Um festival para todos? No Kalorama, a música encontra outros sentidos

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À tarde, quando a multidão ainda deixava algum espaço entre corpos, chegar às plataformas destinadas a pessoas com mobilidade condicionada fazia-se com relativa facilidade. As acessibilidades existiam e eram visíveis. Mas o recinto ainda iria mudar de escala. Quanto mais gente chegasse, mais apertados ficariam os caminhos, mais difícil seria qualquer deslocação e mais evidente se tornaria uma verdade que nenhuma planta de acessibilidades consegue desenhar por completo: um festival é uma cidade temporária em constante movimento.É junto à entrada principal que se encontra uma das estruturas mais discretas e, ao mesmo tempo, mais concretas da operação. A Oficina de Acessibilidade ocupa um espaço onde dezenas de cadeiras de rodas adaptadas aguardam utilizadores, muitas delas equipadas com propulsores que permitem percorrer os caminhos do Parque da Bela Vista através de comandos manuais.É a terceira presença consecutiva da Total Mobility no festival. Nuno Caldas, sócio-gerente da empresa, explica que o trabalho nasce de uma ideia simples: «a empresa dedica-se à adaptação e o seu objetivo é proporcionar o melhor festival a quem tem alguma condição». O stand funciona também como uma espécie de pequena oficina mecânica no meio da cidade efémera do Kalorama. Cerca de duas dezenas de voluntários e trabalhadores fazem afinações, trocam pneus e resolvem pequenas avarias. Tudo gratuitamente.Nuno faz questão de destacar ainda a participação da TSimetria, ligada a soluções de posicionamento e mobilidad.. E há uma outra iniciativa da Total Mobility que ultrapassa os limites do recinto: um shuttle adaptado que permite transportar pessoas com mobilidade condicionada até ao festival e assegurar também o regresso a casa. A lógica é a de retirar obstáculos antes que eles se transformem em desistências.Susana Marques conhece esses obstáculos por dentro. Um acidente de mota deixou-a com paraparesia, condição que afeta a mobilidade dos membros inferiores e pode dificultar a marcha. Hoje faz parte da organização da Oficina de Acessibilidade. Não há melhor lugar para alguém que conhece na própria pele a distância entre uma solução desenhada no papel e aquilo que acontece quando uma pessoa chega ao terreno. «Acho que o tamanho das plataformas deve ser aumentado, pois há cada vez mais público com alguma condição a procurar o festival», diz. O reparo não apaga o entusiasmo. Susana está a aproveitar os dias no Kalorama e reconhece uma característica que facilita a vida a quem visita a Bela Vista: «os caminhos do parque facilitam muito a circulação».Há balcões de restauração adaptados. As instalações sanitárias dispõem de espaços acessíveis. Existem lugares de prioridade e plataformas junto aos palcos. Há pontos de água potável acessíveis e até soluções pensadas para cães-guia e cães de assistência, embora, durante a passagem da Líder pelo recinto, não tenha sido possível encontrar nenhum.Mas existe uma barreira que nenhuma adaptação consegue instalar no chão. «As pessoas que ainda têm pouca sensibilidade com os outros», responde Susana quando lhe perguntamos qual é o maior problema.É uma resposta que desloca a discussão. A acessibilidade pode ter rampas, plataformas, cadeiras, sinalética e tecnologia. Não pode obrigar uma multidão a reparar que alguém precisa de mais espaço para passar.A música não acaba nos ouvidosA Fundação MEO tem procurado alargar essa ideia para lá da mobilidade. Raquel Carrilho, Diretora de Comunicação e Projetos de Impacto Social da Fundação MEO, descreve o trabalho desenvolvido no festival como «progressivo e integrado».Raquel Carrilho, ao centro, com Carlota Grilo, à direita, e Matilde Matos, à esquerda, da equipa da Fundação MEO.As rampas e as plataformas são apenas uma parte do trabalho. Há outra, menos visível, que passa por saber comunicar com quem chega ao festival. Raquel fala numa comunicação «cirúrgica».A estratégia passa por uma rede que envolve a organização, entidades públicas, associações e, cada vez mais, os próprios artistas. Raquel destaca o contributo do Estado e de organizações como a ACAP, mas também uma mudança na indústria: os artistas estarão, segundo a responsável, cada vez mais conscientes de que um palco não termina nas pessoas que conseguem ouvir ou ver o espetáculo sem qualquer adaptação. No Kalorama, essa mudança ganhou diferentes formas.Uma delas está na Língua Gestual Portuguesa. Esta edição marcou a primeira vez que o festival contou com intérpretes para a comunidade surda nos concertos abrangidos pelo programa de acessibilidade. A experiência não se limita a transportar palavras para gestos. Um intérprete precisa de conhecer o repertório, compreender o contexto e acompanhar o ritmo, a intensidade e a emoção de quem está em palco.Há também dois espaços de visualização destinados à comunidade surda, permitindo assistir aos concertos em condições pensadas para quem precisa de uma relação diferente com o palco. E há uma outra possibilidade: sentir.Os espaços de vibração sensorial permitem que pessoas surdas experimentem fisicamente parte daquilo que acontece num concerto através das vibrações produzidas pela música. É uma ideia que obriga a repensar a própria palavra «ouvir». Porque um concerto pode ser uma experiência sonora, mas também pode passar pelo corpo. Para pessoas cegas ou com deficiência visual, a experiência pode chegar através da audiodescrição.A aplicação SENTIDO concentra diferentes recursos de acessibilidade e permite acompanhar conteúdos através do telemóvel. No Kalorama, a ferramenta foi utilizada para disponibilizar audiodescrição dos concertos. A tecnologia passa, assim, a funcionar como uma espécie de segunda camada do espetáculo: uma descrição daquilo que está a acontecer quando os olhos não conseguem acompanhar. Há coisas que uma rampa não resolveA questão é que a experiência de um festival não começa nem acaba num palco. É feita de filas, casas de banho, comida, água, deslocações, multidões, ruído, luzes, encontros acidentais e milhares de pequenas decisões tomadas por pessoas que não estão necessariamente a pensar em acessibilidade.Por isso, a Sala de Pausa Sensorial talvez seja uma das soluções que melhor traduzem a mudança de paradigma. Um festival pode ser demasiado intenso. O som, as luzes, a multidão e a sucessão permanente de estímulos muitas vezes tornam-se  uma barreira para pessoas neurodivergentes ou para quem tenha maior sensibilidade sensorial. Nesse espaço, a possibilidade de interromper a experiência também faz parte da experiência.A mesma lógica atravessa outras medidas. Existem cadeiras de rodas manuais e soluções motorizadas para pessoas com mobilidade reduzida, inclusive temporária. Há uma oficina preparada para pequenas reparações de produtos de apoio. Existem pictogramas de comunicação aumentativa para pessoas não verbais. Há água para cães-guia e cães de assistência. Nenhuma destas coisas, isoladamente, transforma um festival. Juntas, começam a transformar a ideia de quem é o seu público.Raquel Carrilho acredita que o objetivo deve ser que o festival «seja para todos». E coloca a dimensão do desafio num dado: cerca de 11% da população portuguesa vive com alguma condição de deficiência.No Kalorama, 16 concertos foram totalmente preparados para serem acessíveis. O trabalho tem tido continuidade e já ultrapassa as fronteiras do próprio festival: a Fundação MEO tem sido contactada por organizações interessadas em replicar ou adaptar soluções desenvolvidas no universo dos festivais MEO.Há também um investimento crescente em tecnologia e na própria preparação interna da Fundação. A acessibilidade passou a integrar uma estratégia mais ampla. Mas o verdadeiro teste vai além das aplicações, das plataformas ou de uma lista de medidas. Está nas pessoas que chegam.Laura queria ouvir DeftonesGuilda e Laura Delgadinho já sabem o que é ir juntas a um festival. Mãe e filha. Não é a primeira vez que vão juntas a um evento desta dimensão. Foram convidadas pela ACAP. Guilda tem direito a bilhete enquanto acompanhante de uma pessoa cega. Laura tem 15 anos e uma deficiência visual grave. Reconhece a luz natural, mas pouco mais. A adolescente não precisava de um lugar numa narrativa sobre inclusão, queria estar diante do palco para ouvir os Deftones.Estuda, canta e toca. Transporta uma indignação muito suave na forma como fala sobre aquilo que ainda falta. «As pessoas surdas ou cegas são quase sempre excluídas de qualquer iniciativa», diz. A mãe olha para a filha com comoção. Laura, porém, fala com uma segurança que dispensa qualquer tradução mais sentimentalista. Quer experimentar verdadeiramente a audiodescrição do festival e perceber o que acontece quando uma experiência que, para os outros, chega pelos olhos, pode também chegar através de palavras. É uma diferença pequena apenas para quem nunca precisou dela. Para Laura, pode ser a diferença entre estar num concerto e participar nele.O Kalorama ainda tem coisas para melhorar. Susana gostaria de ver plataformas maiores. A multidão, à medida que cresce, torna a circulação mais difícil. E permanece aquela barreira invisível que nenhuma organização consegue controlar por completo: o comportamento de quem está ao lado.Mas existe uma diferença entre reconhecer uma barreira e fingir que ela não existe. No Parque da Bela Vista, a acessibilidade foi pensada para atravessar vários níveis da experiência: chegar, circular, comer, descansar, comunicar, ver, ouvir e sentir. E, ao fazê-lo, acaba por colocar uma pergunta que vai muito além dos três dias de música. Quem tem direito a viver um festival como qualquer outra pessoa?A resposta aparece quando as luzes se acendem e a música começa. Os artistas precisam do público e o público precisa dos artistas. Ambos precisam de um lugar onde possam estar. Uns sem os outros não fazem espetáculo. Laura que o diga.O conteúdo Um festival para todos? No Kalorama, a música encontra outros sentidos aparece primeiro em Revista Líder.