Uma pequena espaçonave pode ser lançada em direção a Alpha Centauri, o sistema estelar mais próximo do Sol, em uma viagem que levaria cerca de 80 mil anos. A proposta, chamada Fermi Explorer, pretende usar tecnologias já disponíveis para demonstrar que uma missão interestelar, mesmo extremamente lenta, pode ser realizada sem depender de sistemas de propulsão futuristas ou de investimentos bilionários.A ideia foi apresentada na terça-feira (1) pelo matemático e físico britânico Philip Johnston e outros empreendedores. O grupo pretende levantar US$15 milhões (cerca de R$76,6 milhões) para construir uma sonda com apenas 1 kg de carga útil e tentar lançá-la em 2029. Em vez de priorizar uma chegada rápida, o projeto aposta em uma estratégia de baixo custo para colocar uma espaçonave no caminho de outra estrela.A viagem até Alpha Centauri pode durar cerca de 80 mil anos, mesmo com a missão prevista para começar em 2029. – Imagem: Divulgação/Fermi Explorer MissionPor que Alpha Centauri é o alvo da jornada Em entrevista ao Olhar Digital, Roberto Dias da Costa, professor associado do Departamento de Astronomia do IAG-USP e diretor do CienTec, explica que o destino da missão não é uma estrela isolada como o nosso Sol. “Alfa Centauri é um sistema triplo que tem duas estrelas muito parecidas com o Sol, chamadas Alpha Centauri A e Alpha Centauri B, e uma anã vermelha, chamada Próxima Centauri, bem menor”.Segundo o astrônomo, as duas estrelas maiores estão separadas por 23 Unidades Astronômicas (UA), que é uma distância equivalente ao espaço entre o Sol e o planeta Urano, e ficam a 4,36 anos-luz da Terra. Já a terceira estrela orbita o par a uma distância muito maior, sendo o ponto mais próximo do nosso planeta. “Próxima é bem mais afastada do par, estando atualmente a cerca de 12 mil UA delas, e está a 4,24 anos-luz de nós, um pouco mais perto, portanto”.Sistema estelar triplo Alpha Centauri. – Crédito: Laboratório de Imagens Conceituais do Centro Espacial Goddard/NASAMesmo sendo nossa vizinha estelar mais próxima, a distância é tão gigantesca que uma nave convencional levaria milhares de anos para percorrê-la. A Fermi Explorer seguiria a aproximadamente 25 km/s, velocidade suficiente para escapar do Sistema Solar, mas muito pequena diante das distâncias entre as estrelas. O resultado seria uma viagem de aproximadamente 79.800 anos.Isso significa que, caso a missão seja lançada em 2029 e cumpra seu trajeto, a chegada ocorreria por volta do ano 81.829! Nenhuma pessoa envolvida no projeto estaria viva para acompanhar o resultado. Na verdade, milhares de gerações teriam passado entre o lançamento e a chegada. A espaçonave funcionaria, portanto, como uma espécie de cápsula tecnológica enviada para um futuro tão distante que o mundo de hoje seria irreconhecível.Como funciona a trajetória e a aceleração da Fermi ExplorerO desafio começa muito antes de a sonda deixar o Sistema Solar. A Fermi Explorer seria lançada inicialmente para a órbita baixa da Terra, provavelmente em uma missão de compartilhamento de lançamento. Depois, começaria uma longa sequência de manobras ao redor do Sol. Em vez de simplesmente apontar a nave para Alpha Centauri, os responsáveis querem usar a própria estrela como parte do mecanismo que dará velocidade à espaçonave.Durante mais de uma década, a sonda faria órbitas cuidadosamente calculadas, aproximando-se cada vez mais do Sol. O ponto de maior aproximação poderia chegar a 0,42 unidade astronômica, ou cerca de 62,9 milhões de quilômetros, o que representa pouco menos da metade da distância média entre a Terra e o Sol. Nessa região, a radiação solar é muito mais intensa, permitindo que os painéis produzam mais energia para alimentar o sistema de propulsão elétrica.Diagrama mostra o esquema tático da missão Fermi Explorer – Crédito: Imagem gerada por IAA equipe pretende combinar essas passagens próximas do Sol com o chamado efeito Oberth, fenômeno que permite aproveitar melhor uma queima de motor quando a espaçonave está se deslocando em alta velocidade. Repetidas manobras desse tipo, chamadas de “bombeamento de periélio”, aumentariam gradualmente a velocidade da sonda até que ela finalmente conseguisse escapar do Sistema Solar.Segundo Costa, no entanto, a estratégia adotada pelo grupo privado não representa um grande avanço no setor aeroespacial. “Eles dizem que é um teste da tecnologia, mas creio que servirá apenas para testar o ‘efeito estilingue’, que consiste em colocar uma sonda numa órbita que permita passagens rasantes por perto de um corpo muito massivo, que neste caso é o Sol, e assim ganhar velocidade. Mas isso de maneira alguma é inédito, diversas sondas já utilizaram essa técnica”.De acordo com uma avaliação técnica de 81 páginas produzida com auxílio de inteligência artificial, esse processo de aceleração solar poderia levar aproximadamente 12 anos. Depois disso, a Fermi Explorer seguiria praticamente por inércia em direção a Alpha Centauri. A velocidade de cerca de 25 km/s seria suficiente para iniciar a jornada, mas não para torná-la rápida. A maior parte dos 80 mil anos seria passada em uma longa trajetória pelo espaço interestelar.A missão não pretende transportar pessoas, nem sequer uma grande quantidade de instrumentos científicos. A prioridade é testar se uma espaçonave muito pequena consegue realizar uma viagem desse tipo utilizando componentes relativamente simples. Contudo, sem propulsão ativa após a fase inicial, o astrônomo do IAG-USP destaca a falta de precisão da trajetória. “Como essa sonda hipotética não tem nenhuma direcionalidade e viajará apenas por inércia, creio que não tem como ‘apontar’ precisamente para uma das três estrelas do sistema”.Depois das primeiras etapas, a comunicação também seria um problema. O contato direto duraria cerca de 18 meses, enquanto retrorrefletores ajudariam telescópios terrestres a acompanhar a nave por algum tempo. Quando ultrapassasse a região de Júpiter, no entanto, a Fermi Explorer se tornaria cada vez mais difícil de detectar, avançando silenciosamente por dezenas de milhares de anos. Não haveria uma equipe aguardando a chegada nem uma missão de resgate. O destino da sonda seria simplesmente continuar sua trajetória até alcançar o sistema de Alpha Centauri.Depois do Sol, a Proxima Centauri é a estrela mais próxima da Terra – Créito: ESA/Hubble/NASALeia mais:Podemos estar muito perto de encontrar lua habitável de Avatar na vida realJames Webb encontra possível planeta em estrela “gêmea” mais próxima do SolPartículas do vizinho estelar Alpha Centauri invadem o Sistema SolarPerda de sinal perto de Júpiter gera críticas: Voyagers se comunicam de muito mais longeA perda de sinal em um ponto tão precoce é um dos aspectos mais criticados pelos especialistas. “Se eles mesmos dizem que perderão a rastreabilidade da sonda quando ela estiver mais ou menos na distância de Júpiter, daí para frente serão só conjecturas. Note que as sondas Voyager 1 e 2 foram lançadas em 1977 e ainda estão em operação! Elas estão atualmente mais de 150 vezes mais longe do Sol do que a Terra! Júpiter está apenas 5 vezes mais longe do Sol do que nós”, analisa Costa.Por mais improvável que pareça, a viagem de 80 mil anos tem um objetivo que vai além de chegar a outra estrela. Johnston relaciona o projeto ao paradoxo de Fermi, que questiona por que, diante da enorme quantidade de estrelas e planetas existentes, ainda não encontramos evidências convincentes de outras civilizações. Uma possibilidade é que viagens interestelares sejam simplesmente difíceis demais para qualquer espécie realizar.A Fermi Explorer seria uma maneira de testar justamente essa hipótese. Se uma civilização tecnológica consegue enviar uma pequena espaçonave para outra estrela usando recursos relativamente modestos, mesmo que ela demore dezenas de milhares de anos para chegar, uma das possíveis barreiras do paradoxo perde força. A missão também deixaria uma mensagem para um futuro extremamente distante: a humanidade conseguiu, pelo menos, tentar atravessar o espaço entre as estrelas.O projeto ainda está longe de garantir que isso acontecerá. A equipe precisa conseguir financiamento, construir a espaçonave, encontrar um lançamento adequado e executar uma sequência complexa de manobras. Mesmo que todas essas etapas sejam concluídas, a missão continuará sendo uma aposta de prazo praticamente incompreensível. O post Projeto quer lançar sonda espacial em viagem de 800 séculos: avanço histórico ou ilusão tecnológica? apareceu primeiro em Olhar Digital.