. – Crédito: Imagem gerada por IAAlém disso, eles fizeram uma última medição: Jay marcou o momento exato em que o Sol desapareceu no horizonte. Os controladores do aeroporto de Norfolk fizeram o mesmo e lá, o pôr do Sol ocorreu 22 minutos e meio mais tarde. Considerando isso e a diferença de altitude dos dois observadores, calcularam que Jay estava a aproximadamente 540 km a leste de Norfolk. Agora, a vida de Jay dependeria apenas da precisão dos cálculos. Mas Gordon não considerou sua missão cumprida e seguiu na direção em que esperava encontrar o Cessna. Das janelas do DC-10 os passageiros se revezavam procurando qualquer sinal do pequeno avião. A noite chegou. O combustível estava quase no fim. Jay já considerava pousar no oceano e esperar resgate, o que provavelmente seria fatal. Foi então que viu uma luz na superfície do oceano. Não era a ilha e sim uma plataforma de exploração de petróleo. Gordon conseguiu as coordenadas da plataforma e ao seguir naquela direção encontrou o pequeno Cessna! Todos eufóricos comemoraram aquele momento. Somente quando Jay pousou em segurança em Norfolk, sem nenhuma gota a mais de combustível e depois de mais de 23 horas pilotando o Cessna 188, Gordon se despediu e seguiu seu voo para o destino final. Por que contar essa história?Já queria trazer essa história para a coluna Olhar Espacial há algum tempo, por conta da sua bela intercecção entre a aviação e astronomia. Mas agora, diante desse duro diagnóstico e da nossa absoluta impotência em relação à doença enfrentada pelo Lito, concluí que esse seria o melhor momento para contá-la, como uma forma de homenagear e mandar a nossa força para ele. Eu conheci o trabalho do Lito Sousa através do Episódio 149 do canal Aviões e Músicas, quando ele contou a história do Cessna 188 perdido no Oceano Pacífico. Foi aquele vídeo que me fez conhecer, acompanhar e admirar seu trabalho. Lito, quero aproveitar este espaço para agradecer pela dedicação, pela excelência e por tudo aquilo que você construiu ao longo desses anos. Para mim, você é mais do que um divulgador ou influenciador. Você é uma verdadeira inspiração!Nós sabemos, Lito, que agora a vida lhe impôs um desafio dos mais complicados. Mas nós, assim como os passageiros daquele DC-10, estamos todos contigo. Apoiando, torcendo e esperando que, com a ajuda da ciência, você encontre a direção certa e consiga pousar em segurança.O post O pequeno avião perdido no Pacífico que foi salvo pela Ciência apareceu primeiro em Olhar Digital.